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INFLUÊNCIA INTELIGENTE TODO DIA

O direito ao verde

Artigo de Camila Nina Erbetta Nascimento, desembargadora do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, denuncia a derrubada e mutilação sistemática de árvores em Goiânia e cobra responsabilidade institucional e consciência coletiva para preservar o patrimônio ambiental da capital

Uma cidade sem árvores não apenas perde sombra e beleza — ela perde proteção natural contra enchentes e deslizamentos. Em cidades como Juiz de Fora, quase um quarto da população vive em áreas vulneráveis a enchentes e deslizamentos de terra em períodos de chuva intensa, especialmente pela falta de mecanismos naturais de infiltração e retenção de água no solo — funções essenciais das árvores e dos sistemas de vegetação urbana. (Arthur da Paz/O)

Tenho observado com perplexidade e tristeza um movimento que tem se repetido em Goiânia de uns três anos para cá: a derrubada e mutilação, sem qualquer critério, do verde, de nossas árvores, como se fossem descartáveis ou facilmente substituíveis.

Goiânia, outrora conhecida como a cidade mais arborizada, hoje ostenta esse título apenas devido aos seus parques. Todavia, quando andamos pela cidade, vemos, condoídos e com angústia, os esqueletos do que foram árvores frondosas, com copas que proporcionavam sombra, beleza, abrigo para os pássaros e prazer em caminhar. Esbarramos, atordoados, em tocos, espécimes mutilados ou espaços cimentados onde antes floresciam majestosas.

Fatores vários têm influenciado essa verdadeira devastação. Por exemplo: empreendimentos imobiliários; falta de atenção e cuidado da administração pública na manutenção e manejo; podas realizadas por empresas de eletricidade de forma drástica e errada; extirpação permanente de exemplares sem justificativa concreta; não engajamento significativo do Ministério Público em sua função prevista no artigo 129, III, da Constituição Federal (proteção do meio ambiente, incluindo a flora, fauna e recursos naturais); desconhecimento e desinformação por parte da população, que se incomoda com folhas e galhos, como se pudéssemos sobreviver e ter qualidade de vida sem eles.

Relembro aqui alguns fatos noticiados recentemente ou veiculados em mídias sociais para demonstrar quão sério tem sido esse movimento de extirpação e mutilação do nosso patrimônio verde:

  1. Moradores do Parque das Laranjeiras protestaram contra a retirada de inúmeras árvores que seriam suprimidas para criação de estacionamento para bares e lanchonetes (qual o problema em se estacionar mais distante e caminhar um pouco, como em várias cidades que amamos visitar?);
  2. Em volta do Bosque dos Buritis houve retirada de mais de dez espécimes frondosos e cinquentenários, com a afirmativa não demonstrada de que já tinham concluído seu ciclo de vida, em calçada que circunda o parque e sem fiação (e as árvores centenárias preservadas em outros países e cidades?);
  3. 3.500 – sim, três mil e quinhentas – árvores derrubadas às margens do Córrego Botafogo (Marginal Botafogo), área de preservação permanente (APP), o que pode configurar até mesmo crime ambiental;
  4. Duas árvores centenárias na Praça Cívica, que eram tombadas pelo patrimônio histórico, sem conhecimento ou autorização do Iphan;
  5. Árvores que circundavam o Colégio Militar Vasco da Gama, sendo uma, inclusive, centenária;
  6. Árvores no quarteirão do supermercado Assaí, da Av. Portugal;
  7. Árvores que ficavam em frente ao Restaurante Colombus, no Setor Oeste; outras na Rua 7, na Av. A, na T-15, na T-4, na Av. Tocantins, na Rua 6, no Setor Oeste, na Av. E, no Crimeia Leste, em Aparecida de Goiânia, na S-4 com T-62; 13 saudáveis que circundavam o HGG (Hospital Geral de Goiânia); outras em vários logradouros públicos; e agora a notícia da retirada iminente de um mogno, sim, um mogno, plantado em frente ao antigo casarão histórico da Rua 20, no Centro de Goiânia, além de inúmeros outros.

E não posso deixar de citar o último que vi: na Av. D, uma redução abrupta dos meios-fios para priorizarem-se os carros, serrando-se as raízes, que ficaram completamente expostas e danificadas, o que, por certo, resultará na queda e morte dos espécimes. De todos esses tenho as fotos catalogadas.

É triste ver a irreversível degeneração provocada pela poda mutiladora, que apodrece os troncos e desestrutura as copas. Seria tão fácil e tão correto fazer a poda certa, por condução, nos galhos corretos, preservando as juntas, com cuidado e respeito às nossas árvores, e utilizar a pasta de cal (ou calda bordalesa) após, para a eficaz cicatrização, protegendo contra feridas, fungos, bactérias e queimaduras solares.

O que causa mais incredulidade é que essa mutilação dos galhos e das raízes provoca danos por vezes irreversíveis nas árvores: pragas, apodrecimento, desestruturação dos troncos, desestabilização das copas, que acabam por cair nas chuvas ou ventanias, tombando vencidas pela insensibilidade.

