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Autosabotagem: o “choke” — o colapso sob pressão

Há quase meio século a psicologia estuda o choke — o colapso sob pressão — que faz atletas se autosabotarem quando a vitória está próxima; pesquisas mapeiam causas cognitivas e situacionais e apontam rotinas e intervenções psicológicas para evitá‑lo.

Ilustração de uma bola de tênis estilizada escorrendo, representação visual do conceito de colapso sob pressão
Ilustração de uma bola de tênis derretendo que remete ao conceito de choke — o colapso sob pressão em contextos esportivos.

Há quase meio século, a pesquisa em psicologia tenta entender por que alguns atletas parecem se autosabotar e desmoronar sob pressão, perdendo vitórias que pareciam ao alcance das mãos. O fenômeno, conhecido como choke, é estudado em diversas modalidades e tem mobilizado experimentos e estudos de caso desde a década de 1980.

Postada logo atrás da linha de fundo, Jana Novotná prepara-se para sacar pela segunda vez. É 3 de julho de 1993, no central de Wimbledon: a jovem tenista tcheca está a poucos pontos de conquistar o maior torneio do mundo. No último set, ela vencia por quatro jogos a um, sacando para fazer cinco a um, diante da número um do mundo, a alemã Steffi Graf.

A pressão da vitória

Seu segundo saque sai muito longo, mais de um metro além da linha. Dupla falta. Um “oh!” sonoro da plateia, surpresa com um erro dessa magnitude. Novotná ainda tinha o controle — mas não por muito tempo. Quinze minutos depois, Graf vence o set, a partida e o torneio. Restou a Novotná apenas as lágrimas, curvada sobre o ombro real da duquesa de Kent na entrega do troféu. Foi naquele quarto de hora, escreveu em 2000 o ensaísta Malcolm Gladwell no New Yorker, que ela se mostrou “irreconhecível, já não uma jogadora de elite, mas novamente uma iniciante”. Ali ela foi, como dizem os anglófonos, vítima de um choke, um colapso sob pressão no momento decisivo.

O termo tornou‑se popular, inclusive na grande imprensa francófona, que não hesita em recorrer a esse anglicismo. Nos últimos meses, jornalistas franceses discutiram a capacidade dos jogadores do Arsenal — pouco acostumados a títulos — de “evitar o choke” ou se perguntaram se o patinador artístico Ilia Malinin, que caiu duas vezes no gelo de Milão, viveu “o maior choke” dos últimos Jogos Olímpicos de Inverno.

O choke, objeto de estudo em psicologia

Mas o choke não é apenas um rótulo jornalístico conveniente: é um conceito amplamente estudado. Num artigo fundacional publicado em 1984, o psicólogo americano Roy F. Baumeister definiu‑o como “a ocorrência de um desempenho inferior apesar de esforços individuais e de um contexto que exige um desempenho superior”. Para testar a hipótese, Baumeister selecionou, numa sala de arcade, uma dúzia de especialistas do famoso jogo Pac‑Man e disse‑lhes que teriam uma única partida para alcançar a maior pontuação possível. Resultado: em relação às pontuações de treino, o desempenho desses especialistas caiu, em média, 25%.

O exemplo e a definição são sintéticos. Desde então, a pesquisa esforçou‑se para quantificar a queda de rendimento que afeta atletas sob pressão — do biatlo às dardos, do golfe ao basquete — e para refinar a definição inicial de Baumeister.

Há, claro, demasiada liberalidade por parte dos fãs ao aplicarem o rótulo: até o imenso Roger Federer foi acusado por alguns críticos de ser um “choker” com base no argumento de que perdeu mais partidas estando com match points do que ganhou depois de ter match points contra si.

