A palavra, quando moldada na têmpera da alma e disparada pela boca da verdade, não pede licença para existir. Ela é um projétil de luz que estraçalha a frouxura dos medíocres e incendeia o silêncio covarde daqueles que se cumpliciam com a injustiça do esquecimento. Em Goiás, terra onde o suor do povo muitas vezes se mistura ao barro da indiferença, erguem-se colunas de resistência que sustentam o nosso céu cultural. Falo de Mauri Fernandes de Castro — homem que não apenas interpreta a vida, mas a derrama, com a potência de quem sabe que a arte é a única arma capaz de vencer a ferrugem do tempo.
Mauri, esse operário do espírito nascido sob o sol de Pires do Rio, cedo compreendeu que o destino de um artista não é o aplauso fácil das galerias perfumadas, mas o confronto direto com o mistério do ser. São cinco décadas de uma caminhada pavimentada por convicções inegociáveis. Cinquenta anos em que o palco deixou de ser um tablado de madeira para se tornar uma trincheira. Enquanto a mediocridade se escala em posições imerecidas, Mauri ocupou o seu lugar por direito de conquista e suor, alcançando a Cadeira nº 7 da Academia Goiana de Letras. Mas não se enganem: a imortalidade para ele não é o mármore frio das estátuas, é a vibração quente da voz que se recusa a calar.
“Escrevo porque derramo”, proclama ele em sua Sonata em mim Menor. Há nessa frase uma chave ontológica para entender o fenômeno Mauri de Castro. Sua arte não é fruto de um cálculo de conveniência, mas de uma urgência biológica, um transbordamento que não cabe nos limites da pele. Ele é o ator que se despe de si para vestir a humanidade, o escritor que sangra tinta para que o leitor possa enxergar a própria alma no espelho das letras.
A trajetória de Mauri é um manifesto contra a “ontologia do envelhecimento” que o mundo moderno tenta esconder sob o tapete da utilidade. No monólogo Sem Mais Porém, ele não apenas encarna um homem de 95 anos; ele nos esfrega na cara a vitalidade da quarta idade, a lucidez que só a longevidade permite e a beleza trágica de quem já viu o mundo girar mil vezes. Ao levar o teatro para dentro das casas, na ocupação radical dos espaços privados, Mauri quebra a barreira entre a arte e a vida. Ele invade a domesticidade para lembrar aos homens que o teatro é a manutenção do ser humano, um instrumento de inserção social que não pode ser confinado a templos de elite.
Ao lado de companheiros de luta como Jefferson Lobato e sob a batuta de diretores como Humberto Pedrancini, Mauri de Castro transformou o Martim Cererê e a Companhia Abaporu em centros de irradiação de uma estética que é, ao mesmo tempo, goiana e universal. Da Sinfonia do Caos à marginalidade poética do andarilho, sua obra dialoga com o que há de mais profundo no drama humano, atravessando fronteiras até Bogotá e retornando sempre às raízes do Centro-Oeste com a força de um furacão.
É preciso que a juventude, tantas vezes tonta pelos flashes passageiros do digital, olhe para Mauri de Castro. Que aprendam com esse mestre que a arte exige coragem para o “derramamento”. Ele não é um ator de conveniência, mas um mestre de oposição, alguém que compreende que o verdadeiro papel do artista é iluminar o que o mundo precisa ver, sobretudo o que o poder quer esconder.
Neste fevereiro de 2026, quando o Teatro Carlos Moreira reviveu e a Academia se curva à sua presença, celebramos não apenas um currículo, mas uma existência que é, em si, um ato editorial de bravura. Mauri de Castro é a prova viva de que a palavra, quando bem temperada na verdade, possui um quintilhão de vezes mais potência que a força de mil bombas atômicas. Ele é o nosso farol na tempestade da mediocridade que apaga a agenda cultural brasileira.
Que o seu derramamento continue a inundar Goiás, pois enquanto houver um Mauri em cena, a humanidade ainda terá um espelho onde se reconhecer.
