O suspeito de cometer um estupro em frente a uma base da Guarda Civil Metropolitana (GCM) na cidade de Goiás apresentou-se, nesta semana, às autoridades policiais. O caso, amplamente repercutido, ocorreu em um local que deveria simbolizar segurança para a população, gerando questionamentos sobre a conjuntura de vigilância e prevenção em ambientes urbanos. A identidade do suspeito foi mantida sob sigilo pela polícia, que segue conduzindo as investigações.
Segundo informações preliminares divulgadas pela imprensa local, o crime teria ocorrido em um horário em que a movimentação na área era consideravelmente baixa, o que pode ter contribuído para a vulnerabilidade da vítima. A proximidade com a base da GCM, no entanto, destacou o episódio como um reflexo preocupante da incapacidade de algumas estruturas públicas de garantirem proteção imediata, mesmo em áreas estratégicas.
A vítima, cujo nome também foi preservado por razões legais e humanitárias, recebeu atendimento médico e psicológico após denunciar o caso. Especialistas consultados pelo jornal apontam que crimes dessa natureza, mesmo em locais ostensivamente patrulhados, expõem lacunas na aplicação de políticas públicas de segurança. Para a criminóloga e professora Maria Lúcia Castro, “a presença de uma base fixa não substitui a necessidade de ações preventivas dinâmicas e abordagens que englobem tecnologia e inteligência na segurança pública”.
Este não é um caso isolado, e reflexões sobre a segurança pública em cidades brasileiras têm se tornado cada vez mais frequentes. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública referentes ao último ano indicam um aumento nos números de violência sexual, mesmo com a ampliação de campanhas de denúncia e conscientização. De acordo com o relatório, 66,6% das vítimas são mulheres adultas, enquanto 18,6% são menores de idade. Esse panorama exige uma análise aprofundada das causas sociais e estruturais que perpetuam tais crimes.
As bases da GCM, por sua vez, estão sob escrutínio. Criadas para aumentar a sensação de segurança e fomentar a vigilância em pontos estratégicos, essas unidades têm sido alvo de críticas sobre sua efetividade desde sua implementação. A última auditoria disponível, realizada em 2022 pela Secretaria de Segurança Pública de Goiás (SSP-GO), apontou falhas na alocação de recursos humanos e na manutenção tecnológica de sistemas de monitoramento, como câmeras que muitas vezes não estão em funcionamento.
Outro ponto importante trazido pelo caso é o papel da educação e das políticas preventivas na mitigação de situações de violência sexual. A psicóloga e ativista pelos direitos das mulheres, Clara Nascimento, destacou a necessidade de uma abordagem abrangente: “Não podemos tratar episódios assim apenas como responsabilidade do aparato policial. Educar a sociedade para questões como consentimento e respeito, desde a escola, é parte fundamental para mudar esse cenário”.
No âmbito jurídico, advogados especialistas em crimes dessa natureza enfatizam a importância de um julgamento célere e tecnicamente impecável para que a justiça seja aplicada de maneira eficiente e para que o caso sirva como um reforço da confiança da população no sistema de segurança e justiça. O Código Penal Brasileiro prevê penas severas para crimes de estupro, que podem variar de seis a dez anos de reclusão, agravando-se em casos de violência agravada ou reincidência.
A relação entre o local do crime e a estrutura policial também mobiliza discussões sobre o simbolismo de espaços públicos na promoção de segurança. Para o urbanista João Paiva, “os centros urbanos devem ser projetados considerando tanto o potencial de dissuasão que estruturas físicas como bases policiais podem representar, quanto ações que priorizem a iluminação, a circulação de pessoas e a integração comunitária”. A base da GCM em questão, conforme as críticas, parece não ter conseguido exercer eficazmente sua função preventiva.
Com o desenrolar das investigações, a expectativa de ativistas e especialistas é que o caso não apenas resulte em justiça para a vítima, mas também provoque mudanças efetivas na atuação da segurança pública nas cidades. O Secretário de Segurança Pública de Goiás, durante coletiva de imprensa realizada na tarde de ontem, comprometeu-se a revisar as operações das bases da GCM e a reforçar parcerias com a Polícia Militar e Civil para mitigar falhas semelhantes no futuro.
À medida que a sociedade goiana acompanha o desdobramento desse caso, uma questão permanece ecoando: como avançar em um modelo de segurança pública que combine presença física, inteligência tecnológica e, sobretudo, a garantia de que episódios violentos, especialmente contra mulheres, sejam cada vez mais raros? Este episódio desafia a todos — governantes, gestores públicos e cidadãos — a refletirem sobre o papel de cada um na construção de uma sociedade mais segura e equânime.