O Papa Leão XIV publicou, em texto que tradicionalmente é veiculado em 24 de janeiro de 2026, a Mensagem para o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, intitulada “Preservar vozes e rostos humanos”.
No texto divulgado pelo Vaticano, o Pontífice afirma que a revolução digital exige “literacia digital” acompanhada de formação humanística e cultural, e pede transparência das plataformas, regulação pública e educação para impedir que algoritmos e produtos “Powered by AI” determinem a percepção da realidade e substituam a criatividade humana.
O que disse o Papa
Leão XIV qualifica o desafio mais como antropológico do que tecnológico: preservar “vozes e rostos humanos”, segundo ele, é proteger a pessoa contra sistemas que simulam presença, afeto, sabedoria, amizade e autoridade. Na mensagem, o Pontífice aponta quatro riscos centrais — perda da capacidade de pensar criticamente; dependência da IA como “oráculo”; substituição da criatividade humana; e manipulação por bolhas algorítmicas que privilegiam a indignação imediata sobre a reflexão.
Riscos e resposta proposta
Para enfrentar esses riscos, a mensagem sustenta três pilares: responsabilidade (de desenvolvedores e plataformas), cooperação (entre atores públicos e privados) e educação (literacia digital ampla, que inclua humanidades). O texto pede proteção contra conteúdos falsos ou manipulativos e maior transparência sobre os critérios que orientam feeds e recomendações algorítmicas.
"Assim como a revolução industrial exigiu uma alfabetização mínima para permitir que as pessoas reagissem às novidades, também a revolução digital exige uma literacia digital (com uma formação humanística e cultural) para compreender como os algoritmos moldam a nossa percepção da realidade."
— Papa Leão XIV
A Mensagem retoma debates e referências existentes no campo da literacia midiática. Instituições como a UNESCO trabalham com conceitos de "Media and Information Literacy", que hoje incluem competências para lidar com IA, desinformação e discurso de ódio. Pesquisadores como Sonia Livingstone, Henry Jenkins, Howard Rheingold, José Manuel Pérez Tornero e Carlos A. Scolari são citados na apuração como referências para compreender as dimensões pedagógicas e culturais da literacia digital.
"Embora a IA possa dar apoio e assistência na gestão de tarefas comunicativas, ao abster-mo-nos do esforço do próprio pensamento, contentando‑nos com uma compilação estatística artificial, corremos o risco de deteriorar, a longo prazo, as nossas capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas."
— Papa Leão XIV
"Tudo isto pode enfraquecer ulteriormente a nossa capacidade de pensar de forma analítica e criativa, de compreender significados, de distinguir entre sintaxe e semântica."
— Papa Leão XIV
"Renunciar ao processo criativo e entregar às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significa enterrar os talentos recebidos para crescer como pessoas em relação a Deus e aos outros. Significa esconder o nosso rosto e silenciar a nossa voz."
— Papa Leão XIV
O Pontífice também resume o nó da questão em frase curta e direta: "O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico." A Mensagem foi divulgada oficialmente no sítio do Vaticano e foi citada pelo Papa na oração do Regina Caeli em 17 de maio de 2026.
Contexto e desdobramentos
O apelo por literacia digital não é isolado: em 2023, o Papa Francisco já havia tratado do tema em mensagem enviada por Pietro Parolin à UNESCO, alertando para a necessidade de enfrentar a exclusão digital, o ódio nas “estradas digitais” e o perigo de delegar decisões sobre o valor da vida humana à lógica computacional. A nova Mensagem de Leão XIV amplia esse campo ao enfatizar a dimensão educativa e ética das tecnologias de inteligência artificial.
Especialistas em literacia midiática e digital defendem abordagens que combinam competências técnicas com julgamento crítico, formação estética e ética, e participação cívica. A UNESCO e outros organismos internacionais têm proposto currículos e políticas públicas que integram essas competências nas escolas, nas universidades e em programas de formação continuada.
Trechos destacados
"Literacia" é o uso social da competência alfabética, isto é, a habilidade de ler, escrever, interpretar e comunicar de modo eficiente em diferentes situações cotidianas."
"É necessário preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do ser humano, para a qual também se deve orientar toda a inovação tecnológica."
— Papa Leão XIV






Cartaz do Vatican News destacando a aposta do Papa na "Literacia digital" como resposta à era da Inteligência Artificial