A missa de sétimo dia em memória dos netos do prefeito de Itumbiara, mortos pelo próprio pai, ocorreu na última semana na Paróquia Nossa Senhora da Abadia, reunindo familiares, amigos e moradores em um ato marcado por profunda comoção. A tragédia, que abalou a cidade goiana, trouxe inúmeros questionamentos sobre os impactos da violência intrafamiliar e a necessidade de maior atenção às políticas de saúde mental.
Segundo fontes locais, a cerimônia começou por volta das 19h e foi conduzida pelo padre Francisco de Assis, que, em sua homilia, destacou a importância de encontrar amparo espiritual em tempos de dor coletiva. “Não podemos compreender plenamente os desígnios divinos, mas podemos nos unir em solidariedade e oração para confortar uns aos outros,” afirmou o religioso. Durante os momentos de preces e cânticos, a igreja estava lotada por fiéis, muitos dos quais também expressaram indignação e tristeza com o ocorrido.
O trágico episódio, que ceifou as vidas das duas crianças, de 7 e 9 anos, aconteceu há pouco mais de uma semana e segue em investigação pelas autoridades locais. Segundo informações da Polícia Civil, o suspeito, pai das vítimas e genro do prefeito de Itumbiara, cometeu o crime em sua própria residência antes de tirar a própria vida. O caso é entendido preliminarmente como um homicídio seguido de suicídio, motivado por disputas familiares e questões psicológicas ainda não esclarecidas.
Itumbiara, conhecida por sua tranquilidade e hospitalidade, encontra-se profundamente abalada com o episódio. O prefeito, que optou por não se manifestar publicamente no evento, tem recebido apoio de lideranças políticas e de toda a comunidade local. Em nota oficial divulgada pela assessoria de comunicação da Prefeitura, a tragédia foi tratada como um “momento de luto coletivo” que reforça a urgência de debater e implementar estratégias de prevenção à violência doméstica. A nota também agradeceu as manifestações de solidariedade vindas de diversas partes do estado.
Especialistas da área de psicologia alertam para o impacto de casos como este na saúde mental de familiares sobreviventes e da comunidade em geral. Cláudia Mendonça, psicóloga e pesquisadora da Universidade Federal de Goiás (UFG), ressalta: “A violência intrafamiliar é um fenômeno que, infelizmente, ocorre em todas as camadas sociais. Para enfrentá-la, é fundamental investir em redes de apoio que promovam saúde mental, especialmente em ambientes vulneráveis.” Mendonça também afirmou que a repercussão pública pode ajudar a ampliar o debate sobre temas que muitas vezes são tratados como tabus.
A missa em homenagem às crianças contou com gestos simbólicos que emocionaram os presentes. Durante o ato litúrgico, dois balões brancos foram soltos ao céu, representando a memória dos pequenos. Além disso, uma faixa foi colocada na entrada da igreja com a frase: “Que o amor prevaleça sobre a dor.” Diversos moradores relataram sentir não apenas tristeza, mas também uma sensação de união e empatia diante do sofrimento compartilhado.
A tragédia reacendeu o debate sobre o papel das administrações públicas na prevenção de casos de violência familiar. Em Goiás, iniciativas de apoio psicológico e combate à violência doméstica têm ganhado força nos últimos anos, mas ainda enfrentam desafios relacionados à infraestrutura e à abrangência das políticas públicas. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a violência intrafamiliar apresentou aumento durante a pandemia de Covid-19, acentuando fragilidades que já existiam.
A comoção em Itumbiara é um reflexo da sensibilidade de comunidades pequenas, onde os laços interpessoais são mais fortes e os impactos de tragédias locais se tornam profundamente sentidos por todos. Além dos aspectos emocionais, casos como este levantam reflexões sobre educação e assistência social como pilares para evitar futuros episódios de violência. As autoridades locais já anunciaram reuniões para fortalecer programas escolares de conscientização e inclusão de psicólogos em unidades de ensino.
Além da missa, outras homenagens foram feitas ao longo da semana, incluindo uma caminhada silenciosa organizada por grupos comunitários e ONGs do município, com o objetivo de chamar a atenção para a importância da denúncia e prevenção de situações de risco. “Queremos que essas vidas perdidas sirvam como um chamado para que todos fiquem atentos aos sinais de violência que por vezes passam despercebidos,” declarou Patrícia Araújo, líder de uma das organizações envolvidas.
O encerramento da missa foi acompanhado pelo tradicional toque do sino da igreja, que reverberou pela cidade, simbolizando o clamor contra a violência e o desejo de paz. Enquanto Itumbiara segue em seu processo de luto, os moradores esperam que este episódio impulsione mudanças significativas em políticas de saúde mental e proteção familiar.
O caso continua sendo investigado pela Polícia Civil, que espera concluir o inquérito nas próximas semanas. As autoridades também reforçam o papel da sociedade na identificação de possíveis casos de violência, destacando a importância de denunciar às instituições competentes para evitar tragédias como esta.
Em tempos de dor, a união demonstrada por Itumbiara é um testemunho da resiliência humana e da capacidade de transformar sofrimento em um chamado para a mudança. Que as vidas perdidas encontrem paz, e que a comunidade encontre forças para seguir adiante.