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Arthur da Paz estreia na literatura com o arrebatador Lascas de Sândalo

Em leitura sensível e erudita, o escritor Abílio Wolney Aires Neto interpreta o livro “Lascas de Sândalo" como uma obra de vocação espiritual, em que poesia, memória, amor e transcendência se unem numa mesma chama interior. Abílio escreveu o posfácio da obra

Livro é fértil em espiritualidade, evoca os ensinos da doutrina espírita, conecta com o jornalista Batista Custódio e traz poemas que vão desde o campo doméstico, a denúncia dos problemas políticos brasileiros, e alcança a amplitude universalista da escola dos grandes poetas (Divulgação)

O livro de estreia do escritor e jornalista Arthur da Paz foi lançado no rooftop do Edifício Orion, em Goiânia, em uma noite que parecia traduzir, em atmosfera, o próprio espírito da obra: luz, elevação e encontro. Do alto da cidade iluminada, o livro surgia como extensão daquele instante — feito da mesma matéria rarefeita que sustenta as experiências significativas.

Há um antigo provérbio da tradição indiana, difundido no Ocidente por Rabindranath Tagore, segundo o qual o sândalo perfuma o machado que o fere. Trata-se menos de consolo e mais de uma ética radical: responder à agressão não com sua repetição, mas com fidelidade à própria essência. É sob esse signo que se constrói Lascas de Sândalo: não como ornamento, mas como pacto espiritual.

A obra se apresenta como fragmento — lascas, não monumento —, e é precisamente nessa humildade formal que reside sua grandeza. O poeta distribui pequenas centelhas de sentido, como quem incensa veredas ainda não iluminadas. Aqui ecoa, por afinidade, a lição de Stéphane Mallarmé: o poema não declara — sugere, irradia, perfuma.

Dividido em cinco seções — Sementes, Paixões, Conflitos, Iluminação e Transcendência —, o livro estrutura-se como uma ascensão. Parte do cotidiano — a mãe, o café da manhã, a infância — e se projeta ao metafísico, numa arquitetura que remete, em chave afetiva, à jornada de Dante Alighieri. O amor é o eixo dessa travessia: múltiplo em suas figuras, mas uno em sua força.

Em Sementes, o cotidiano se revela como portal do sagrado. A figura materna surge como mediação da transcendência, numa tradição que remonta à lírica de Gonçalves Dias. Em Paixões, o livro se abre à experiência do amor e da dor, sem ironia, sustentado por uma fé que substitui o ceticismo moderno. Já em Conflitos, a poesia assume tom combativo: a pena torna-se instrumento moral, em ressonância com a tradição condoreira de Castro Alves. A denúncia social e a crítica ao ruído contemporâneo se equilibram com um retorno constante ao amor como princípio de justiça.

Essa tensão entre o espiritual e o histórico aproxima o poeta da intuição fáustica de Johann Wolfgang von Goethe: duas almas habitam o mesmo peito. De um lado, o místico; de outro, o homem comprometido com o mundo. O livro não resolve essa dualidade, mas vive dela.

Formalmente, o autor dialoga com a tradição clássica. Há ecos de Olavo Bilac, na busca pela forma, e de Cruz e Sousa, na espiritualização da linguagem. Contudo, essa herança é atravessada por uma marca própria: a fusão entre técnica, afeto e doutrina espírita.

Em Iluminação e Transcendência, o livro atinge seu ponto mais alto. Poemas como No Éden Digital aproximam tecnologia e teologia, propondo um diálogo entre o homem contemporâneo e o absoluto. Outros, como Para Sair à Luz, assumem a forma de confissão moral, evocando tradições antigas em chave moderna. A presença do pensamento espírita — de Allan Kardec a Chico Xavier — estrutura uma visão de mundo em que ciência e espiritualidade não se opõem, mas convergem.

O ápice emocional do livro está na elegia final, dedicada a Batista Custódio. Ali, a poesia abandona qualquer vestígio de artifício para se tornar gesto de memória e continuidade. A imagem da “lasca de sândalo acesa” sintetiza toda a obra: não a permanência estática, mas a chama que resiste ao corte.

Há, como em toda estreia, desigualdades. Em alguns momentos, o excesso retórico dilui a força do verso. Mas há também poemas que ultrapassam largamente essa condição inicial e se impõem pela densidade e permanência.

No conjunto, Lascas de Sândalo é mais que um livro de poemas: é um projeto espiritual. Sustentado pela máxima de que “a palavra honesta é obra de caridade”, o autor não escreve para afirmar um nome, mas para cumprir uma missão. Nesse sentido, aproxima-se da concepção de Pablo Neruda, para quem a poesia é um ato partilhado — embora aqui ela se manifeste de forma mais silenciosa: como fragrância.

Ao fim, permanece a imagem essencial: a poesia como sândalo — ferido, mas intacto em sua essência; fragmentado, mas ainda capaz de perfumar o mundo ao redor.

“Quando se encontra o Amor,
cessam-se todas as perguntas.”
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