A neuropsicóloga Sylvie Chokron, diretora de pesquisa do CNRS, afirmou em participação no programa francês Quotidien que o uso crescente de inteligências artificiais generativas, como o ChatGPT, tende a reduzir o engajamento de funções cognitivas básicas e a prejudicar a metacognição — a consciência das próprias capacidades cognitivas. Segundo Chokron, essa delegação constante de tarefas ocorre quando pessoas passam a usar o telefone, motores de busca ou IAs em vez de sua percepção, memória e julgamento crítico.
Chokron explicou que, ao pedir a uma IA para redigir um texto, fazer um resumo ou responder a perguntas, o usuário passa a “não exercer” processos mentais que antes eram mobilizados pelo esforço de pesquisar, lembrar e sintetizar. "Se você usa, por exemplo, uma inteligência artificial tipo ChatGPT para fazer um dossiê, para redigir algo, um dever, você vai menos engajar seu cérebro do que se usar um motor de busca. E ainda menos do que se fizer esse ensaio sozinho, somente com suas ideias, seu espírito crítico, suas lembranças", disse a pesquisadora na entrevista.
No centro da preocupação de Chokron está a metacognição, isto é, o conhecimento que cada pessoa tem de suas próprias capacidades. "Se eu delego permanentemente minhas capacidades — não uso mais minha percepção visual porque assisto a um panorama pelo telefone, não uso minha memória porque vou buscar tudo no aparelho, não uso meu julgamento crítico porque pergunto tudo a uma IA — o que perco é o conhecimento do que sei e do que não sei", afirmou.
"A ‘estupidez’, do ponto de vista neuropsicológico, é não saber o que eu sei e não saber o que eu não sei. E estamos nos tornando pessoas que não sabemos o que sabemos e o que não sabemos, porque delegamos todas as nossas capacidades."
A pesquisadora ponderou, porém, que a situação não é inteiramente pessimista. Chokron citou evidências de que a recuperação parcial de certas capacidades é possível após um período de "sevrage" — abstinência de dispositivos digitais: estudos indicariam recuperação em cerca de dez dias de abstinência total do telefone, embora ela reconheça que esses resultados mereçam confirmação adicional.
Para Chokron, a conclusão prática não é abandonar as ferramentas digitais, mas aprender a manter o controle sobre as próprias habilidades: "Não somos contra essas ferramentas; vamos viver com elas. O essencial é manter a mão nas nossas capacidades". O alerta coloca em foco implicações para educação, práticas profissionais e hábitos de consumo de informação, à medida que sociedades integram assistentes digitais em tarefas cotidianas.
Pesquisas sobre os efeitos longitudinais do uso intensivo de inteligências artificiais na cognição humana ainda estão em desenvolvimento. Especialistas apontam que, enquanto as ferramentas podem ampliar produtividade, seu uso contínuo sem estratégias de preservação das habilidades cognitivas pode reduzir a prática de memória, atenção sustentada e julgamento crítico — aspectos centrais da metacognição descrita por Chokron.