A Organização Mundial da Saúde estima que a pandemia da Covid-19 esteve associada a 22,1 milhões de mortes em excesso no período entre 2020 e 2023, mais que o triplo das cerca de 7 milhões de óbitos oficialmente relatados, segundo o relatório Estatísticas Mundiais de Saúde 2026. A conta global de excesso de mortalidade — que inclui mortes não registradas como Covid-19 e óbitos indiretos decorrentes do impacto da pandemia sobre serviços de saúde e condições sociais — atingiu pico em 2021 e caiu com a ampliação da vacinação até 2023.
Metodologia e principais achados
A mortalidade em excesso é calculada comparando o total de mortes observadas no período com a expectativa baseada em padrões anteriores à pandemia. O relatório aponta que, em 2021, houve 10,4 milhões de óbitos a mais do que o esperado, um aumento de 17,9% em relação ao previsto — movimento atribuído ao surgimento de variantes mais letais, como a Delta, e ao forte estresse sobre sistemas de saúde.
Segundo a OMS, as estatísticas oficiais de mortes por Covid-19 são comprometidas por variações no acesso a testes, capacidade diagnóstica desigual e diferenças na certificação da causa de morte. Por isso, a análise de excesso de mortalidade é considerada mais próxima da realidade do impacto sanitário global.
O documento explica também por que a consolidação dos dados só ocorreu agora: grandes lacunas de informações sobre mortalidade entre países atrasaram a compilação. Até o final de 2025, apenas 18% das nações haviam enviado seus dados dentro do prazo de um ano e quase um terço nunca reportou essas informações à OMS. Apenas cerca de um terço dos países atende aos padrões da organização para dados de mortalidade de alta qualidade.
“Isso implica que, para cada morte por Covid-19 reportada, houve cerca de duas mortes adicionais em excesso relacionadas à pandemia. Essa constatação destaca tanto a subnotificação de mortes diretamente causadas pelo vírus quanto as mortes indiretas impulsionadas por interrupções nos cuidados de saúde, desafios econômicos e outros fatores sociais durante esse período”, diz o relatório.
Alain Labrique, diretor do Departamento de Dados, Saúde Digital, Análises e Inteligência Artificial da OMS, afirmou que as lacunas nos registros “limitam severamente a capacidade de monitorar tendências de saúde em tempo real, comparar resultados entre países e desenhar respostas eficazes de saúde pública”. Ele ressaltou também que a publicação dos dados permite ver o alcance temporal completo da pandemia e mostra que ela reverteu quase uma década de ganhos na expectativa de vida global.
Antes da pandemia, a expectativa de vida global ao nascer vinha subindo de forma constante, de 67 anos em 2000 para 73 anos em 2019. Em 2021, o indicador caiu para 71 anos, retornando a níveis observados em 2011. Entre 2022 e 2023, com avanço da vacinação e melhora epidemiológica, a expectativa voltou a subir e atingiu novamente 73 anos.
Implicações
Os números ressaltam a necessidade de fortalecer registros civis e sistemas de vigilância da mortalidade para permitir respostas mais rápidas e políticas públicas de saúde mais eficientes em futuras crises. A análise estatística utilizada pela OMS incorpora estimativas para preencher lacunas de dados em países com informações incompletas, procedimento que levou tempo para consolidar o balanço global de 2020 a 2023.