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Noites Brancas: a eterna melancolia de um sonhador em São Petersburgo

Escritor e juiz de Direito Abílio Wolney Aires Neto analisa a novela Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, como uma reflexão filosófica e psicológica sobre a recusa do amor, o medo da vulnerabilidade e o preço existencial pago por quem prefere o abrigo da fantasia à experiência real do afeto

Fiódor Dostoiévski surge concentrado no gesto paciente da escrita à mão — pena, tinteiro e papel como extensões de um pensamento atormentado. (Ilustração digital de caráter editorial, não é uma fotografia real. Arthur da Paz & ChatGPT)

Recentemente, ao fundamentar uma palestra sobre a recusa em abraçar o amor e suas consequências, revisitei, em formato de audiobook, a obra Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski. A história do “Sonhador” de São Petersburgo apresenta-se como um espelho da solidão autoimposta — aquela que escolhe o refúgio seguro da imaginação em detrimento da incerteza vital do afeto real.

Ambientada no período de luz quase irreal das noites claras do norte russo, a novela constrói um cenário limiar, suspenso entre o sonho e a vigília. É nesse espaço ambíguo que o protagonista, habituado a viver nos próprios devaneios, encontra em Nástienka a possibilidade concreta de um despertar e de uma conexão genuína com o outro.

Khalil Gibran

O drama central, contudo, não está na ausência de amor, mas na incapacidade do Sonhador de se despir de suas idealizações e aceitar a vulnerabilidade que o amor exige. Sua hesitação em se expor ao risco da vida real ecoa a sabedoria poética de Khalil Gibran (ilustração). Em O Profeta, o autor descreve o amor não como conforto, mas como uma força que exige entrega radical, capaz de “vos debulhar até vos deixar nus”. Amar, nesse sentido, implica dor, transformação e renascimento. Negar essa força é negar a própria possibilidade de plenitude humana.

O dilema do Sonhador encontra raízes profundas tanto na filosofia quanto na psicologia. Aristóteles já definia o ser humano como um ser de realização relacional, cuja plenitude só se alcança na vida compartilhada. Mais tarde, pensadores como Jean-Paul Sartre, ainda que enfatizando a angústia da liberdade individual, reconheceram que a existência se define na interação inevitável com o Outro. O personagem dostoievskiano encarna, assim, uma forma de covardia moderna: o medo de romper a segurança do isolamento para enfrentar a fragilidade inerente ao vínculo humano.

A lição final de Noites Brancas é, portanto, agridoce, mas profundamente humana. Embora o Sonhador perca Nástienka para a realidade concreta, ele experimenta um breve “minuto inteiro de deleite”. Essa vivência, ainda que fugaz, confirma o valor inestimável da experiência real. Dostoiévski sugere que a vida plena não reside na ausência de dor, mas na coragem de amar. Um único instante de felicidade autêntica e conexão verdadeira pode ser suficiente para santificar toda uma existência.

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Sample do Áudio Livro de Noites Brancas - Dostoiévski
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Noites brancas
Descubra e escute este título em Audible.com.br. Livro mais romântico da obra de Dostoiévski, Noites brancas traz como tema central o encontro entre uma jovem desiludida e um sonhador, aquele que narra os eventos ocorridos ao longo de poucas noites, durante um período muito especial
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