Quando Elias soube, pela primeira vez, que a luz de certas estrelas chegava à Terra milhões de anos depois de elas terem explodido, riu com desdém. Mais tarde, estirado no chão gelado do apartamento vazio, entendeu que aquela era a metáfora mais exata de sua vida afetiva.
Naquela noite, o advogado já tinha ido embora, levando o envelope do divórcio. A porta bateu, e o eco demorou mais do que o habitual. Elias ficou no corredor, olhando o apartamento como quem encara um palco depois da peça. Então sentou-se no piso frio, encostou as costas na parede e deixou o corpo deslizar até deitar-se por inteiro. O porcelanato sugava o calor como se tivesse fome.
O que o assustou não foi o choro. Foi a sensação de estar sendo arrancado de dentro de si, como se alguém, em si mesmo, lhe rasgasse as pálpebras para obrigá-lo a ver um chão coberto de cacos — de sonhos, de promessas, de frases que um dia tinham parecido eternas.
“Eu era tão certo de nós”, pensou.
Clara entrara em sua vida como incêndio. Talvez por isso o nome dela lhe parecesse, agora, irônico: Clara, a que traz luz. Conheceram-se num seminário sobre ética no trabalho. Ela fez uma pergunta que desmontou o palestrante; mais tarde, conversaram sobre sinceridade no café do hotel. Quando notaram, estavam juntos: livros misturados, planos em comum, chaves no mesmo chaveiro.
A paixão não veio em brasa disciplinada. Veio como raio em tronco seco. Às vezes ele tinha a impressão de que o coração fora feito de tecido leve demais, como se Deus o houvesse costurado com a mesma matéria das plumas. Bastava um gesto dela para que sentisse o peito inflar-se a um ponto quase doloroso.
Naquela época, Elias acreditava em promessas como quem acredita em leis da natureza. O amor tinha de durar; caso contrário, não merecia o nome. Tecia frases grandiosas como as promessas feitas de joelhos nas catedrais: “Nada vai nos separar, nem o tempo, nem as tempestades”. Enquanto confessava, via nos olhos de Clara um brilho confiante e tomava isso como selo de eternidade. Ignorava que nenhuma promessa humana fora feita para rivalizar com o caos do mundo.
O fim não veio de súbito, embora pareça sempre repentino quando tudo desaba. Vieram, antes, pequenos deslocamentos: o cansaço que se prolongava pelo sábado, a resposta curta, o olhar que não fixava. O silêncio entre perguntas. A certa altura, Clara começou a falar de si mesma como se falasse de outra pessoa: “Ultimamente, eu ando tão distante…”.
Ele escutava, mas a paixão funcionava como véu. Sentia que o amor, por ser intenso, seria necessariamente verdadeiro. Não lhe ocorrera que a intensidade pode ser apenas o volume do grito, não a prova da mensagem.
Quando, enfim, ouviu o “não te amo mais” — simples assim —, houve um clarão por dentro, desses que precedem o apagão. A realidade ficou nua. Tinha pouco mais de trinta anos e um casamento na conta, mais o divórcio embrulhado numa pasta de plástico.
A vida seguia; por dentro, ele ainda acumulava dores que não cabiam em conversa alguma.
Tentou abrir-se para novos encontros. Aceitou convites para cafés e sorrisos polidos. Sempre que um olhar se aproximava demais, recuava. Chamava esse recuo de prudência — palavra elegante para disfarçar o medo. Era como se temesse entregar o peito outra vez para que alguém o usasse de laboratório.
Numa noite em que o passado latejava mais que o presente, decidiu caminhar sem destino pelo centro. O céu, ali, era apenas uma faixa entre prédios, com poucas estrelas visíveis. Lembrou-se da lição dos astrônomos: quando olhamos uma estrela, não vemos a estrela em si — vemos a luz que ela emitiu no passado. Muitas já morreram, mas continuam brilhando porque a luminosidade demora a chegar.
“E se for isso?”, pensou. “E se eu estiver apaixonado pela luz de uma coisa que já não existe?”
Parou na calçada, encarando um ponto qualquer do céu. A metáfora o mordeu. Talvez Clara fosse apenas uma estrela morta, um corpo dissipado na própria vida. O que doía nele não era mais ela — era a luz retardatária de tudo o que haviam sido. Um mausoléu de luz no cosmos do peito.
Na manhã seguinte, como quem busca confirmação externa para um pensamento íntimo, decidiu visitar o planetário da antiga universidade. Havia ali uma instalação recém-inaugurada: “Mausoléu das Estrelas Mortas”. O cartaz dizia: “Nem tudo o que brilha ainda existe; nem tudo o que existe se deixa ver”.
Na sala escura, dezenas de pequenas luzes pendiam do teto, envoltas em esferas de vidro fosco. No chão, placas com datas e coordenadas. Um texto explicava: cada luz representava uma estrela cuja morte já fora confirmada. O brilho era o fantasma de algo extinto.
Havia um segundo elemento: pequenos fones, ao lado de cada esfera, continham gravações de pessoas narrando o fim de algum amor — casamento, namoro, amizade. A artista escrevera: “A paixão é também fenômeno astronômico: explode, ilumina, se espalha em fragmentos e, por um tempo, segue brilhando na memória depois de consumida”.
Elias aproximou-se de uma das luzes. Colocou o fone. Uma voz feminina dizia:
“Eu tinha certeza de que ele era o homem da minha vida… Hoje percebo que eu estava apaixonada pelo meu próprio sonho...”
Andando pela sala, ele sentiu crescer um respeito silencioso por todos aqueles desconhecidos que falavam do próprio naufrágio.