E quando os fatos são expostos e as fotos aparecem na imprensa ou nas redes sociais, quando se publicam as cartas que temos visto com frequência em vários jornais e mídias, vem o susto, a indignação. Sempre há uma justificativa completamente frágil a respeito do motivo, nunca comprovado. A partir daí, surgem notícias de ações do Ministério Público, de multas aplicadas ou de orientações a respeito das podas, que jamais são cumpridas, pois, no dia seguinte, numa simples ida ao trabalho de carro ou ao supermercado, vê-se que a destruição impiedosa e implacável continua. Em janeiro, somente Goiânia teve quase uma poda irregular de árvore por dia. É inaceitável.

Infelizmente, nesse momento, o estrago já foi feito. Já houve a derrubada, a destruição, o impacto visual, a mudança na paisagem, o aumento da incidência solar, a impermeabilização do solo, a aceleração da água, as inundações, os bolsões de calor, os ninhos destruídos, o que impede a procriação dos pássaros. Há que se questionar ainda se uma multa ou eventual compensação ambiental é capaz de remediar o terrível dano ambiental provocado, pois a multa não reduz a destruição ocasionada e a compensação, quando feita, perfaz-se em local muito diverso do que sofreu o ato de destruição.

No outro dia, ao passar pelas árvores cujos troncos estão no chão, ou que estão mutiladas, vem a perplexidade, porque, na grande maioria, não há qualquer lesão visível. São troncos frondosos, raízes firmes, copas magníficas que ficaram no chão e na saudade. Como se árvores não pudessem ficar centenárias ou bicentenárias.

Cresci nessa cidade. Fazia caminhada em volta do Clube dos Oficiais e, até poucos anos, não havia aquelas enchentes ali na Rua 87. Começaram depois da intensa impermeabilização do solo em razão do surgimento dos prédios no lugar das casas e seus jardins. Bastava uma legislação consistente, que fosse cumprida, exigindo, em todo empreendimento, parte significativa com solo permeável, jardins e pisos drenantes. Seria o fim daquela inundação.

Da mesma forma, por uns cinco anos, por motivo de trabalho, trafegava na Marginal Botafogo diariamente, indo e vindo, em diversos horários. Nunca a via foi interditada. As enchentes terríveis tiveram início depois dessa derrubada das 3.500 árvores das margens do córrego.

O que surpreende é que se tenha chegado nesse número – 3.500 árvores – e nada tenha sido feito para evitar. A tragédia não foi concluída em um dia. Ou seja, o ato foi ocorrendo paulatinamente e houve omissão completa de todos a quem competia fiscalizar. Até a concretização do dano completo e irreversível. Irreversível, sim, porque a árvore tem um ciclo, não se desenvolve em um, dois ou até mesmo 10 anos.

Ao tempo em que, na maior parte do mundo, há cuidado com a preservação e manejo da flora, tem-se orgulho das árvores antigas e centenárias, das ruas arborizadas, e viajamos para conhecê-las, aqui elas seguem sendo violentamente derrubadas ou mutiladas dia a dia, pela concepção equivocada de que têm um ciclo de vida findável.

Chegou um ponto em que temos que nos conscientizar da importância vital do verde em nossa cidade, por fatores como incidência solar, alagamentos, bolsões de calor, agradabilidade das ruas, reprodução das aves e respeito à vida.

Temos várias avenidas e ruas com canteiros largos no centro, ilhas que organizam o trânsito, espaços perto de repartições públicas. Por que não plantar e encher nossa cidade de verde e de vida, de flores, de pássaros? Não seria difícil conseguir engajamento da sociedade, pois é uma pauta importante, simpática e imprescindível.

É nosso dever fazer isso em respeito às novas gerações. Nossos avós se preocuparam conosco e, por esse motivo, temos que ter seriedade a respeito desse tema premente – moradores, Prefeitura, Amma (Agência Municipal do Meio Ambiente), Comurg (Companhia de Urbanização de Goiânia), empresas de eletricidade, Estado, Ministério Público, Poder Executivo, Legislativo, Judiciário e segmentos da sociedade. É nossa obrigação fazer leis que respeitem o crescimento urbano, cumpri-las, executando ações concretas que protejam nosso verde, nosso meio ambiente, que possibilitem a permeabilização do solo, as calçadas largas, quiçá escolhendo algumas ruas para não permissão de trânsito, tornando nossa cidade mais agradável, viva, florida e com qualidade real de vida. É obrigação constitucional do Ministério Público envolver-se e não deixar que a cidade seja agredida como está sendo, diariamente, com essas podas e derrubadas sequenciais inexplicadas.

É hora de entender que cada árvore extirpada ou mutilada é um pedaço da alma de Goiânia e dos goianienses que se vai. O progresso que mutila a natureza é, na verdade, um retrocesso que nos condena a uma cidade sem vida, sem sombra, sem verde, sem alegria e sem futuro.

E basta a boa vontade dos órgãos envolvidos para que o progresso e o verde possam caminhar juntos.


Camila Nina Erbetta Nascimento é desembargadora do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás.


Registros observados e feitos pela própria autora ao longo de 2025 até hoje:

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