Ir direto para o conteúdo
INFLUÊNCIA INTELIGENTE TODO DIA

Na corrida do ouro, venda pás

Uma das mais importantes corridas do segundo quartil deste século será a corrida da IA. Mesmo para o observador cético, é evidente que a IA está alterando a própria mecânica dos mercados financeiros.

A metáfora, exaustivamente repetida em alguns ambientes de negócios, descreve uma estratégia de investimento focada no fornecimento da infraestrutura necessária para uma indústria em expansão, em vez de apostar no produto final incerto. Foi o que tornou Sam Brannan o primeiro milionário da Califórnia.

No mercado financeiro, essa estratégia é conhecida como "Pick-and-shovel". Ela orienta o investidor a buscar empresas que controlam componentes essenciais, possuem receita recorrente baseada na utilidade e estão posicionadas em pontos de estrangulamento da cadeia de suprimentos.

Uma das mais importantes corridas do segundo quartil deste século será a corrida da IA. Mesmo para o observador cético, é evidente que a IA está alterando a própria mecânica dos mercados financeiros.

O domínio das ações de IA atingiu um patamar histórico. As empresas ligadas à tecnologia representam aproximadamente 44% da capitalização total do S&P 500, um salto considerável frente aos 26% de 2022. Esse movimento impulsionou as métricas de valuation para níveis que não eram vistos desde a bolha pontocom há 25 anos. Enquanto o S&P 500 em geral negocia a um múltiplo de 19x, as ações ligadas à IA operam com P/L futuro de 31x.

Paralelamente, o boom da IA está sendo sustentado por um ciclo de investimento sem precedentes. Os data centers equipados para IA exigirão US$ 5,2 trilhões em despesas de capital até 2030, segundo a McKinsey. Esse movimento representa uma mudança fundamental de modelos de negócio asset-light (como o software tradicional de até poucos anos atrás) para modelos de uso intensivo de capital (como energia).

Mesmo com os megadeals em IA no ano passado – a IA tomou 53% dos valores investidos por VCs em 2025 – e um forte senso de otimismo, ainda há quem pondere que esses números podem não capturar totalmente o alto crescimento de lucros projetado, caso a promessa de produtividade da IA se materialize nos balanços corporativos.

Os tecnopessimistas, por sua vez, rebatem que apenas 10% das empresas americanas utilizam IA com sucesso para produzir bens e serviços, segundo o Census Bureau. Ganhos de produtividade são relatados, mas esses frequentemente ainda não se traduziram em melhoria nos demonstrativos de resultados. Para justificar os níveis atuais de investimento e valuations, a receita de IA precisará crescer em uma ordem de magnitude — algo que historicamente leva tempo para se concretizar.

Do ponto de vista dos investidores institucionais, um recente estudo da NYU indica que a IA muda a natureza do que está sendo precificado, privilegiando intangíveis e opções de crescimento; isso aumenta a incerteza sobre o valor de longo prazo do negócio. Soma-se a isso que a interconexão dos mercados e a velocidade da informação podem amplificar o impacto de choques. É só lembrar o impacto no mercado do lançamento do ChatGPT (2022) ou do Deepseek (2025). 

Em 2026, a discussão já deixou de ser sobre se a IA gera valor (ao menos, não no longo prazo). Ainda assim, um importante risco associado à IA este ano é se ela estará à altura das expectativas de curto prazo dos investidores. Por isso, aliás, tivemos uma não desprezível correção de mercado na primeira semana de fevereiro, logo após os planos de investimento de empresas como Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft, Nvidia e Oracle, que, juntas, perderam mais de US$ 1,3 trilhão de valuation nesse curto período. 

Para o investidor médio, a estratégia de Pick and Shovel continua relevante; é, afinal, mais fácil acreditar no crescimento de um setor inteiro que adivinhar qual empresa específica será a vencedora final. Portanto, até o longo prazo chegar, se preferir uma opção mais segura, venda pás.

PUBLICIDADE

Comentários

Mais recente