Parou diante de uma placa vazia. Não havia fone, nem data, apenas a esfera apagada. Um funcionário explicou:
— Essas aqui estão pra quem quiser registrar sua própria estrela. A gente grava o relato, escolhe uma estrela que já morreu e acende a luz no final da exposição.
— E por que acender, se ela já morreu? — perguntou Elias.
— Porque a morte da estrela é um fato — respondeu o rapaz —, mas a luz ainda é um acontecimento. A ideia é aceitar que as duas coisas podem coexistir.
A ideia de contar sua história para um gravador lhe pareceu vulgar e necessária. Lembrou-se das madrugadas em que, sozinho na cozinha, inventava um interlocutor imaginário a quem pudesse explicar por que doía tanto abrir o armário e encontrar uma caneca que ela esquecera.
Sentou-se na pequena cabine. O gravador estava sobre a mesa, ao lado de uma folha com instruções: “Fale sobre o momento em que você percebeu que sua estrela tinha morrido. Não diga nomes. Não economize honestidade.”
Apertou o botão vermelho. Por alguns segundos, só se ouviu sua respiração... Então começou:
— Um dia, eu estava deitado no chão da sala…
Foi contando, sem adornos, como quem narra um caso clínico do próprio coração. Falou da certeza de que aquele amor duraria para sempre, dos votos ditos com fervor, do primeiro sinal de estranhamento, da frase final — clara como bisturi — que encerrou a história. Falou também da pior descoberta: a de que, mesmo depois de tudo acabado, uma parte dele permanecia prostrada diante do altar da lembrança, rezando para uma divindade ausente.
Quando terminou, apertou o botão novamente. O funcionário recolheu o aparelho, agradeceu e pediu que ele escolhesse, num catálogo, a estrela que gostaria de “adotar”. Os nomes eram símbolos. Elias apontou para uma qualquer. O rapaz anotou o código numa tira de papel e prendeu à placa.
Na saída, Elias caminhou pelo campus como quem acaba de confessar-se a um padre de tênis. Sentia-se mais leve e mais nu. Talvez porque, pela primeira vez, tivesse chamado sua paixão pelo nome certo: não milagre, não destino, não maldição. Apenas um acontecimento humano: grandioso, imperfeito, mortal.
À noite, debruçado na janela do apartamento, voltou a olhar o céu. Continuava sabendo que algumas estrelas podiam já não existir. A diferença é que, agora, essa consciência não lhe parecia cruel, e sim libertadora. Compreender que o brilho não garante a existência livrava-o de duas ingenuidades: a de achar que todo amor intenso é eterno; e a de supor que, uma vez morto, o amor não deixa mais nenhuma luz possível.
Pensou que talvez amadurecer não fosse deixar de apaixonar-se, mas aprender a desconfiar do brilho fácil, das empolgações que cegam como faróis. Antes de jurar lealdade a qualquer estrela, era preciso lembrar que se pode estar contemplando o túmulo luminoso de algo que não existe mais.
Havia, porém, um risco oposto: o de nunca mais olhar para cima. De viver o resto da vida com os olhos colados ao chão, medindo danos. Elias percebia em si essa tendência: chamava de prudência o que não passava de covardia sofisticada. Quem vive só para evitar a dor ergue, dentro do peito, um planetário de lâmpadas apagadas.
Ainda assim, não se resignou a esse escuro. Sabia que estava diante de uma escolha: transformar a experiência num dogma pessimista, repetindo que as paixões são enganos, ou aceitar o absurdo de continuar a desejar, mesmo sabendo da finitude.
Não tomou uma decisão solene. Apenas pegou o celular e apagou as conversas antigas que voltava a ler como quem aperta um hematoma para ver se ainda dói. Depois, instalou um aplicativo de astronomia e, pela primeira vez, não o associou à memória de Clara, mas ao desejo de aprender o nome das coisas luminosas.
A paixão que o devastara não desapareceu magicamente. Continuaria, algum tempo, acesa num recanto de biografia, quais lâmpadas tênues tremeluzindo o cômodo escuro de um porão. Mas havia uma diferença: já não era altar, era testemunho. Já não era prisão, era cicatriz.
Dias depois, voltou ao planetário. A sala estava mais cheia. Caminhou até a placa onde, antes, havia apenas um espaço em branco. Agora, a pequena esfera de vidro exibia um brilho modesto.
O funcionário o reconheceu e disse:
— A sua estrela está bonita.
Elias olhou para a luz — a luz que falava de algo que morrera. Sorriu, não de triunfo, mas de uma gratidão estranha.
Pensou que, talvez, a tarefa filosófica mais alta fosse justamente aprender a suportar o peso e a leveza dessas paixões que nos esmagam e, ao mesmo tempo, nos criam. Paixões que nos derrubam no chão gelado e nos obrigam a ver que somos feitos de um material frágil, sim, mas também de uma luz teimosa que insiste em brilhar — ainda que, às vezes, sobre ruínas.
Nem fotografou a esfera. Alguns mausoléus merecem permanecer apenas na memória. Virou-se, atravessou a sala escura e, ao empurrar a porta para a claridade do lado de fora, sentiu um leve espanto.
O mundo estava, como sempre, em estado de risco. Mesmo assim, ele caminhava. E, ao erguer os olhos para o céu que mal se via entre prédios, permitiu-se um luxo perigoso: a possibilidade de um dia — não agora — apaixonar-se de novo. Não pela promessa de eternidade, mas pelo milagre mais humilde e difícil: o de dividir com alguém, por algum tempo, a mesma porção de luz.