Exemplos reunidos no livro de Sarah Blaffer Hrdy, Le Temps des pères. Une histoire naturelle des hommes et des bébés (La Découverte, 2025), mostram que, em várias espécies — cavalos‑marinhos, casoares, campagnols das pradarias, titis e douroucoulis — os machos assumem cuidados parentais intensos: incubam, carregam, protegem e alimentam os filhotes, invertendo papeis tradicionais e com impacto na evolução das espécies.
O pai cavalo‑marinho: campeão do transporte
Nas espécies de cavalo‑marinho, a fêmea deposita os ovos na bolsa ventral do macho, que os fecunda, protege e fornece oxigénio e nutrientes até a eclosão. O pai expulsa os filhotes após semanas de incubação; nos peixes, esse processo envolve a isotocina, equivalente à ocitocina dos mamíferos.
Em alguns ciclídeos do lago Tanganica, o cuidado é igualmente extremo: os progenitores praticam a incubação bucal, mantendo os ovos na boca e jejuando durante o desenvolvimento, que pode durar até um mês.
O casoar: ela põe os ovos, ele faz o resto
O casoar casquado — um ave de grande porte conhecida pela força defensiva — surpreende pelo papel paterno. Após a postura dos ovos, o macho pode empoleirar‑se sobre a ninhada, alimentar‑se pouco, defendê‑la com bico e garras e orientar os filhotes rumo à autonomia por vários meses. Comportamentos semelhantes ocorrem em ratitas como émeus e nanduís, nos quais, em algumas espécies, a fêmea abandona o território logo após a postura.
O capão de Darwin: um indício sobre a plasticidade do cuidado
Charles Darwin observou que um capão (galo castrado) podia chocar ovos tão bem quanto, ou até melhor que, uma fêmea. No seu livro A Filiação do Homem e a Seleção em Relação ao Sexo (1871), ele citou esse comportamento como exemplo da plasticidade dos cuidados parentais, ainda que o interpretasse pela ótica de sua época como um “instinto materno deslocado”.
O campagnol das pradarias: monogamia e recompensa neural
Entre os mamíferos, o cuidado paterno direto é raro — presente em cerca de 5% das espécies. O campagnol das pradarias, contudo, é um caso bem‑documentado de monogamia e cooperação: o macho divide guarda, ninho e calor, chega a participar de carícias e desenvolve circuitos neuronais de recompensa semelhantes aos da fêmea quando cuida dos filhotes. Hormônios como ocitocina e vasopressina reforçam esse vínculo.
Primatas do Novo Mundo: filhotes sobre os ombros dos pais
Entre primatas, a regra costuma ser que quanto mais semelhantes a nós, menos os machos se implicam nos cuidados. Chimpanzés e gorilas delegam largamente às fêmeas, mas há exceções notáveis nas Américas: titis e douroucoulis apresentam forte envolvimento paterno. Nesses grupos, os machos carregam, protegem e alimentam os filhotes quase constantemente, e os jovens chegam a formar apego mais marcante ao pai do que à mãe.
Implicações evolutivas
“Em todas as espécies onde os machos cuidam dos filhotes, são as fêmeas que competem entre si por acesso aos machos e aos seus serviços”, observa Sarah Blaffer Hrdy. Nesses casos, as fêmeas podem tornar‑se maiores, mais competitivas e mais agressivas do que os machos. A existência de paternidade ativa em diversos táxons demonstra que o cuidado parental masculino não é uma anomalia, mas uma força que molda trajetórias evolutivas.
Fonte: Sarah Blaffer Hrdy, Le Temps des pères. Une histoire naturelle des hommes et des bébés (La Découverte, 2025).