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Desigualdade Climática: como o calor afeta seu cérebro

Reportagem revela como o calor extremo afeta a saúde física e cognitiva de milhões de brasileiros, sobretudo moradores de periferias, segundo pesquisas apresentadas na COP-30 e estudos recentes de clima, urbanismo e neurociência

Um pedreiro chamou atenção em Ji-Paraná (RO) ao usar um ventilador em cima do andaime enquanto trabalhava na construção de uma casa, na sexta-feira de 7 de novembro de 2025. A cena foi registrada por um morador que passava pelo local.

Sumário

Calor extremo amplia desigualdades e altera o funcionamento do cérebro, apontam estudos divulgados durante a COP-30

Durante a COP-30, realizada em Belém, novos estudos climáticos e de neurociência alertaram para um fenômeno que já se manifesta diariamente nas cidades brasileiras: a desigualdade térmica, em que moradores de periferias enfrentam temperaturas mais altas, menor ventilação e maior risco biológico do que os habitantes de bairros nobres. Pesquisas recentes indicam que o calor extremo não apenas agrava problemas sociais e de saúde — ele também afeta o funcionamento do cérebro, alterando sono, memória, humor e capacidade de decisão, especialmente entre populações vulneráveis.

Periferias brasileiras enfrentam mais calor que áreas ricas

Levantamentos apresentados na conferência mostram que moradores de baixa renda, geralmente não brancos e concentrados em zonas informais ou densamente urbanizadas, estão mais expostos a ilhas de calor que podem ser até 5 °C mais quentes do que regiões nobres. Estudos nacionais apontam que o padrão se repete em diversas cidades — de Recife a Belo Horizonte — onde a falta de vegetação, o asfalto escuro e a verticalização desordenada criam “fornos urbanos” (fonte: plataforma Environmental and Urbanization, 2024).

A desigualdade térmica tem origem histórica. Décadas de políticas urbanas empurraram populações pobres para áreas de baixa ventilação, encostas, fundos de vale, terrenos sem arborização ou próximos a indústrias e lixões. Ao mesmo tempo, bairros centrais receberam estrutura planejada, sombreamento natural e maior circulação de ar — fatores determinantes para o conforto térmico.

Impactos no corpo: do sono às internações por superaquecimento

O calor extremo já provoca aumento de internações por desidratação, exaustão térmica e complicações cardiovasculares em diversas regiões do país. Em ondas de calor prolongadas, hospitais registram elevação significativa nos atendimentos, segundo análises publicadas na Revista Pan-Americana de Saúde Pública.

Outro efeito silencioso e contínuo é a ruptura do ciclo do sono. Em moradias sem isolamento térmico, ventilação adequada ou acesso a ar-condicionado, as temperaturas noturnas permanecem elevadas, impedindo a regulação térmica do corpo e prejudicando o descanso. A Organização Meteorológica Mundial afirmou, em relatório especial distribuído na COP-30, que noites quentes se tornaram um dos principais vetores de risco climático para populações vulneráveis.

Efeitos no cérebro: memória, atenção e autocontrole sob pressão térmica

Pesquisas de universidades norte-americanas e europeias, também citadas na conferência, revelam que a exposição constante ao calor altera o funcionamento cerebral. Estudos de neuroimagem mostram queda na perfusão sanguínea em regiões corticais e aumento da temperatura intracraniana durante episódios de hipertermia (fonte: PubMed, 2023).

Um dos trabalhos mais citados na COP-30 acompanhou jovens universitários dormindo em dormitórios com e sem ar-condicionado durante uma onda de calor. Na manhã seguinte, aqueles que dormiram em ambientes quentes apresentaram tempo de reação 13% maior e queda de quase 10% no desempenho cognitivo, especialmente em testes de atenção e memória operacional (fonte: PLOS Medicine, 2018).

Além disso, níveis elevados e contínuos de cortisol — o hormônio do estresse — foram detectados entre moradores de bairros periféricos durante semanas de calor extremo, o que pode amplificar irritabilidade, impulsividade e dificuldade de tomada de decisão.

Repercussões sociais: educação, trabalho e violência

O impacto cognitivo do calor tem efeitos diretos na vida cotidiana. Escolas públicas em prédios antigos e sem climatização enfrentam queda de rendimento dos alunos (fonte: Heatwaves worsen educational inequality in Brazil, 2024). Em ambientes de trabalho informal ou externo, o calor aumenta acidentes, exaustão e queda de produtividade.

Há ainda dados que sugerem crescimento de episódios violentos em dias muito quentes — relação já investigada em grandes metrópoles e mencionada em estudos brasileiros recentes que analisam variações de humor e comportamento diante do estresse térmico.

