A Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) anunciou, nesta quarta-feira, 4 de outubro, uma importante ampliação nos protocolos de atendimento voltados às mães que enfrentam a perda do bebê durante ou após o parto. Anna Cecília, Coordenadora de Leitos Materno Infantil, revelou em entrevista exclusiva que a medida incorpora legislações federais e portarias ministeriais aos contratos firmados com unidades hospitalares, atualmente administradas por parceiros privados.
O objetivo da iniciativa, segundo a coordenadora, é oferecer suporte psicológico de forma mais estruturada, além de garantir maior privacidade às mães em momentos de perda gestacional e neonatal. “A humanização no atendimento é a prioridade. Não se trata apenas de cumprir normas legais, mas de entender a profundidade do impacto emocional para essas mães e famílias”, explica Anna Cecília.
A decisão de reforçar políticas de acolhimento ocorre no contexto de uma crescente demanda por serviços especializados em saúde mental ligados ao luto neonatal. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, globalmente, cerca de 2 milhões de bebês nascem mortos anualmente, revelando a urgência de iniciativas que amparem mães e famílias em momentos tão sensíveis. No Brasil, estima-se que ocorram mais de 25 mil casos de natimortos por ano, segundo o Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc).
Privacidade e acolhimento como pilares fundamentais
Um dos principais avanços previstos pela SES-GO é a criação de ambientes reservados dentro das maternidades públicas, onde mães em situação de luto possam receber atendimento psicológico especializado. A privacidade nesses espaços é indispensável para que as pacientes processem a perda em um ambiente acolhedor e digno, longe de ambientes que possam causar desconforto, como os setores de maternidade onde estão presentes mães com seus recém-nascidos.
Além disso, os contratos estabelecem que as equipes médicas e de enfermagem serão capacitadas para lidar com o luto neonatal de maneira ética e empática. Essa capacitação inclui treinamentos em comunicação não violenta e atenção psicológica básica, reduzindo o risco de retraumatização durante o atendimento.
Legislação: a base para avanços estruturais
As mudanças são fundamentadas em legislações já existentes, como a Lei nº 13.979/2020, que trata da garantia de assistência integral à saúde das gestantes. No entanto, a SES-GO tem ido além do cumprimento mínimo regulamentar, buscando expandir a abrangência prática das normas para atender de forma mais completa às necessidades das mulheres que enfrentam perdas gestacionais.
“É um compromisso ético e humano. Incorporar as portarias ministeriais e legislações ao dia a dia das unidades de saúde não é apenas uma questão legal, mas um avanço na forma como o estado encara a saúde materna e o luto”, pontua Anna Cecília. Ela ainda ressalta que os parceiros privados, que administram parte das unidades hospitalares da rede pública, têm se mostrado receptivos às mudanças propostas.
Impacto social e psicológico
Especialistas da área de psicologia apontam que o luto neonatal é geralmente negligenciado em ambientes hospitalares, o que contribui para o agravamento de traumas psicológicos em mães e famílias. Débora Castro, psicóloga com experiência em saúde mental perinatal, explica que a validação do luto é essencial para a recuperação emocional das mães. “Respeitar o espaço da mãe, ouvir suas dores e oferecer acompanhamento psicológico são ações que diminuem significativamente o impacto do trauma”, analisa.
Além dos impactos individuais, a iniciativa pode gerar reflexos positivos na saúde pública, diminuindo a incidência de transtornos psicológicos graves, como depressão pós-parto e ansiedade generalizada, que muitas vezes surgem em decorrência da falta de suporte adequado nesses momentos.
Parcerias privadas e desafios futuros
Embora os avanços sejam significativos, a execução prática da iniciativa ainda enfrenta desafios. Parcerias com empresas privadas têm sido uma realidade cada vez mais presente no setor de saúde em Goiás, e a eficácia dessas mudanças dependerá também da adesão dessas instituições às novas diretrizes, além da fiscalização rigorosa por parte da SES-GO.
Anna Cecília destaca que a implementação dos novos protocolos ocorrerá de forma gradual, com previsão de avaliação contínua dos impactos e possíveis ajustes. Já existem hospitais-piloto que adotaram as mudanças e estão servindo como referência para replicação em outras unidades ao longo de 2024.
Com essa medida, Goiás se posiciona como um dos estados brasileiros que mais têm investido em práticas humanizadas na saúde pública materno-infantil. A ampliação do suporte psicológico e da privacidade para mães que passam pelo luto neonatal é um exemplo claro de como políticas públicas podem transformar vidas, trazendo acolhimento e dignidade em um dos momentos mais desafiadores da maternidade.