Nem todo fracasso é um choke

Errar, desperdiçar uma oportunidade, perder um jogo não é necessariamente um choke. Denise Hill, pesquisadora em psicologia do esporte na Universidade de Swansea (País de Gales) e golfista experiente, começou a investigar o tema depois de ter falhado repetidamente em greens decisivos. “Ao chegar ao décimo‑oitavo buraco, posso desmoronar, mas também posso executar um golpe tecnicamente ruim porque estou cansada: os dois se parecem, mas um é um choke e o outro não”, resume ela. “Os atletas sabem quando desabaram sob pressão; isso é muito, muito diferente de um dia ruim ou de um desempenho abaixo da média.” Difícil de capturar, mas qualitativamente distinto.

No estado atual do conhecimento, costuma‑se definir o choke como uma redução substancial do desempenho em comparação com o nível habitual do atleta, associada a um fenômeno ansioso provocado por aumento da pressão.

“Na prática, você pensa como um iniciante e joga como um iniciante.” Denise Hill, psicóloga do esporte

Jogar “com medo”

Em abril de 1996, o célebre golfista australiano Greg Norman entrou no último dia do Masters com cinco tacadas de vantagem. Tiro após tiro, ele desmoronou, como se não dominasse mais movimentos que conhecia de cor, e terminou em segundo lugar. Três anos depois, o mundo do golfe assistiu a outro colapso inesperado.

O francês Jean Van de Velde tinha três tacadas de vantagem no início do décimo‑oitavo e último buraco do British Open. Em vez de optar pela segurança, tentou jogadas arrojadas e sucumbiu a enredos bizarros: um de seus golpes atingiu uma arquibancada, outro foi parar num córrego. Alcanceado por dois concorrentes, foi derrotado em play‑off.

As desventuras do australiano habituado às vitórias e do francês outsider aparecem em muitos estudos sobre o choke, embora seus cenários sejam bem diferentes. Parafraseando o famoso início de Ana Kariênina, de Tolstói, a especialista em ciências cognitivas Sian Beilock escreve em Choke: What the Secrets of the Brain Reveal About Getting It Right When You Have To (Free Press, 2010), um ensaio notório sobre o tema, que “todas as performances infelizes se parecem, mas cada uma falha à sua maneira”.

Entre os modelos explicativos dominantes do choke estão duas abordagens “atencionais”.

O primeiro, o da distração, atribui o colapso a estímulos externos (comportamento da plateia, condições meteorológicas, a perspectiva da vitória...) que sobrecarregam o cérebro e tornam o atleta menos atento à execução dos gestos. “Quando você atira com arco, a melhor forma de se concentrar é fixar o centro do alvo. Ao crescer a ansiedade, sua atenção pode derivar para elementos externos irrelevantes, por exemplo o que o público pode pensar ou o vento nas árvores ao fundo”, explica Christopher Mesagno, pesquisador em psicologia do esporte na Universidade de Victoria (Austrália).

O segundo modelo, chamado de self‑focus (ou “controle explícito”), sustenta que a ansiedade leva o atleta a decompor mentalmente os elementos de uma tarefa tão repetida que deveria ser automática. Não é que ele pense pouco, é que pensa demais: é a “paralisia pela análise”. Já em 1984 Roy Baumeister sugeriu essa hipótese com uma metáfora — a máquina de escrever: imagine, pressionado para entregar um texto rapidamente, começar subitamente a pensar em cada tecla que deve pressionar para formar uma palavra...

No esporte, é o que acontece, por exemplo, com o jogador de basquete que tem o lance livre da vitória e, em vez de produzir o arremesso espontâneo treinado milhares de vezes, passa a refletir sobre força e ângulo do tiro. Ou com o tenista que, tendo match points, “pensa” tanto nos golpes que eles saem sistematicamente um pouco curtos ou moles: joga “com medo”. “Na prática, você pensa como um iniciante e joga como um iniciante”, resume Denise Hill.

