Helton Lenine, um dos nomes mais marcantes do jornalismo político em Goiás, faleceu aos 72 anos, nesta quinta-feira (2 de abril), na capital goiana. Com uma trajetória que se estendeu por redações, emissoras de rádio e órgãos de comunicação institucional, Lenine foi uma figura central na narrativa política do estado por décadas. Seu falecimento, causado por complicações de saúde, representa uma perda irreparável para o jornalismo local e para o legado da análise política independente.
Ao longo de décadas, Helton Lenine construiu uma reputação rara: a de repórter que conhecia profundamente os bastidores do poder sem jamais perder de vista o interesse do leitor. Trabalhou em veículos como Diário da Manhã, O Popular e Jornal Opção. Sempre associado à cobertura política, à leitura fina dos fatos e à memória prodigiosa sobre personagens, cargos, alianças e movimentos da vida pública goiana.
Na redação, era reconhecido pela agilidade, pela precisão e pela vocação de repórter em tempo integral. No Jornal Opção, onde atuou nos anos 1990, participava das reuniões de pauta com a inquietação de quem queria ir direto ao essencial. Em meio às discussões, resumia sua posição em uma frase que o definia: “Aos fatos”. Era esse espírito que o acompanhava no cotidiano profissional — menos afeito à retórica vazia, mais comprometido com a substância da notícia. No Diário da Manhã onde permaneceu na trincheira por mais de 10 anos, foi editor da editoria de Política & Justiça, talvez o mais longevo do veículo.
Helton Lenine também presidiu o Clube dos Repórteres Políticos de Goiás, posição a partir da qual reforçou a defesa da liberdade de expressão e do papel da imprensa numa sociedade democrática. Tinha trânsito entre diferentes correntes políticas e ideológicas, mas sua fidelidade maior era à informação. Cultivava fontes diversas, conversava com todos e entendia que o jornalista não pode se fechar em trincheiras, sob pena de empobrecer a própria compreensão da realidade.
Essa capacidade de dialogar sem submissão fez dele um profissional ouvido com atenção por políticos de diferentes gerações. O ex-deputado federal Vilmar Rocha o definiu como “um dos mais brilhantes repórteres de sua geração”, lembrando seu olhar agudo para os fatos e sua impressionante familiaridade com a engrenagem da política goiana. Para o deputado federal José Nelto, Helton era daqueles jornalistas que faziam da profissão uma extensão da própria vida: “O que corria no sangue de Lenine? Jornalismo. Ele nasceu para reportar e analisar fatos”.
Entre colegas, a lembrança que permanece é a de um homem bem-humorado, cordial e intensamente ligado ao ofício. Participante ativo de grupos de debate entre repórteres políticos, Helton provocava discussões, animava conversas e mantinha vivo o interesse pelo noticiário, mesmo em tempos de crescente radicalização. Não era adepto da política do ódio. Preferia a convivência, a escuta e a circulação franca entre os diversos atores da cena pública.
Sua presença também marcou gerações. Ex-diretor de Redação do jornal e filho de Batista Custódio, o jornalista Arthur da Paz lamentou a perda com emoção: “A partida de Helton Lenine me comoveu profundamente. Trabalhei 10 anos junto a ele na redação do Diário da Manhã. Era de fácil convívio. Era bom chegar para um dia de trabalho, e lá já estava ele, com a editoria de Política & Justiça pronta”. Em outro trecho, Arthur acrescentou: “Poucas mortes me comovem. Esta me orvalhou o coração”.
Mais do que um analista da política, Helton Lenine foi um profissional que ajudou a formar a cultura do jornalismo político em Goiás. Pertencia à linhagem dos repórteres que compreendiam a notícia como serviço público, e não como espetáculo; como compromisso com os fatos, e não com facções; como exercício de inteligência, memória e responsabilidade.
Sua morte encerra uma presença humana e profissional de grande relevo na imprensa goiana. Seu exemplo, porém, permanece. Na lembrança dos colegas, no respeito das fontes, na admiração dos leitores e no repertório dos que aprenderam com ele, Helton Lenine seguirá vivo como um dos repórteres que melhor compreenderam a política de Goiás — e que melhor souberam traduzi-la para a sociedade.