É fascinante - e curiosa - a forma como o cinema transforma tribunais em palcos dramáticos. Nas telas, a verdade parece sempre à espera de um discurso brilhante, de uma reviravolta final ou de uma confissão inesperada. Sempre esperamos a justiça e falas mirabolantes com fundamentos acertados e perfeitos.
O espectador, muitas vezes, sai da sessão com a sensação de que a justiça, embora imperfeita, é alcançável — desde que alguém suficientemente eloquente esteja disposto a defendê-la. Para um bom espectador, meia sustentação basta. Não se pode sair de um filme que retrata a justiça sem o ideal de eloquência a ser alcançado.
Mas será que o cinema nos aproxima da realidade do Direito ou cria uma versão idealizada — e, por vezes, enganosa — da justiça?
Um dos exemplos mais emblemáticos é Doze Homens e uma Sentença. O filme se passa quase inteiramente dentro de uma sala de deliberação, onde doze jurados discutem o destino de um jovem acusado de homicídio. A força da narrativa não está em provas técnicas ou procedimentos complexos, mas no embate de argumentos, preconceitos e dúvidas. Aos poucos, o que parecia um caso simples revela-se cheio de incertezas.
A obra é poderosa justamente porque desloca o foco da lei para o ser humano. Mostra que a justiça não é apenas um conjunto de normas, mas um processo permeado por emoções, valores e fragilidades. Nesse sentido, o cinema acerta: decisões jurídicas são, inevitavelmente, decisões humanas.
No Brasil, os crimes da seara do Tribunal do Júri são decisões humanas, onde, o juridiquês, muitas vezes não é o ator principal, visto que, sobretudo, é uma decisão pautada pela sociedade, pelos jurados.
A retratação em filmes e novelas é, por muitas vezes, pintada de ouro e vendida cara, e, cá entre nós, a realidade profissional não é glamurosa: enfrenta desafios, argumentações e nem sempre a beleza retratada no cinema.
O problema surge quando essa versão cinematográfica passa a moldar o imaginário coletivo. Quantas pessoas não esperam que um julgamento seja marcado por discursos arrebatadores, quando, na prática, ele é conduzido por formalidades e linguagem técnica? Quantas não acreditam que a “verdade” sempre emerge de forma clara, quando, na realidade, ela muitas vezes permanece disputada e incompleta?
Quantas pessoas não entraram no curso de Direito norteado por um filme, novela ou série?
Vale lembrar que a arte não tem o compromisso de reproduzir fielmente o mundo, mas de interpretá-lo. E, nesse ponto, os filmes jurídicos cumprem um papel essencial: eles provocam perguntas que o Direito, por si só, nem sempre consegue formular.
A possibilidade formulada nos enredos e scripts é que torna o imaginário algo tangível. A prudência de retratar o real de forma verossímil deve ser levada em conta, mas não necessariamente tornar um calhamaço processual em um sucesso de Hollywood.
O Direito e a cultura se entrelaçam em um nó górdio visceral da humanidade. Enquanto o Direito é, por vezes, denso e insensível; a cultura, por meio dos filmes, torna possível mostrar a esfera intocada do Direito, e, por vezes, humana das leis.