Recentemente, ao fundamentar uma palestra sobre a recusa em abraçar o amor e suas consequências, revisitei, em formato de audiobook, a obra Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski. A história do “Sonhador” de São Petersburgo apresenta-se como um espelho da solidão autoimposta — aquela que escolhe o refúgio seguro da imaginação em detrimento da incerteza vital do afeto real.
Ambientada no período de luz quase irreal das noites claras do norte russo, a novela constrói um cenário limiar, suspenso entre o sonho e a vigília. É nesse espaço ambíguo que o protagonista, habituado a viver nos próprios devaneios, encontra em Nástienka a possibilidade concreta de um despertar e de uma conexão genuína com o outro.
O dilema do Sonhador encontra raízes profundas tanto na filosofia quanto na psicologia. Aristóteles já definia o ser humano como um ser de realização relacional, cuja plenitude só se alcança na vida compartilhada. Mais tarde, pensadores como Jean-Paul Sartre, ainda que enfatizando a angústia da liberdade individual, reconheceram que a existência se define na interação inevitável com o Outro. O personagem dostoievskiano encarna, assim, uma forma de covardia moderna: o medo de romper a segurança do isolamento para enfrentar a fragilidade inerente ao vínculo humano.
A lição final de Noites Brancas é, portanto, agridoce, mas profundamente humana. Embora o Sonhador perca Nástienka para a realidade concreta, ele experimenta um breve “minuto inteiro de deleite”. Essa vivência, ainda que fugaz, confirma o valor inestimável da experiência real. Dostoiévski sugere que a vida plena não reside na ausência de dor, mas na coragem de amar. Um único instante de felicidade autêntica e conexão verdadeira pode ser suficiente para santificar toda uma existência.

