Sumário
O Fórum de Lisboa, evento jurídico-político associado ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, chega à sua 14ª edição sob um ambiente mais adverso do que o registrado em anos anteriores. Conhecido nos bastidores de Brasília como “Gilmarpalooza”, o encontro deve ocorrer entre os dias 1º e 3 de junho, mas enfrenta resistências provocadas por dois fatores principais: a repercussão do caso Banco Master e o debate aberto pelo presidente do STF, Edson Fachin, em torno de um possível código de conduta para ministros da Corte.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, autoridades do Judiciário, advogados e pessoas próximas ao ministro relatam que o momento político tornou menos confortável a presença de agentes públicos em um evento que reúne, no mesmo ambiente, magistrados, empresários, advogados, parlamentares e integrantes do governo. A avaliação é que o encontro, antes tratado por muitos convidados como parada obrigatória do calendário político-jurídico, passou a carregar maior risco de exposição pública.
A preocupação central é a possibilidade de autoridades serem vistas confraternizando com pessoas que, eventualmente, possam vir a ser envolvidas em investigações ligadas ao caso Master. Não se trata de acusação formal contra participantes do fórum, mas de um temor de imagem: em um ambiente político tensionado, fotografias, encontros informais e jantares paralelos podem produzir efeitos públicos difíceis de controlar.
Menos confirmações e convites reforçados
A edição deste ano deve reunir um número menor de autoridades em comparação com os encontros anteriores. De acordo com a lista divulgada pelo IDP, caiu pela metade o número de ministros do Superior Tribunal de Justiça confirmados de 2025 para 2026. No ano passado, 18 ministros do STJ participaram do evento. Neste ano, a lista inicial registra 9 nomes da Corte.
A reportagem da Folha afirma que o próprio Gilmar Mendes entrou em contato com autoridades e figuras de destaque para reforçar convites, especialmente a integrantes do STJ. Auxiliares ligados ao IDP e à Fundação Getulio Vargas também teriam intensificado os chamados para fechar a lista de palestrantes.
O ministro, porém, tem dito a interlocutores que o fórum não será esvaziado. Ao contrário, sustenta que a edição poderá alcançar recorde de comparecimento.
A percepção nos bastidores, contudo, é mais cautelosa. Magistrados ouvidos sob reserva afirmaram que o clima “não está bom” para eventos desse tipo. Um dos fatores adicionais é o calendário: a conferência ocorrerá em datas que coincidem com sessões de julgamento no STJ, o que obrigaria ministros a faltar, participar remotamente ou negociar alterações de agenda com colegas.
Ausência da Esplanada pesa no evento
Outro sinal de mudança é a ausência, até o momento, de ministros do governo Lula na lista de confirmados. Em edições anteriores, o Fórum de Lisboa recebeu nomes de peso do Executivo federal, além de dirigentes de órgãos públicos, governadores e integrantes do Congresso.
Em 2024, por exemplo, participaram ou estiveram entre os confirmados ministros como Anielle Franco, Luciana Santos, Jorge Messias, Vinicius Marques e Alexandre Silveira. Também estiveram na órbita do evento o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e governadores como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Cláudio Castro.
Neste ano, a lista de confirmados inclui o ministro Flávio Dino, do STF, além do anfitrião Gilmar Mendes. A presença de Alexandre de Moraes foi confirmada posteriormente. Luís Roberto Barroso, hoje aposentado, também deve comparecer. No Legislativo, o presidente da Câmara, Hugo Motta, passou a constar na lista depois da publicação da reportagem da Folha. A presença do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, permanece incerta.
A confirmação de Hugo Motta é vista por aliados de Gilmar como um possível estímulo para que outros parlamentares também decidam viajar a Lisboa.
Código de ética entra no centro da discussão
O debate sobre o Fórum de Lisboa ganhou força porque coincide com a defesa, por Edson Fachin, de regras mais claras de conduta para ministros do STF. Um dos pontos sensíveis de eventual código seria justamente a transparência na participação de magistrados em eventos públicos e privados, especialmente aqueles que envolvem deslocamentos internacionais, custeio de viagens, hospedagens e convivência com agentes econômicos ou políticos.
A proposta enfrenta resistências internas no Supremo, mas o tema ganhou relevância diante das críticas recorrentes ao próprio “Gilmarpalooza”. O evento costuma ser questionado não apenas pelo número de autoridades presentes, mas pelo tipo de convivência que proporciona: em três dias, integrantes do Judiciário, advogados, empresários e políticos podem circular pelos mesmos painéis, recepções, almoços e jantares.
Para críticos, esse modelo cria uma zona cinzenta entre debate acadêmico, lobby institucional e sociabilidade de poder. Para defensores do fórum, o encontro é um espaço legítimo de diálogo entre Brasil e Europa, com discussões sobre democracia, economia, tecnologia, justiça e desenvolvimento institucional.
Gilmar Mendes tem tratado o apelido “Gilmarpalooza” com humor. Publicamente, o ministro afirma que o evento se consolidou como fórum de reflexão sobre temas relevantes para o Brasil e para a relação entre instituições brasileiras e europeias.
Evento terá tecnologia e soberania como tema central
O 14º Fórum de Lisboa terá como eixo temático tecnologia e soberania, além de debates sobre desafios democráticos, econômicos e sociais. A programação completa ainda não havia sido disponibilizada no site do evento no momento citado pela reportagem.
O encontro é organizado pelo IDP, instituição de ensino da qual Gilmar Mendes é sócio, pela FGV e pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. O filho do ministro, Francisco Mendes, é dirigente do IDP.
Entre os nomes confirmados estão o procurador-geral da República, Paulo Gonet; dois secretários do Ministério da Justiça; o ministro do TSE Floriano de Azevedo Marques; os ministros do TCU Antonio Anastasia e Benjamin Zymler; o presidente da OAB, Beto Simonetti; o deputado Orlando Silva; além de desembargadores, advogados, assessores, empresários e representantes de órgãos públicos.
A edição de 2025 teve cinco ministros do STF, 18 ministros do STJ, cinco ministros do TCU e entre 20 e 50 parlamentares. A última edição reuniu cerca de 150 autoridades e 2.500 inscritos. Para 2026, o número informado até agora é de 1.500 inscrições, com duas semanas ainda restantes até a abertura.
Uma festa sob vigilância
O apelido “Gilmarpalooza” nasceu em 2023, quando a presença concentrada de autoridades, políticos, advogados, empresários e aspirantes a cargos públicos deu ao Fórum de Lisboa a imagem de uma grande confraternização do poder brasileiro fora do Brasil. Desde então, o termo passou a funcionar como síntese crítica e irônica do encontro.
Neste ano, porém, a metáfora da festa ganhou outro sentido. O ambiente político sugere menos celebração e mais cautela. O caso Master tornou mais sensível qualquer aproximação pública entre autoridades e empresários. A proposta de código de ética no STF colocou sob escrutínio a presença de ministros em eventos. E a proximidade das eleições ampliou o cuidado de políticos com fotografias, agendas e deslocamentos internacionais.
Ainda que Gilmar Mendes e aliados apostem em uma edição robusta, o Fórum de Lisboa de 2026 ocorre sob uma luz diferente. O evento que já foi símbolo de prestígio e trânsito institucional agora terá de lidar com uma pergunta incômoda: até que ponto encontros desse tipo representam diálogo republicano — e a partir de que ponto passam a ser percebidos como confraternização excessiva entre poderes, interesses e influência?