Ainda que apartados por quase um século e operando em campos distintos da saúde mental – Jean-Martin Charcot na neurologia e Wilfred Bion na psicanálise –, as obras desses autores constituem diálogos admiráveis sobre os alicerces do exame da mente... A principal afinidade habita na revolução metodológica: ambos abdicaram de abordagens estritamente teóricas ou moralizantes em benefício da observação clínica detalhista e metódica... Charcot, em Salpêtrière, transformou a “desordem” manifesta da histeria em objeto de estudo empírico, inventariando seus sintomas por meio da minuciosa observação de pacientes. De similar forma, Bion, abandonando as certezas teóricas precedentes, defendeu que o psicanalista deveria adentrar, em cada sessão, "sem memória e desejo", pautando-se apenas na observação pura dos fatos emocionais que se desenrolam ao longo do processo.
Outro ponto de convergência é a confiança na existência de certa lógica subjacente aos fenômenos aparentemente ilógicos. Para Charcot, os acometimentos histéricos, com suas convulsões, paralisias e contraturas, não figuram qual impostura ou loucura meramente desestruturada, mas seguem um modelo identificável e etapas características. Ele via a histeria como "doença funcional", com arcabouço próprio. Bion levou tal princípio para o cerne do funcionamento psíquico, indicando que, mesmo os pensamentos mais selvagens e as experiências emocionais mais confusas têm uma configuração latente que “procura” ser abrangida e “transformada” em pensamento. O que pareceria contrassenso, tanto na sintomatologia histérica quanto no delírio psicótico, se apresenta, para os dois, qual código a ser observado e cuidadosamente decifrado.
Ambos pensadores, além disso, abarcaram a seriedade capital de um "container" para o processamento experencial. Charcot, a seu modo, ministrava um container institucional e visual à histeria. Suas aulas-espetáculo e seus iconográficos registros fotográficos ofereciam um contorno e um ambiente social a uma condição até então totalmente marginalizada. Bion desenvolveu especificamente tal conceito de forma central em sua teoria, delineando a função de "rêverie" da mãe, que recebe as projeções aflitivas do bebê, as “metaboliza” e as restitui em contorno tolerável. O analista, nessa perspectiva, age como container para os estilhaços psíquicos não pensados do paciente, transformando elementos beta, experiências sensoriais disformes e cruas, em elementos alfa; fatores aptos a serem sonhados e/ou pensados.
Ademais, Charcot e Bion compartilhavam um foco intenso na importância da relação terapêutica como instrumento de averiguação. As demonstrações clínicas de Charcot, apesar de seus feitios limitados, colocavam o intercâmbio entre o médico e o paciente no meio do palco. Era através daquele vínculo que os sintomas despontavam e podiam ser avaliados. Bion abrangeu a relação psicanalista paciente ao status de utensílio primeiro da psicanálise. Para ele, a mente do analista é o basal recurso para apreender o universo interior do paciente, sendo que a dinâmica transferência-contratransferência é a arena na qual os teores mais profundos e desconhecidos se desvelam.
Portanto, as heranças que Charcot e Bion nos legaram são afuniladas por suas características seminais e pioneiras. Eles não abonaram normas fechadas de informação, mas sim processos e intuições que acenderam caminhos para gerações futuras de estudiosos e, é claro, clínicos. Charcot trouxe o germe que prosperaria na psicanálise freudiana, ao comprovar o poder da psique sobre o somático. Bion, por seu turno, ampliou radicalmente os confins da psicanálise para desenvolver o estudo dos processos de pensamento e das psicoses. A analogia fundamental, logo, é a coragem de vislumbrar o precipício do sofrimento humano sem pré-conceitos, perscrutando ali não a monstruosidade, mas as funções e as complexidades que podem levar à percepção científico-clínica e, eventualmente... à transformação...
Ligações sutis: as continuidades entre Charcot e Bion
O psicanalista Edson Manzan Corsi trabalha as contiguidades empírico-clínicas entre a medicina, de Jean-Martin Charcot, e a psicanálise, de Wilfred Bion.
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