Sumário
Batista Custódio era um ser de muitas peles. Não as de cobra, que são liberadas para nunca mais voltar, ou as das lagartas que delas se livram para se transformar em borboleta.
As peles do Batista ficavam uma sobre as outras, se alternando sem nunca se perderem de vista. Era assim que ele se fazia diretor e manda chuva de importantes jornais e ao mesmo tempo não deixava de ser o Batista menino seminarista, que nunca que se espantou com a crueza do mundo.
Ele tinha ao mesmo tempo a pele do menino sonhador e do homem desiludido que aprendeu daquele que as duas piores coisas da vida eram os dogmas e as ideologias políticas.
Ele foi o Batista da pele de fazendeiro que abandonou herança para sair de Caiapônia e chegar liso na capital empoeirada para abrir jornais como quem punha à prova a pele a cada edição, a começar do jornal estudantil.
Sem nunca deixar de ser os seus outros “eus”, ele foi empresário por necessidade, no negócio da imprensa. E encarnou a pele do diligente espadachim de caneta sempre pronto para apontar indiferenças e injustiças.
Sem nunca vestir a pele do candidato, ele foi político, indicando saídas e participando de grandes decisões que refletiam depois na vida das pessoas comuns como ele.
Nunca teve que se exilar, é verdade. Mas foi preso por defender seu ideário a favor da liberdade de tudo. E quando foi cassado pela falência que o tirou de seu ganha pão financeiro e espiritual, que era o seu jornal, ele foi para o mato, onde se entendeu com as forças da natureza e de sua terra fez um viveiro de ideias e uma APA, que a perpetua in natura, hoje protegida dos avanços por dinheiro.
O proscrito voltou à raia da disputa de seu tempo e se refundou, continuando a ser o Batista, mas agora com pele de um sábio, que destilava para os seus os caminhos da bonança que nunca foram seguidos por quem poderia abri-los a todos.
Teve também investida a pele do professor universitário, mas sem aderir a sala de aula. Ensinava os que queriam ser jornalistas não a tirar notas boas, mas a farejar a notícia e a lapidar sua presença na frente da liberdade de pensar e expressar suas verdades.
No fim da vida, com a força da frase (título do livro que registra parte de seus pensamentos) ele recolhia frutos do que plantou pensando em novos jornais e assumindo a pele do amigo fraterno, de quem muitos falsos amigos fugiam.
Foi-se depois de uma vida longa que vai se prolongar pelo universo sem fim, na lembrança que temos dele e no que ele deixou de mudanças, ainda que sutis.
Batista vestiu e encarnou suas peles, todas elas, tendo por sob elas a força da liberdade que criava e estava presente em tudo que fazia.
Era um cidadão investido de deveres além dos prescritos, com a pele da empatia pelo próximo professando os direitos do ser humano. Tinha como horizonte apontar o que não estava certo e intervir no mundo para melhorá-lo a cada pele que usava e a cada edição que fazia vir à luz.
Batista Custódio foi um homem que cumpriu sua vocação, que era de não privar nenhum homem de escolher a sua.
Px Silveira coordenou o livro A Força da Frase, de Batista Custódio, lançado no Palácio das Esmeraldas.