Em uma sociedade marcada por desigualdades de gênero e casos alarmantes de violência doméstica, o empreendedorismo se apresenta como uma ferramenta poderosa para empoderar mulheres e ajudá-las a romper ciclos de abuso. Em Goiás, diversas iniciativas estão sendo implementadas para que vítimas dessa realidade possam recuperar sua autonomia financeira e emocional.
De acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 230 mil mulheres registraram denúncias de violência doméstica no Brasil em 2022. Em muitos casos, o vínculo econômico com o agressor é um dos fatores que perpetuam essas situações de violência. Diante desse cenário, capacitações, programas de microcrédito e redes de apoio voltadas ao empreendedorismo ganham relevância como instrumentos de mudança.
Uma dessas iniciativas, promovida por organizações sociais em parceria com instituições públicas, busca oferecer apoio multidimensional às mulheres em situação de vulnerabilidade. A ideia central é fomentar habilidades empreendedoras, desde o desenvolvimento de negócios até a gestão financeira, criando oportunidades para que elas se tornem protagonistas de suas próprias trajetórias. O impacto desses projetos vai além da esfera econômica—é também social e psicológico.
A violência doméstica, reconhecida como uma violação dos direitos humanos, não apenas fere fisicamente, mas também mina a autoestima e a capacidade de tomar decisões da vítima. É neste contexto que o empreendedorismo emerge como uma solução genuinamente transformadora. Para essas mulheres, iniciar um pequeno negócio pode ser mais do que uma porta de saída: é uma abertura para um futuro em que elas se tornam independentes, recuperam dignidade e passam a ocupar um espaço de respeito na sociedade.
Maria Clara Menezes, psicóloga e coordenadora de um programa voltado às vítimas de violência em Goiânia, destaca: “Quando uma mulher reconquista sua independência financeira, ela também recupera parte de sua autonomia emocional. Isso é fundamental para romper com ciclos de abuso, que muitas vezes são sustentados por relações de dependência econômica.”
Os desafios, no entanto, são múltiplos. Para que mulheres vítimas de violência doméstica consigam ingressar no mundo dos negócios, é necessário superar barreiras que vão desde o acesso à informação até o enfrentamento de traumas psicológicos. Dados indicam que muitas mulheres, ao sair de ciclos de violência, enfrentam dificuldades em garantir sustento imediato para si e para seus filhos. “Empreender não é um caminho fácil, mas é libertador. Para essas mulheres, é uma chance concreta de recomeçar”, pontua Clara.
Um exemplo de sucesso é o projeto “Mulheres que Inspiram”, criado em Anápolis e ampliado para outros municípios goianos. A iniciativa oferece cursos e mentorias voltados ao desenvolvimento de competências empreendedoras, além de facilitar o acesso ao mercado. Segundo uma das participantes, Ana Paula Nascimento, que hoje é dona de um pequeno ateliê de costura: “Eu não sabia nem por onde começar. Tudo parecia difícil. Mas, com apoio, consegui criar meu próprio negócio e hoje já não dependo mais de ninguém.”
Historicamente, o empreendedorismo sempre esteve vinculado à ideia de liberdade. No caso das mulheres, ele assume papel ainda mais crucial, especialmente em contextos de violência. A filósofa norte-americana Martha Nussbaum defende em sua obra que independência econômica é um dos pilares da autonomia feminina. “Sem condições materiais para exercer liberdade de escolha, qualquer outro direito se torna vazio,” escreve Nussbaum, reforçando a importância de iniciativas que promovam o empoderamento econômico como instrumento de justiça social.
As políticas públicas também desempenham papel essencial neste processo. Em Goiás, o governo estadual vem implementando ações que incluem parcerias com o Sebrae, oferecendo capacitações e fomentando o empreendedorismo feminino. Além disso, redes de proteção às vítimas têm buscado integrar serviços de suporte psicológico e jurídico ao desenvolvimento de habilidades empreendedoras, criando um ambiente de acolhimento e aprendizado integrado.
Para especialistas, é imprescindível que iniciativas como essas sejam sustentadas por políticas de longo prazo. Isso inclui não apenas o financiamento dos programas de capacitação, mas também o fortalecimento das redes locais de apoio que oferecem monitoramento e oportunidades de mercado. “Toda transformação social requer continuidade. É fundamental que esses esforços sejam mais do que respostas pontuais. Eles devem se tornar parte de um projeto estruturado de inclusão para essas mulheres,” afirma a socióloga Bárbara Almeida, pesquisadora da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Além dos benefícios individuais para as mulheres, o incentivo ao empreendedorismo feminino possui implicações que reverberam em toda a sociedade. O aumento da participação feminina nos negócios locais não apenas reduz as desigualdades de gênero, mas também gera empregos, estimula a economia e contribui para uma cultura de maior equidade.
É importante reconhecer, no entanto, que a jornada não se limita ao campo econômico. As mulheres que optam por empreender após experiências de violência frequentemente enfrentam julgamentos sociais e preconceitos estruturais que limitam seu avanço. A superação desses desafios depende de um esforço coletivo, onde Estado, sociedade civil e iniciativa privada estejam alinhados em prol de um mesmo objetivo: a construção de um ambiente mais acolhedor e igualitário.
Empreender, neste contexto, é mais do que abrir um negócio. É a expressão de força, resiliência e liberdade. Para mulheres vítimas de violência doméstica, significa reescrever as narrativas de suas vidas, transformando dor em potencial e abuso em autonomia. As histórias que surgem desses processos inspiram e reafirmam o poder da solidariedade e da justiça social, pilares que o “Liras da Liberdade” segue comprometido em divulgar e defender.