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INFLUÊNCIA INTELIGENTE TODO DIA

Síndrome do impostor: uma epidemia?

Apesar de sinais objetivos de sucesso, cerca de 20% das pessoas apresentariam um quadro consolidado de síndrome do impostor, que pode provocar ansiedade, exaustão e limitar o potencial; intervenções como terapia, mentorias e mudança de autopercepção ajudam a conviver com o fenômeno.

Homem com expressão preocupada escrevendo, ilustrando dúvida e ansiedade associadas à síndrome do impostor
Imagem ilustrativa: pessoa com expressão pensativa enquanto escreve, simbolizando a dúvida e a ansiedade que acompanham a síndrome do impostor © Vitaly Gariev/Unsplash

Uma vez não faz costume: aproveito a publicação do último número da revista Sciences Humaines, dedicado aos nossos demônios interiores, para falar sobre as minhas amigas (e um pouco sobre mim). Anna — vamos chamá‑la assim — tem quarenta e poucos anos, um marido, um filho adolescente e vinte anos de experiência como pesquisadora em filosofia. Fala fluentemente quatro línguas, colaborou em projetos de pesquisa prestigiados, organiza colóquios, publica com regularidade em revistas reconhecidas e, contudo, confidenciou‑me seriamente durante uma caminhada no fim de semana: “sei que sou uma pesquisadora de segunda categoria, até medíocre”.

Ironia? Falsa modéstia? Como uma mulher tão brilhante pode duvidar tanto de si própria? Lembrei‑me então de que ela estava longe de ser a única. Sarah, por exemplo, entrou numa grande escola “por um mal‑entendido”, depois de um diploma com menção honrosa, conquista que atribui ao acaso; está convencida de que as pessoas deixarão de gostá‑la assim que descobrirem a sua suposta mediocridade. Ou Camille, que ainda duvida, três anos depois, da sua legitimidade para dirigir uma fundação — que, no entanto, conduz com talento. E eu poderia continuar…

Esse tipo de complexo tem nome: síndrome do impostor. Popularizado pela imprensa e por séries como The Good Place e The Chair, foi descrito pela primeira vez em 1978, nos Estados Unidos, por Pauline Rose Clance e Suzanne Imes. As duas psicólogas estudaram 150 mulheres formadas que ocupavam cargos prestigiados. Apesar dos indícios objetivos de sucesso, elas não se percebiam como bem‑sucedidas e invocavam frequentemente circunstâncias externas — acaso, sorte, erro — para justificar sua posição, enquanto outras reconheciam suas competências e trabalho. Pior: viviam na angústia permanente de serem desmascaradas por suas supostas deficiências e de prejudicar quem as rodeava.

Desde então, o conceito (o termo não é unânime) foi alvo de numerosos estudos científicos. “A síndrome do impostor não é nem um transtorno nem uma patologia. Não se trata de uma doença. Suas comorbidades, contudo, podem afetar o bem‑estar do indivíduo e a expressão do seu verdadeiro potencial”, apontam os psicólogos Kevin Chassangre e Stacey Callahan em Traiter la dépréciation de soi, le syndrome de l’imposteur (Dunod, 2024).

Sob a aparência, frequentemente, de pessoas competentes, eficazes e realizadas, os portadores escondem um pavor tanto da vitória quanto do fracasso e uma ansiedade geral diante da avaliação. Para evitar levantar suspeitas e provar seu valor, tendem a desenvolver uma máscara social — o faux‑self — e a multiplicar esforços, mesmo até se exaurirem (burnout). Mas esse sobreinvestimento, alimentado por crenças irracionais do tipo “se tenho de fazer tanto esforço é porque não mereço”, não só não os tranquiliza como reforça a sensação de incompetência.

A síndrome cria raízes na infância. Falta de incentivo ou, ao contrário, valorização excessiva da inteligência e do desempenho podem constituir terreno favorável. A psicóloga Valérie Young também identificou perfis mais propensos: estudantes, pesquisadores ou criativos que se comparam com outros tidos como talentosos; primogênitos com apoio parental intenso; minorias sociais ou grupos sujeitos a discriminações, entre outros.

Hoje o conceito está tão em voga que às vezes dá a impressão de que todo mundo é afetado. Mas, enquanto 70% de nós duvidariam pontualmente da própria legitimidade, apenas 20% apresentariam um quadro de síndrome caracterizado. Durante muito tempo foi apresentada como tipicamente feminina; estudos recentes indicam que atinge homens e mulheres em igual medida. Numa sociedade em que o homem não deveria demonstrar fragilidades, muitos buscam menos ajuda, explica a psicóloga Sandi Mann. Sabe‑se também que a síndrome se manifesta em todas as idades e em vários contextos: profissional, claro, mas também familiar, amigável, amoroso, esportivo…

E então, o que fazer? Se não nos livramos inteiramente do sentimento de impostura, advertem Chassangre e Callahan, é possível ao longo dos anos aprender a conviver com ele. Num artigo recente da revista Gestion, pesquisadores da HEC Montréal recomendam trabalhar as próprias percepções para construir “um discurso interior positivo, realista e objetivo”: por exemplo, listar realizações recentes e perguntar‑se “até que ponto contribuí para o sucesso deste projeto?”, aprender a aceitar elogios, recorrer a um mentor ou envolver‑se em um processo terapêutico quando as dificuldades são muito grandes. As terapias cognitivo‑comportamentais (TCC) propõem, entre outras coisas, aceitar a nossa vulnerabilidade e praticar o desapego.

Mas você tem certeza de ser um impostor suficientemente crível para interessar um psiquiatra ou psicólogo? Se, como eu, você já se fez essa pergunta, talvez seja hora de consultar. Ainda mais se o seu colega ou cônjuge sofre do chamado efeito Dunning‑Kruger — a tendência das pessoas menos qualificadas a superestimar suas capacidades!

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