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INFLUÊNCIA INTELIGENTE TODO DIA

O cérebro, maestro e improvisador

O cérebro não capta o mundo de forma passiva: reconstrói e interpreta fragmentos sensoriais, preenche lacunas e fabrica a sensação contínua de “eu”. Entender essa improvisação explica por que percebemos coerência onde há apenas uma montagem dinâmica e fluida.

Borda de piscina branca com degraus metálicos e reflexo de nuvens sobre água azul intensa
Degraus de piscina em primeiro plano; nuvens refletem‑se numa superfície azul, criando efeito surreal e contemplativo. Foto: Paul Viollet

É um paradoxo! Todos temos um cérebro, sabemos onde ele está, como é, o investigamos milimetricamente por todos os lados… e, ainda assim, ele continua insuspeito. Aquele que descrevemos, com um tom por vezes pomposo, como a estrutura mais complexa que conhecemos — mapeada há anos a custo de bilhões de dólares, desejada para imitar, simular e decifrar — não hesita em nos provocar. Claro que avançamos em sua compreensão, mas quanto mais entendemos, mais ele surpreende. E mais sentimos o caminho que falta percorrer. Esse caminho é um labirinto.

O cérebro, sem o qual não poderíamos nos gabar de raciocinar, escapa quase por completo à racionalidade. Esperaríamos encontrá‑lo erguido segundo um modelo de clareza e simetria; encontramos, antes, um emaranhado de subpartes amassadas, comprimidas, recaracoleadas, muitas vezes macias, em que cada elemento participa de múltiplas funções perceptivas, cognitivas e emocionais. Esperaríamos cabos neuronais bem alinhados, como em um quadro elétrico conforme a norma; e, no entanto, há ligações em todas as direções, de vários tamanhos, que se repontam e se reconfiguram a cada segundo, como as escadas de Hogwarts, a escola de bruxaria em Harry Potter, que não cessam de mudar de eixo.

Um demiurgo entre as orelhas

Imaginamos que nosso cérebro nos mostre o que é, como quando olhamos uma paisagem pela janela. Não é nada disso: ele percebe o ambiente por fragmentos, seleciona o que considera pertinente, antecipa o que deveríamos sentir e nos entrega uma reconstituição que chamamos de realidade. É um prodigioso calculador de probabilidades, que nos impede de perder o chão diante da complexidade do real.

Olhe bem à sua frente. Você vê a mancha? A mancha preta? No entanto, há uma bem no meio do seu campo de visão! Em cada um dos seus olhos, uma pequena zona da retina, exatamente de onde parte o nervo óptico, não contém receptores fotoelétricos e não recebe nem envia informação. Literalmente, existe um buraco permanente de frente para você. Mas seu cérebro reconstitui discretamente o que falta, por puro automatismo. Ele prolonga uma linha, estica uma cor, completa uma textura, como se seguisse uma evidência. Assim, você percebe uma cena contínua embora sempre falte um pedaço. É uma extrapolação permanente.

Com uma calma confiante e uma habilidade infalível, o cérebro compensa para assegurar a coerência e a constância do seu ambiente, seja qual for. Sua visão é, portanto, menos um reflexo do mundo do que uma reconstituição e uma interpretação cuidadosas. Aliás, neste exato instante em que lê estas linhas, seu cérebro traduz estímulos luminosos e os recompõe numa avalanche de pequenos sinais elétricos que correm da retina até o córtex visual. Ali, entrelaçados de neurônios extraem contornos, contrastes, orientações... Em suma, transformam um emaranhado de fótons em formas coerentes. Depois, outras regiões entram em ação, reconhecem letras, palavras, construções familiares e enviam tudo ao córtex temporal para que seja traduzido em sentido. E este, impassível, convoca suas lembranças, sua cultura, suas expectativas do momento, monta os pedaços, supõe o que você deveria ou gostaria de entender... e pronto: você tem a impressão de ler com fluidez, enquanto nos bastidores uma equipe de pequenos operários neuronais, ofegantes, improvisa uma significação em tempo real, torcendo para que ninguém perceba as emendas.

“Eu é outro?”

E o

E quando você pensa “eu”, aí é que começa o alvoroço: o córtex pré‑frontal medial, assumindo com desenvoltura o papel de narrador principal, vai buscar memórias no hipocampo, uma coerência afetiva no sistema límbico, um pouco de imagem corporal no córtex parietal e mistura tudo para produzir uma espécie de minibiografia instantânea: “Pronto! isso sou eu.” Só que esse “eu” é atualizado continuamente, remendado, retocado, cosido. Uma identidade que se fabrica em fluxo contínuo, como se seus neurônios improvisassem uma peça de teatro sem nunca repetir os ensaios. E você, imperturbável, escuta seu cérebro anunciando com firmeza que sabe exatamente quem você é... quando, no fundo, ninguém tem tanta certeza assim.

Seu cérebro liga e encolhe uma multiplicidade de percepções aproximadas, certezas frágeis e memórias reescritas e lhe entrega uma identidade pessoal pronta para uso, uma história que faz sentido, uma ilusão de controle. É roteirista, mágico, blefador, prestidigitador, ao mesmo tempo um virtuose da adaptação e um pragmático empenhado. Esse ápice da evolução cria a ilusão que nos serve de realidade.

Publicado originalmente na revista Sciences Humaines. Autor: Jean‑François Marmion. Publicado em 05 de abril de 2026.

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