A crise institucional no partido Cidadania ganhou novos contornos nesta semana, com o deputado federal Alex Manente, que também preside a legenda, iniciando uma ofensiva jurídica contra uma ala rival liderada pelo ex-deputado Comte Bittencourt. Segundo informações, Manente ingressou com uma representação no Ministério Público (MP) e registrou um boletim de ocorrência (BO) para apurar possíveis irregularidades no âmbito interno da sigla. A movimentação ocorreu em 4 de abril de 2026, intensificando desentendimentos que vêm tomando corpo há meses.
A disputa pela liderança do Cidadania opõe duas correntes internas que divergem sobre os rumos políticos e administrativos do partido. De um lado, Manente, que ocupa a presidência formal da agremiação, defende a manutenção da atual linha de atuação. Do outro, a ala ligada a Bittencourt argumenta que a gestão de Manente tem comprometido os princípios fundadores do partido, que, em 2019, substituiu o antigo PPS para se reposicionar enquanto um partido de centro-esquerda com viés reformista.
No centro da crise está a batalha por maior influência sobre as decisões partidárias, em especial com vistas às eleições de 2028, quando o Cidadania busca ampliar seu protagonismo no cenário federal. A confecção das coligações eleitorais, o financiamento das candidaturas e o alinhamento político com outras legendas estão entre os pontos de maior atrito. A ala liderada por Bittencourt acusa a gestão de Manente de centralização excessiva e de desrespeitar compromissos democráticos internos. Já o presidente do partido afirma que tais acusações carecem de fundamento e que o movimento opositor estaria agindo de má-fé para desestabilizar a sigla.
O embate jurídico deflagrado por Manente parece ser uma tentativa de consolidar sua liderança no partido antes que o impasse tome proporções ainda mais graves. Fontes próximas ao deputado paulista revelaram que sua decisão de registrar um boletim de ocorrência foi motivada por denúncias de suposta apropriação de recursos partidários por membros do grupo adversário. A representação no MP busca esclarecer essas acusações, que, se confirmadas, podem gerar sanções severas contra os envolvidos e enfraquecer ainda mais a oposição interna.
O Cidadania, que ao longo dos últimos anos vinha buscando se firmar como alternativa viável ao centro político brasileiro, enfrenta agora os desafios de uma crise que, além de institucional, também reflete as tensões mais amplas que permeiam o cenário político nacional. A fragmentação interna nos partidos tem sido uma característica marcante do atual momento político, em que coalizões, alianças e fusões ganham e perdem força a depender dos interesses de curto e longo prazo. Nesse contexto, a disputa interna no Cidadania pode ser lida como um reflexo de uma democracia representativa em permanente reconfiguração.
Historicamente, o Cidadania se destacou por uma plataforma que buscava equilibrar pautas progressistas – como os direitos humanos e as políticas ambientais – com uma postura fiscalmente responsável. No entanto, como ocorre com diversas siglas no país, a governança interna nem sempre reflete as posições compartilhadas com o eleitorado. A falta de mecanismos claros para resolução de conflitos internos tem sido apontada por analistas como um dos fatores que alimentam disputas como a que agora alcança os tribunais.
Em nota, o grupo liderado por Comte Bittencourt rebateu as acusações de Manente, classificando-as como uma tentativa de usar a máquina partidária para silenciar vozes dissidentes. “Nossa luta é pela democracia interna e pela retomada dos princípios que sempre nortearam o nosso partido. Não aceitaremos manobras que busquem sufocar a pluralidade de ideias”, declarou Bittencourt. Procurado pela reportagem, Manente reafirmou que todas as suas ações seguem respaldadas pelas instâncias legais e pelo estatuto da legenda.
A cisão no Cidadania levanta questionamentos sobre os impactos que isso pode gerar na atuação parlamentar do partido. Com uma bancada ainda pequena na Câmara dos Deputados, a legenda vinha buscando se posicionar como uma voz moderada nas discussões mais polarizadas que têm marcado o Congresso Nacional. No entanto, o prolongamento do conflito interno ameaça enfraquecer sua capacidade de articulação política, além de comprometer a imagem pública da sigla.
No plano mais amplo, o episódio também expõe um fenômeno recorrente na política brasileira: o desafio da convivência democrática dentro dos partidos. Apesar de a Constituição Federal de 1988 prever a autonomia partidária como princípio fundamental, a prática tem mostrado que divergências ideológicas e lutas por poder frequentemente fragilizam os laços internos. O caso em questão, portanto, transcende o Cidadania e ilustra um problema estrutural que acomete boa parte das agremiações políticas do país.
Embora o desfecho da disputa jurídica ainda seja incerto, especialistas ouvidos pela reportagem destacam a necessidade de reformulação das estruturas internas dos partidos para fortalecer a democracia representativa. “A solução passa por maior transparência, participação dos filiados e mecanismos claros de governança, que ajudem a evitar crises como essa”, pontuou a cientista política Ana Luísa Barreto, da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Nos próximos dias, espera-se que o MP analise a acusação formal apresentada por Manente, o que pode culminar na abertura de um inquérito para apurar os fatos. Enquanto isso, o partido segue dividido, com ambos os grupos reivindicando para si o projeto que melhor representa os valores fundantes do Cidadania.
Dada a relevância do caso, não está descartada a possibilidade de intervenção da Justiça Eleitoral para decidir sobre o comando do partido, o que poderia arrastar ainda mais a disputa e dificultar a preparação do Cidadania para os desafios eleitorais vindouros. O desenrolar dessa situação será determinante não apenas para o futuro da sigla, mas também para o equilíbrio de forças no já tensionado cenário político brasileiro.