Uma operação de grande envergadura, denominada Operação Rasante, foi deflagrada nesta quarta-feira, 28, com o objetivo de desarticular um dos braços operacionais do Primeiro Comando da Capital (PCC) em Goiás e no Entorno do Distrito Federal. Coordenada por forças policiais estaduais e federais, a ação é parte de um esforço contínuo para enfrentar o avanço de organizações criminosas que têm proliferado pela região central do país, com foco no aliciamento de jovens e na articulação de atividades ilícitas a partir do sistema prisional.
De acordo com informações das autoridades, o ponto de partida da investigação foi a descoberta de uma rede de recrutamento que utiliza o sistema prisional como base para expandir a influência do PCC. A facção, que nasceu em São Paulo nos anos 1990, consolidou-se como uma das organizações criminosas mais ativas do Brasil, com ramificações que extrapolam as fronteiras nacionais. No contexto de Goiás e do Entorno do DF, o grupo demonstrou uma habilidade singular em explorar vulnerabilidades sociais e falhas institucionais para angariar novos membros, sobretudo entre jovens em situação de risco social.
A operação contou com a participação de cerca de 300 agentes, incluindo forças da Polícia Civil, Militar e Federal, além do apoio do Ministério Público. Mandados de prisão e busca e apreensão foram cumpridos em diversos municípios goianos e em áreas adjacentes à capital federal, como Águas Lindas e Valparaíso de Goiás. Segundo as autoridades, foram encontrados indícios robustos de que líderes da facção coordenavam suas atividades criminosas de dentro dos presídios, aproveitando-se da fragilidade das políticas públicas de reinserção social e do superlotado sistema penitenciário.
Uma rede que se expande na sombra
O aliciamento de jovens representa uma das faces mais preocupantes da atuação do PCC na região. De acordo com especialistas em segurança pública, a organização investe em narrativas de pertencimento, proteção e ascensão social como forma de atrair adolescentes e jovens adultos para suas fileiras. Em troca de uma lealdade cega, esses novos membros são envolvidos em atividades criminosas como tráfico de drogas e roubos coordenados.
A conexão entre o sistema prisional e o aliciamento não é nova, mas seu agravamento no Entorno do DF acende um alerta urgente sobre o impacto de décadas de desassistência e precariedade. Para o sociólogo Marcos Pereira, que estuda a atuação de organizações criminosas no Brasil, “o ambiente prisional funciona como um terreno fértil para o recrutamento, uma vez que os detentos se tornam não apenas parte, mas peças fundamentais no projeto de expansão do PCC”.
Estratégia de expansão e desafios das políticas públicas
A expansão do PCC em regiões fora das metrópoles brasileiras reflete tanto o sucesso estratégico da facção em diversificar suas operações quanto a ausência de medidas efetivas de combate à criminalidade organizada em áreas periféricas. No caso do Entorno do DF, a proximidade com a capital federal expõe ainda mais as fragilidades de uma fronteira marcada por desigualdades sociais profundas.
Ações repressivas como a Operação Rasante são, sem dúvida, ferramentas importantes para desarticular redes criminosas, mas especialistas alertam que, sem um investimento sério em políticas de prevenção, o fenômeno tende a se repetir. “Enquanto os jovens do Entorno não tiverem acesso a educação de qualidade, oportunidades de emprego e lazer, as organizações criminosas continuarão a prosperar”, afirma a criminóloga Ana Luísa Martins.
Além do aliciamento de jovens, a operação trouxe à tona a internacionalização do tráfico de drogas na região, com indícios de que o PCC mantém conexões com fornecedores sul-americanos. Essa dinâmica coloca Goiás e o Entorno no mapa estratégico do crime organizado, afetando não só a segurança local, mas também a percepção de estabilidade em nível nacional.
Conexões institucionais e próximos passos
Em nota oficial, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás destacou que a Operação Rasante é um “marco no enfrentamento à atuação do crime organizado no estado”. No entanto, a complexidade do problema exige soluções mais abrangentes. Segundo especialistas, uma abordagem integrada, envolvendo educação, segurança e assistência social, é imprescindível para minimizar os impactos a médio e longo prazo.
Com as investigações ainda em curso, as autoridades esperam ampliar o mapeamento da estrutura do PCC na região, identificando fluxos financeiros e logísticos que sustentam a organização. O avanço da operação será acompanhado com atenção pelas forças de segurança e pela sociedade civil, pois o desmantelamento de redes criminosas como esta depende de um esforço contínuo e colaborativo.
Enquanto isso, a Operação Rasante destaca uma questão urgente e universal: como equilibrar repressão e prevenção na luta contra o crime organizado? A resposta, ao que tudo indica, passa pela construção de políticas públicas que enfrentem as raízes do problema, ao invés de atuar apenas em seus sintomas.