Assim como não há uma única teoria do choke, também não há um único fator contribuinte, mas dezenas. O que explica que alguns atletas ruam sob pressão enquanto outros ficam “clutch”, isto é, executam seus melhores movimentos? Nas últimas décadas, a pesquisa procurou esboçar o conjunto de condições favoráveis ao choke. “Ainda não chegamos ao ponto de dizer que isto, isto, isto e isto levam ao choke”, pondera Denise Hill. “Trata‑se, antes, de uma reunião de fatores individuais e situacionais que se combinam para criar um choke.”

“Tenho medo de fazer papel de bobo”

O caso da apresentação de si e do “reinvestimento” psicológico é particularmente interessante. Muitos estudos abordaram como a atenção aos próprios sentimentos e ao olhar dos outros, ou a reavaliação constante das próprias motivações, favorece o choke. Numa pesquisa que co‑orientou, Denise Hill cita as palavras de um golfista habituado a desabar sob pressão: “Tenho medo de me ridicularizar. Não penso mais no meu swing. Penso apenas no que eles estão pensando, no que vão dizer se eu errar o golpe; então me apresso para me livrar de tudo isso.”

A pesquisa também examinou fatores contextuais sem alcançar conclusões uniformes. Em meados dos anos 1980, Roy F. Baumeister e o colega Andrew Steinhilber avançaram a hipótese do “home‑field championship choke”, uma falha mental de equipes que disputam um título em casa. A ideia era que jogar diante da própria torcida poderia estimular a preocupação com a imagem (imaginar a celebração diante dos fãs, o prazer de lhes conceder a vitória) e distrair da execução correta. Estudos subsequentes, com amostras mais amplas, refutaram, contudo, essa hipótese: não se observa um aumento geral de colapsos em casa quando há um troféu em jogo.

Síndrome do pênalti perdido

A história e o estudo do choke se alimentam de fracassos que entraram na memória coletiva. Um exemplo emblemático é Roberto Baggio: em 17 de julho de 1994, na final da Copa do Mundo, o atacante italiano, famoso por sua técnica, chutou mais de um metro acima do gol em uma cobrança de pênalti, entregando a vitória ao Brasil. O pênalti, gesto individual num esporte coletivo e elemento decisivo da dramaturgia contemporânea do futebol, tornou‑se um laboratório privilegiado do estudo do choke. “Tive o privilégio de assistir a um treino de pênaltis em alto nível e posso dizer que é sempre a mesma coisa. Todo mundo marca, ou quase todo mundo”, observa o psicólogo norueguês Geir Jordet em Le syndrome du tir au but (Alisio, 2025). “Mas acrescente a multidão, os telespectadores, as consequências, a pressão, e o jogo muda dramaticamente — como em nenhum outro momento no futebol — e as probabilidades de colapso disparam.”

Jordet constatou, por exemplo, que as superestrelas mostram, paradoxalmente, uma taxa de acerto ligeiramente inferior à média, assim como jogadores que batem muito rapidamente após o apito do árbitro. No primeiro caso, pode atuar o fator da “apresentação de si”: a estrela tem consciência de ter mais a perder devido ao seu estatuto. No segundo, nota‑se um desejo, típico da ansiedade sob pressão, de “acabar logo”.

Um comportamento notado especialmente entre os ingleses, que perderam praticamente todas as disputas de pênaltis entre 1990 e 2012, salvo uma. Uma cultura nacional do choke? Talvez, sugere Jordet: a explicação para a fraqueza mental dos batedores ingleses poderia estar no contraste entre o estatuto de grande nação e uma acumulação de derrotas (a Inglaterra não ganha um grande título desde 1966) ou ainda na dureza lendária da imprensa tablóide.

As consequências a longo prazo do choke

Desde então, a Inglaterra voltou a vencer sessões de pênaltis, embora tenha perdido uma memorável diante de sua torcida na final do Euro 2020. Há uma década, a federação inglesa de futebol passou a conduzir um trabalho psicológico sobre o exercício em parceria com especialistas, incluindo Geir Jordet. Diagnosticar as causas do choke leva naturalmente a buscar remédios — “a pergunta de um milhão de dólares”, reconhece Denise Hill. Ainda que um episódio de colapso possa trazer consequências psicológicas duradouras ao atleta e induzi‑lo a comportamentos de risco.

