Aos 94 anos, Iaiá Procópia foi homenageada em uma cerimônia repleta de emoção e reconhecimento na última semana, destacando sua trajetória como líder comunitária do povo Kalunga. O evento, realizado na comunidade Sítio Histórico Kalunga, localizada no nordeste de Goiás, reuniu autoridades, moradores e admiradores para celebrar sua vida dedicada à preservação cultural e à luta pelos direitos desse povo afrodescendente.
Iaiá Procópia é considerada uma das figuras mais proeminentes do quilombo Kalunga, população que descende de escravos fugidos e habita a região desde o período colonial. Dona de uma memória viva e de uma resistência inspiradora, ela desempenhou papel fundamental na luta pelo reconhecimento oficial do território Kalunga e na valorização das tradições ancestrais.
A líder nasceu em 1929 e cresceu imersa na cultura e nos desafios enfrentados pelos povos quilombolas. Durante décadas, ela se dedicou à preservação dos costumes, das histórias e das tradições que caracterizam a identidade cultural dos Kalungas. Sua influência ecoa não apenas na comunidade local, mas também em movimentos nacionais que buscam a valorização da cultura afro-brasileira.
O Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, onde ocorreu a homenagem, é uma área de 262 mil hectares reconhecida como um dos maiores territórios quilombolas do Brasil. Oficialmente delimitado em 2012, o território abrange os municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás. A luta pelo reconhecimento contou com o envolvimento ativo de Iaiá Procópia, que enfrentou desafios políticos e sociais ao longo dos anos.
A cerimônia de homenagem contou com apresentações culturais, discursos de lideranças locais e de autoridades, além de momentos de partilha em que os participantes rememoraram histórias da matriarca Kalunga. “Dona Iaiá é um exemplo vivo de que a cultura é resistência. Ela nos ensina que a identidade de um povo é o alicerce de sua força”, afirmou José Pereira de Souza, presidente da Associação Quilombola do Sítio Histórico Kalunga.
Os Kalunga têm uma trajetória marcada por luta e resiliência. Descendentes de pessoas escravizadas que buscaram refúgio nas montanhas e sertões goianos durante o período colonial, esses povos enfrentaram séculos de marginalização e invisibilidade. Somente nas últimas décadas, suas demandas por terras, direitos e reconhecimento ganharam força no cenário nacional. A atuação de líderes como Iaiá Procópia foi determinante para essa conquista.
Além de sua luta por direitos territoriais, Dona Iaiá é uma guardiã da memória coletiva. “Ela é nosso livro vivo. O que sabemos sobre nossa história, nossas raízes e costumes, aprendemos com ela. É uma honra prestar essa homenagem enquanto ela está entre nós”, disse Maria das Graças Silva, uma das organizadoras do evento.
A comunidade Kalunga, com sua cultura vibrante e rica, preserva tradições como o festejo de Nossa Senhora do Rosário, os cantos de trabalho e a gastronomia típica, como o famoso bolo de arroz. Esses elementos têm sido constantemente ameaçados pela modernização e pelo avanço de interesses econômicos que colocam em risco tanto o território quanto as práticas culturais. Nesse contexto, o papel de líderes como Iaiá Procópia ganha ainda mais relevância.
A homenagem também destaca a importância de políticas públicas para a proteção dos povos tradicionais. Apesar do reconhecimento legal do território Kalunga, a comunidade enfrenta desafios como invasões, conflitos fundiários e falta de acesso a serviços básicos. Especialistas apontam que o fortalecimento da liderança local e o apoio político são fundamentais para garantir a autonomia e o bem-estar desses grupos.
O legado de Iaiá Procópia vai além das fronteiras do Sítio Histórico Kalunga. Sua trajetória é símbolo da resistência e da luta dos povos quilombolas em todo o Brasil. Sua voz, repleta de sabedoria e resiliência, ecoa como um chamado à preservação cultural e ao respeito pelas tradições ancestrais. “Eu só plantei uma semente, mas essa semente cresceu e virou uma árvore que dá frutos. Que esses frutos alimentem muitas gerações”, declarou Iaiá, emocionada, durante o evento.
Esse reconhecimento, em um momento em que a sociedade brasileira enfrenta debates intensos sobre identidade, memória e direitos humanos, reacende a necessidade de olhar para as comunidades tradicionais como guardiãs de nossa história e como protagonistas na construção de um futuro mais inclusivo.
Ao final da cerimônia, o sorriso de Dona Iaiá iluminava o ambiente e parecia resumir sua longa trajetória. Para os Kalunga e para o Brasil, ela representa uma força que transcende o tempo, um exemplo de que a luta por liberdade e dignidade jamais pode ser silenciada.