O Brasil como laboratório climático involuntário

Com cidades mal planejadas e infraestrutura desigual, o Brasil tem sido visto por pesquisadores internacionais como um “laboratório climático involuntário”. Segundo especialistas presentes na COP-30, o país reúne condições ideais para observar, em escala urbana, o impacto combinado de desigualdade, urbanização precária e aquecimento global.

A diferença é que, nesse laboratório, milhões de pessoas são as cobaias: habitantes de bairros populares que experimentam níveis extremos de calor sem acesso a mitigação, enquanto outros grupos sociais controlam o termostato.

Soluções emergenciais e estruturais

A conferência destacou estratégias essenciais para reduzir a desigualdade térmica:

  • Infraestrutura verde: plantio massivo de árvores, parques lineares, telhados e fachadas vegetadas.
  • Requalificação urbana: substituição de superfícies escuras por materiais de alto albedo, ampliação da ventilação natural e reformas em unidades habitacionais.
  • Transporte e educação: climatização de escolas públicas e ônibus que atendem periferias.
  • Mapeamento climático local: instalação de sensores em áreas vulneráveis para orientar intervenções.
  • Planos de ação para ondas de calor, com prioridade para idosos, crianças, trabalhadores expostos e moradores de casas inadequadas.

As discussões da COP-30 reforçaram que o calor extremo não é apenas um fenômeno meteorológico, mas um vetor de desigualdade social e biológica. Se não forem feitas intervenções estruturais, cidades brasileiras continuarão a reproduzir um padrão em que o endereço de uma pessoa determina o quanto o cérebro pode funcionar plenamente em dias quentes.

Justiça climática, concluíram especialistas, não será apenas reduzir emissões globais — mas garantir que nenhum brasileiro sofra mais calor por causa da cor da pele, da renda ou do bairro onde nasceu.

Enchentes e alagamentos em diversas regiões do globo impactam, em maior escala, pessoas mais pobres. — Foto: UNICEF/Akash

Embora focamos nesta reportagem no calor extremo, as discussões lembram que a temperatura é apenas uma das faces da injustiça climática no Brasil. Milhões de pessoas enfrentam outros riscos ambientais graves: famílias que vivem em áreas sujeitas a alagamentos crônicos, onde enchentes frequentes destroem casas e interrompem a rotina; comunidades instaladas em regiões de seca permanente, onde a escassez de água compromete saúde, trabalho e alimentação; e moradores de encostas e barrancos que convivem diariamente com o risco de deslizamentos provocados por chuvas intensas e solo instável. A soma dessas vulnerabilidades — calor extremo, enchentes, secas e desmoronamentos — mostra que os impactos climáticos não se distribuem de forma igual e atingem de maneira desproporcional quem tem menos recursos para se proteger.


Transcrição do vídeo do biólogo Paulo Jubilot:

Desigualdade Climática — Como o calor reescreve seu cérebro

No verão, enquanto a classe média alta e os ricos estão postando foto na praia, tem pobre desmaiando de calor no ônibus. Essa é a injustiça climática brasileira. Eu queria que você soubesse o que as pesquisas mostram. Quanto mais pobre a pessoa for, mais ela vai sofrer os efeitos do calor. Isso nada mais é do que resultado de décadas e décadas de planejamento urbano que empurrou os mais pobres para vales sem ventilação, áreas sem árvores, perto de fábricas e lixões.

Enquanto os bairros nobres foram pensados para o frescor, as periferias — hã — elas viraram fornos. Hoje, milhões de brasileiros vivem nas chamadas ilhas de calor urbanas, que são regiões até 5 °C mais quentes que os outros bairros. Ou seja, quem menos pode pagar por ar-condicionado é exatamente quem mora onde mais precisa dele. O rico chama de verão o que o pobre chama de insônia.

Os cientistas já descobriram que os moradores de periferias que ficam expostos ao calor, além de sofrerem com a falta de sono de qualidade, têm níveis muito altos de cortisol, que é um hormônio essencial para a vida. Só que o problema acontece quando esse hormônio fica cronicamente alto. A cada onda de calor, o cortisol fica cada vez mais alto e aí fica muito difícil pra pessoa manter o autocontrole. É exatamente por isso que, nesses momentos, as pessoas tendem a ficar mais impulsivas, mais irritadas e muito menos produtivas.

E assim, existem dados que comprovam isso. Depois de várias noites de calor extremo, nas periferias aumentam as internações por superaquecimento do corpo e também relatos de episódios violentos. Cada grau a mais no termômetro tende a esquentar também os ânimos nas ruas.

O Brasil acabou se tornando um laboratório onde se testa quanto calor o cérebro humano aguenta. A diferença é que uns são cobaias e outros controlam o termostato. Enquanto o mundo todo fica discutindo metas de temperatura, neste momento milhões de pessoas já sentem o aquecimento global na própria pele. Isso não é só um problema social, é biologia da desigualdade. 

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