Ir direto para o conteúdo
INFLUÊNCIA INTELIGENTE TODO DIA

Ministra associa crescimento dos feminicídios em Goiás à misoginia estrutural

Durante evento em Goiânia, titular do Ministério das Mulheres destacou que o avanço de casos de feminicídio no estado reflete problemas históricos de desigualdade de gênero. A ministra também reforçou a urgência na conclusão da Casa da Mulher Brasileira na capital goiana

Ministra das Mulheres, Cida Gonçalves
Reprodução

Durante sua passagem por Goiânia nesta semana, a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, fez um alerta contundente sobre o preocupante aumento dos casos de feminicídio em Goiás. Em entrevista concedida durante uma agenda oficial na capital, a ministra afirmou que os dados alarmantes refletem um quadro de violência de gênero profundamente enraizado na sociedade brasileira, fruto de uma misoginia estrutural que ainda persiste. “Não estamos falando de casos isolados, mas de um sistema que banaliza a violência contra as mulheres e perpetua desigualdades históricas”, afirmou.

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de Goiás (SSP-GO), o estado registrou nos últimos meses um aumento expressivo nos casos de feminicídio, o que desperta preocupação tanto a nível regional quanto nacional. Entre janeiro e setembro deste ano, os números já superaram os índices do mesmo período nos últimos dois anos, demonstrando que, apesar dos esforços de algumas políticas públicas, a violência de gênero permanece uma grave questão social no estado.

Fatores estruturais e consequências sociais

A afirmação da ministra sobre a misoginia estrutural como causa principal deste aumento de casos lança luz sobre as raízes profundas do problema. Segundo especialistas em sociologia e segurança pública, misoginia estrutural refere-se às normas e práticas culturais que legitimam e perpetuam o controle e a violência contra as mulheres. Estes padrões, apesar de frequentemente invisibilizados, sustentam um cenário que considera aceitável ou inevitável a supremacia masculina e o domínio sobre o corpo e a autonomia feminina.

Para Cida Gonçalves, o enfrentamento aos feminicídios exige ações que vão muito além da repressão policial. Ela destacou a necessidade de políticas públicas perenes baseadas em três frentes prioritárias: a prevenção da violência, o acolhimento e cuidado às vítimas, e a responsabilização efetiva dos agressores. “Precisamos romper o ciclo de violência e isso passa por combater a raiz do problema, que é cultural, educacional e institucional”, defendeu.

A ministra também reforçou críticas à morosidade na conclusão das obras da Casa da Mulher Brasileira em Goiânia, que estão estagnadas desde 2019. O projeto, que busca centralizar o atendimento e o acolhimento às vítimas de violência, é visto como um instrumento essencial para amparar mulheres em situação de vulnerabilidade. “Sem estruturas como essa, continuamos a exigir que as vítimas gritem por ajuda em um sistema que muitas vezes não as ouve”, pontuou.

Um problema nacional com raízes locais

Embora a escalada de feminicídios seja um problema nacional, a situação de Goiás apresenta especificidades que ajudam a entender a dimensão local da crise. O estado, historicamente marcado por dinâmicas de desigualdade social e violência no âmbito privado, tem se mostrado vulnerável à ausência de políticas públicas integradas. Para a socióloga Marina Tavares, pesquisadora de gênero na Universidade Federal de Goiás (UFG), “há uma relação entre o contexto histórico e cultural do estado, onde a manutenção de papéis tradicionais de gênero ainda é reforçada, e a dificuldade em romper o ciclo de violência”.

Outro fator agravante, segundo especialistas, está na dificuldade em ampliar o acesso a redes de proteção eficazes. A paralisação da Casa da Mulher Brasileira em Goiânia, por exemplo, é reflexo de uma gestão que, até então, falhou em priorizar a luta contra a violência de gênero. Iniciativas semelhantes na capital e em cidades do entorno poderiam ter impacto direto na redução das estatísticas, mas enfrentam desafios relacionados a financiamento, capacitação de pessoal e articulação interinstitucional.

A advogada e ativista Jéssica Martins, membro da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), afirma que “uma estrutura como a Casa da Mulher Brasileira não é apenas um prédio. É um espaço de esperança para mulheres que enfrentam situações de violência extrema e que, sem ajuda, podem acabar figurando nas estatísticas de feminicídio”.

Caminhos e desafios frente à crise

A fala da ministra também reacende debates sobre o papel do governo federal e estadual no enfrentamento à violência de gênero. Desde o início de sua gestão, Cida Gonçalves tem reiterado o compromisso do Ministério das Mulheres em reestruturar políticas de combate ao feminicídio, dialogando diretamente com estados e municípios para fortalecer a rede de proteção. Propostas como o monitoramento eletrônico de agressores e a ampliação de delegacias especializadas estão entre as prioridades.

Entretanto, esses esforços ainda esbarram em desafios estruturais, como a falta de financiamento contínuo e a necessidade de maior sensibilização da sociedade. Organizações que atuam na área defendem que, além de ações emergenciais como a construção de abrigos e delegacias, é essencial investir em educação como forma de prevenir futuras gerações da reprodução de padrões violentos. “A escola precisa ser um espaço de desconstrução de estereótipos de gênero. Não podemos mais esperar que apenas as leis resolvam uma questão tão profunda”, ressalta Luciana Pereira, professora e pesquisadora de políticas públicas.

O governo estadual, por sua vez, enfrenta um escrutínio crescente pela falta de agilidade em responder aos números alarmantes. Em nota oficial, a SSP-GO destacou que programas de conscientização e treinamentos de profissionais de segurança estão em andamento, mas reconhece que o reforço de políticas preventivas e restritivas é urgente.

Conclusão: um problema coletivo

O aumento nos casos de feminicídio em Goiás é um reflexo de uma ferida social ainda amplamente aberta no Brasil. Apesar de medidas importantes nos últimos anos, como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, é evidente que a resposta ao problema requer mais recursos, mais articulação e um enfrentamento constante e multifacetado.

Como bem pontuado pela ministra Cida Gonçalves, a solução não pode surgir de um único setor ou ente federativo, mas sim de uma mobilização coletiva que integre governos, sociedade civil, setor privado e a academia. Somente com medidas concretas e um compromisso contínuo será possível imaginar um futuro onde a igualdade de gênero seja uma realidade e a violência contra a mulher, uma memória superada.

PUBLICIDADE

Comentários

Mais recente

Eleitor Não é Bobo

Eleitor Não é Bobo

Em artigo, Gaudêncio Torquato, escritor e professor titular da Universidade de São Paulo, afirma que o eleitor brasileiro está mais atento: identifica padrões de impunidade e desconfia de discursos que tratam corrupção e escândalos como “narrativa”

Membros Livre
Como detectar um “Not”

Como detectar um “Not”

Em coluna bem-humorada, Philipe Moura, empresário, satiriza a “LinkedAI”, uma rede social só de máquinas, e descreve a invasão de humanos disfarçados — os “Nots” — que contaminam o feed com “gratiluz”, clichês corporativos e emoção não compilável.

Membros Livre