Quero falar sobre o cuidado com as opiniões categóricas a respeito da transexualidade — a condição em que uma pessoa se identifica com um gênero diferente daquele que lhe foi atribuído ao nascimento. Peço paciência: a proposta é aprofundar a reflexão.
Dirijo estas palavras a pais e mães, a adolescentes que começam a se perceber nessa condição e a adultos que buscam compreender. Não é um texto para ataques; comentários agressivos e desrespeitosos serão removidos. O objetivo é falar com quem procura pensar.
O primeiro ponto — talvez a razão deste texto — é simples e difícil: não é fácil viver na própria pele. Por ter vivido no teatro e, mais tarde, atuado na clínica psicanalítica, convivi e acompanhei trajetórias muito diversas: heterossexuais, gays, lésbicas e pessoas trans.
Recordo um caso clínico (nome fictício) de uma pessoa que nasceu registrada como Karlla e se apresentou desde a adolescência como Carlos. Vou utilizar o pronome que ele escolheu. Era um homem com jeito, talento musical e sucesso financeiro; ao mesmo tempo, carregava uma história familiar marcada pela violência e pela negligência à mãe.
Na infância, assistira repetidamente à mãe sendo maltratada por um homem que mantinha outra família. Diante disso, a criança pode identificar‑se com a mãe e reproduzir padrões de passividade, ou pode reagir de formas contrárias. No caso que acompanhei, houve revolta: o desejo de proteger a mãe e de substituir o agressor.
Ao longo da terapia, Carlos reconheceu esse contexto como fator relevante, mas seguiu com a redesignação de gênero. Anos depois retomou a análise e revelou que a mudança não trouxera a satisfação esperada: não se sentia mais forte, não se reconhecia integralmente como homem e encontrou dificuldades afetivas e sociais.
Situações como essa mostram que por trás do simplismo “nasceu menina num corpo de menino” (e vice‑versa) há uma multiplicidade de fatores — afetivos, familiares, sociais, culturais e biográficos — que não se reduzem a uma “opção”.
Importa também distinguir a identidade de gênero da orientação sexual. Há casais gays e lésbicos em que nenhum dos parceiros se identifica como trans, e há variações nas formas de assumir papéis dentro das relações. A experiência trans não equivale automaticamente a uma escolha sexual;
Outro ponto frequente nos relatos é a exclusão e a solidão: mesmo com apoio familiar, muitas pessoas trans relatam isolamento, rejeição social e dificuldades para estabelecer vínculos afetivos plenos. As leis e políticas podem melhorar direitos formais, mas não apagam, por si só, as violências cotidianas e o estigma.
Vivemos numa sociedade que, com frequência, valoriza o invólucro — a aparência, a juventude, o corpo — mais do que a essência. Essa avaliação social provoca insegurança e gera mecanismos de ataque às diferenças: pessoas insatisfeitas com suas próprias condições projetam essa insatisfação sobre quem é percebido como diferente.
Pessoas felizes e em paz com suas limitações tendem a ser acolhedoras. Já quem se encontra em conflito interno costuma reagir com hostilidade e julgamento. O ataque às trans, portanto, muitas vezes tem menos a ver com moralidade do que com as próprias inseguranças e recuos diante da diversidade.
Quando alguém diz “mas e as crianças?”, convém lembrar que a exposição dos menores a conteúdos e a comportamentos sexualizados é tema complexo e abrangente — está presente na mídia, em lares e nas redes. A presença de pessoas trans na vida pública ou no espaço cotidiano é raríssima em comparação com outras formas de exposição precoce ou de vulnerabilidade que as crianças vivenciam.
Se uma pessoa trans provoca desconforto, proponho um exercício simples: olhar para dentro. Que inseguranças pessoais estão sendo ativadas? Que rejeições e frustrações não foram elaboradas? Em vez de somar violência ao sofrimento alheio, vale dedicar atenção às próprias lutas.
Aos pais e às mães de crianças e adolescentes que expressam propensão trans, recomendo uma escuta atenta e cuidadosa: conversar, acompanhar, procurar apoio especializado quando necessário e, sobretudo, entender que a aceitação social é limitada e que o bullying e a exclusão podem ocorrer independentemente das escolhas de aparência ou gênero.
Num mundo melhor, aprenderíamos que o essencial é invisível aos olhos. Mais do que ditar regras estéticas ou comportamentais, seria mais eficaz acolher a complexidade humana e trabalhar nossas próprias insatisfações.
OBS.: não se trata de negar as exceções em que pessoas trans encontraram bem‑estar e realização; refiro‑me às estatísticas que associam maior incidência de depressão entre pessoas trans à falta de aceitação social — dado que exige apuração e fontes específicas.