Alguns “tratamentos” são de uso corrente. O estabelecimento, pelo atleta, de uma “rotina” no momento decisivo — para esvaziar a mente, afastar distrações externas e não pensar na componente corporal do gesto — é habitual: contar um certo número de respirações ou quicadas da bola, olhar o árbitro, etc. A técnica do “olho calmo”, que recomenda ao atleta concentrar‑se por um longo instante numa referência antes de executar, é amplamente praticada, por exemplo, no golfe.

Em outros casos, admite Denise Hill, a prescrição é “muito mais complexa” e pode envolver levar o atleta a interrogar e remodelar “suas crenças mais profundas sobre si mesmo” para ganhar maior controle emocional. “Acredito que, se forem implementadas as intervenções corretas para indivíduos ‘vulneráveis ao choking’, qualquer um deles pode tornar‑se clutch, melhorar em contexto de performance — embora isso exija trabalho mental mais árduo para alguns”, resume Christopher Mesagno.

Antes de sua morte prematura em 2017, a saudosa Jana Novotná conseguiu, em 1998, resistir à pressão e às oportunidades perdidas para finalmente vencer Wimbledon. Não se nasce choker; torna‑se — e, sobretudo, não é preciso permanecer assim.

O excesso de confiança é maléfico

Cuidado com a confiança excessiva, que pode levar a dolorosas desilusões. Seu reverso, a síndrome do impostor, acompanha muitas pessoas de alto desempenho.

“Tenho certeza de que conseguiria tirar alguns pontos dele, talvez até alguns games.” Esse tipo de pensamento megalomaníaco não é raro entre tenistas amadores que assistem a um confronto entre dois campeões. Um subgênero, bem divertido, de vídeos no YouTube documenta isso, colocando amadores contra profissionais e mostrando, na imensa maioria dos casos, a completa desgraça dos primeiros. Essa dificuldade em estimar corretamente o próprio nível remete ao chamado viés de excesso de confiança. Fenômeno documentado em psicologia, e não só no esporte: um famoso inquérito de 2023 do instituto YouGov mostrou que metade dos homens acreditava ser capaz de pousar um avião comercial em emergência, contra “apenas” um quarto das mulheres...

Esse viés foi explorado pelos psicólogos americanos Justin Kruger e David Dunning. Em 1999, submeteram um grupo de estudantes a testes de lógica e gramática e pediram‑lhes que previssem sua classificação final. Resultado: os menos competentes eram os que mais superestimavam sua posição! Desde então, fala‑se do efeito Dunning‑Kruger para designar a tendência de indivíduos menos qualificados superestimarem suas capacidades. O efeito foi estudado em muitos contextos, do mundo profissional aos campos esportivos: um estudo internacional recente com quase 3.400 jogadores de xadrez de muito alto nível mostrou que os menos performáticos estimavam um potencial substancialmente superior ao seu nível real (avaliado pelo rating Elo, indicador reputado) e que esse julgamento otimista não se confirmava no desempenho sobre o tabuleiro (1).

Um outro aspecto do efeito Dunning‑Kruger é menos citado: os mais competentes tendem, por sua vez, a subestimar suas capacidades em relação às dos outros. Avançar em habilidade traz lucidez, mas também autocobrança excessiva. No final dos anos 1970, as psicólogas americanas Pauline Clance e Suzanne Imes identificaram, entre algumas mulheres de carreiras brilhantes, a “síndrome do impostor”: a tendência a acreditar que enganaram o mundo ao alcançar um nível superior às suas qualidades reais.

(1) Patrick R. Heck et al., “Overconfidence Persists Despite Years of Accurate, Precise, Public, and Continuous Feedback: Two Studies of Tournament Chess Players”, Psychological Science, vol. 36, n.º 9, 2025.

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