Um estudo de Tristan Haute et al., publicado na Revue française de science politique (vol. 75, 2025/3) a partir de uma pesquisa por questionário realizada após as eleições legislativas e europeias de 2024, na França, indica que a precarização do emprego favorece atitudes de retirada e desinteresse pela vida política, refletidas em maiores níveis de abstenção entre trabalhadores com vínculos laborais instáveis.
A análise, que cruzou variáveis como estabilidade no emprego, autonomia no trabalho e qualidade das relações com a hierarquia, identifica três perfis principais: os “instables” — que combinam instabilidade contratual e relações de trabalho degradadas; os “stables éprouvé·e·s” — empregados com relativa estabilidade, mas que descrevem o trabalho como fisicamente e psicologicamente extenuante; e os “autonomes reconnu·e·s” — cuja atividade é caracterizada por autonomia e reconhecimento social.
No plano eleitoral, os pesquisadores observam que os “instables” apresentam taxas de abstenção significativamente superiores às dos outros grupos e uma propensão maior a votar no Rassemblement National. Pelo contrário, o voto em Ensemble é mais prevalente entre os inquiridos que gozam de estabilidade no emprego. O voto no NFP (Nouveau Front populaire) mostrou-se pouco correlacionado com as condições de trabalho, sendo apenas ligeiramente mais frequente entre os “stables éprouvé·e·s”.
Os autores concluem que a expansão da precariedade tende sobretudo a alimentar atitudes de afastamento e apatia política, em vez de provocar, por si só, uma generalizada “radicalização” do eleitorado em direção ao Rassemblement National.
Fonte: Tristan Haute et al., “Travail et comportement électoral. Le cas des élections législatives et européennes de 2024 en France”, Revue française de science politique, vol. 75, 2025/3.