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INFLUÊNCIA INTELIGENTE TODO DIA

Os não-ditos que ainda moram dentro de nós: como as toxidades da pandemia ecoam em nossos laços

A psicóloga, música e escritora Ana Paula de Siqueira Leão apresenta uma bela e importante crônica lírico-filosófica sobre os ecos, ainda em nós, da pandemia; levando-nos a refletir sobre novas formas de pensar e lidar com eles.

Imagem: Vecteezy

Três anos não bastaram para dissipar a tempestade. O que a pandemia deixou não foi apenas uma memória coletiva de medo, mas resíduos tóxicos e sutis: uma ansiedade que sussurra antecipando perdas, um cansaço que ressoa no osso e, sobretudo, um certo estranhamento entre nós. Descobrimos, da forma mais dura, que o isolamento social pode ser também um isolamento afetivo. E o problema persiste agora que as máscaras, físicas, caíram.

Os números nos espantam: a ansiedade e a depressão tornaram-se sombras frequentes em um terço dos lares brasileiros. O “luto prolongado” e o Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT) ganharam estatística e nome. O trauma foi coletivo, mas suas sequelas são íntimas e solitárias. São os não-ditos que se cristalizaram no vácuo, os silêncios que se transformaram em abismos.

Naquele período, o tempo comum parou. Lembro-me de não rir como antes. De não chorar por motivos simples. A vida foi reduzida a um estado de alerta permanente, e nossos afetos; à sua função mais básica de sobrevivência. Ficamos órfãos do ordinário.

Mas eis o milagre modesto e insistente: o tempo voltou a passar. E a pergunta urgente não é sobre como esquecer, mas como reaprender a ver. Como reabilitar nosso olhar para a beleza áspera dos dias comuns, depois de um período de privação tão radical? A resposta talvez não esteja em momentos mágicos e efêmeros, mas em um exercício diário e necessário de extrair o extraordinário do ordinário.

Trata-se de um ato de resistência, filosófica e prática. Pode ser o mindfulness que nos ancora à respiração, afastando o pensamento catastrófico. Ou pode ser, de forma mais simples e poderosa, a disposição consciente de valorizar: o cheiro de café torrado na feira, a luz do ocaso que marca o fim de um dia, a textura verdadeira por trás de um “tudo bem?” trocado com alma.

É também, e fundamentalmente, dar uma chance ao perdão – começando por si mesmo. Perdoar-se por ter falado na hora errada, por ter calado quando deveria falar, por ter confundido cuidado com controle. E estender, com paciência infinita, esse mesmo crédito a quem se afastou. Compreender que o silêncio alheio raramente é julgamento; quase sempre é o sintoma de uma batalha interna, de uma fadiga pós-traumática particular.

Viver o presente com presença não é clichê. É um ato radical de subsistência afetiva. É a única forma de desintoxicar os resíduos daqueles anos. Significa trocar a antecipação ansiosa do futuro – um território incontrolável – pela plena habitação do instante que temos. É nele, e só nele, que os fios rompidos podem, devagar, começar a ser religados.

Ah, o extraordinário sempre se ampara no banal: na decisão de não pressionar, de dar tempo ao tempo, de vestir a camisa de Jó quando a única saída é a paciência. Esse exercício, antes de tudo, começa em você.

Não se trata de positividade falsa... Trata-se de uma escolha corajosa de focar na luz que ainda existe, por mais discreta que seja. Uma luz que se alimenta de gestos miúdos e de dias comuns.

Tenha excelentes dias comuns. Amém.

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