Sumário
Os protestos que hoje sacodem o Irã não são um episódio isolado nem um reflexo momentâneo da crise econômica. Para Sam Cyrous — persa na diáspora, doutor em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília e especialista em Cultura de Paz —, o país atravessa um processo profundo de transformação histórica, iniciado simbolicamente no Grande Bazar, espaço central da Revolução de 1979.
Nesta entrevista ao Liras da Liberdade, concedida dia 11 de janeiro de 2026, Cyrous analisa como inflação recorde, sanções prolongadas, repressão sistemática e desigualdades estruturais convergiram para uma mobilização inédita, que reúne mulheres e homens, persas e curdos, muçulmanos e minorias religiosas, num movimento que já não busca reformas superficiais, mas a redefinição das próprias regras que sustentam o regime iraniano.
1. Arthur da Paz, jornalista, cientista da computação, fundador e editor-geral do Liras da Liberdade
2. Carlo Patti, professor adjunto de História das Relações Internacionais no Departamento de Ciências Politicas, Jurídicas e Estudos Internacionais da Universidade de Padua (Itália)
3. Henrique Galhano Balieiro, psicólogo com especialização em Direitos Humanos e Cidadania no Contexto das Políticas Públicas e mestre em Psicologia pela PUC Minas (bolsista Capes/CNPQ). Atualmente é professor coordenador da especialização lato-sensu em Psicologia e Migração (PUC Minas) e doutorando bolsista FAPEMIG no PPGPSI PUC Minas. Além disso, é fundador do Coletivo Psimigra e já foi conselheiro no XVII Plenário do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais.
Sam Cyrous é persa na diáspora, nascido no Uruguai e radicado no Brasil. Doutor em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília, mestre em Psicoterapia Relacional e especialista em Cultura de Paz, foi presidente da Associação Brasileira de Logoterapia e Análise Existencial e integra o Conselho Deliberativo da Escola das Nações, em Brasília.
Pergunta 1 – Contexto

- Liras da Liberdade – Qual é o contexto atual dos protestos no Irã, incluindo as causas econômicas, políticas, religiosas e sociais que impulsionam a revolta, e como a situação pode ser descrita para alguém que não a conhece diretamente?
Sam Cyrous – O Irã está passando por uma onda de protestos nacionais, em todas as suas províncias. O processo parece ter iniciado no Grande Bazar, um espaço de corredores longos que chegam a 10 km, a 28 de dezembro do ano passado. O local de começo é importante, porque é visto historicamente como um local conservador onde clérigos e comerciantes se relacionam — inclusive é um dos pontos que iniciou uma outra revolução, a de 1979.
Há quem diga que é uma crise nascida da inflação que atingiu os 42,2% em dezembro, mas uma crise nunca é apenas financeira [Nota: à data de publicação desta entrevista, a moeda iraniana, Rial, encontra-se virtualmente valendo R$ 00,00]. Vejamos: preços das comidas e medicamentos subiram além da inflação (72% e 50%, respectivamente), apagões de energia e gás não poucas vezes — isso é alimentação, saúde e bem-estar.
Além disso, estamos há quase 47 anos diante de um país sitiado externamente por sanções internacionais e internamente por violações constantes de direitos humanos. Só em 2025 houve 2.201 execuções de pessoas dos 18 aos 71 anos —, sob o comando de uma oligarquia clériga centrada num intitulado “Líder Supremo”, eleito em 1989 por 74 de seus colegas, num sistema político com fortes evidências de corrupção.
É como se uma fênix cujo fôlego é asfixiado tivesse decidido emergir com mais energia que nunca e tomar posse de seu lar.
Pergunta 2 – Setores que protestam

Mulher acende cigarro no Canadá com chamas ateadas em foto do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei (Foto: 12/01/2026)
- Liras – Quais setores da sociedade iraniana estão engajados nos protestos atuais, e que papel desempenham mulheres, jovens e minorias étnicas ou religiosas nessa mobilização?
Sam Cyrous – Há uma concepção equivocada que alguns canais de comunicação e alguns iranianos na diáspora querem transmitir: a de que se trata de uma luta cultural entre princípios democráticos e o Islã. O Islã em si se sustenta por princípios democráticos. Al-Karaouine é a primeira universidade do mundo e foi criada numa mesquita porque todos têm direito ao conhecimento e, consequentemente, à tomada de decisão coletiva. Muhammad, fundador do Islã, é visto como um diplomata que soube gerir boas relações com lideranças de territórios vizinhos.
O problema de qualquer fanatismo religioso é que ele cega ciência, direitos e diálogo. No Irã, mulheres não têm os mesmos direitos que os homens, os curdos não têm os mesmos direitos que os persas, minorias religiosas não têm acesso ao ensino superior.
Desde a morte de Mahsa Amini, uma mulher curdo-iraniana, pela guarda da moralidade, as mulheres assumiram publicamente seu lugar de destaque e garra em todos os protestos no país. Várias lideranças curdas também vieram a público convocar apoio às manifestações.
O que temos, possivelmente pela primeira vez, é curdos e persas, mulheres e homens, ricos e pobres, muçulmanos e zoroastrianos, saindo em todas as províncias do país para se manifestar contra o Regime.
Pergunta 3 – Influências

- Liras – A história recente do Irã — incluindo o Movimento Verde de 2009, a repressão de 2019 e os protestos “Mulheres, Vida, Liberdade” de 2022 — influencia o cenário atual de revolta?
Sam Cyrous – Com certeza. Em 1999, quando houve os primeiros protestos universitários, Khatami, visto como um clérigo moderado, era o presidente. Havia esperança, mas as reformas introduzidas eram superficiais — o que em Psicologia Sistêmica chamamos de mudança tipo 1: mudam-se detalhes, mas a estrutura permanece problemática.
Ouvi inclusive um iraniano dizer que depois dele se descobriu que “até o melhor clérigo ainda é um clérigo”.
Dez anos depois, quando Mousavi e Karroubi perderam as eleições para Ahmadinejad, sob acusações de fraude, ainda se buscava apenas a troca do clérigo que assumiria a presidência, não uma mudança profunda do sistema.
Com a morte de cerca de 550 pessoas e a prisão de mais de 20 mil, sob o slogan “Mulheres, Vida, Liberdade”, os jovens começaram a perceber o que a Psicologia chama de mudança de tipo 2: uma mudança nas regras que estabelecem padrões aceitáveis dentro de um novo arcabouço de ação. Ninguém ficou estudando psicologia, claro, mas a psicologia explica o fenômeno. Os movimentos atuais são o passo natural de um processo de mudança.
Pergunta 4 – Redes Sociais

- Liras – Qual é o papel das redes sociais e da internet na disseminação de informações sobre a situação no Irã?
Sam Cyrous – Como em todo o mundo, iranianos recorrem ao espaço de “liberdade de expressão” que é a internet para informar o que ocorre e para receber informações de outras regiões. Por isso o bloqueio é tão impactante. Se o Regime bloqueia o acesso de toda uma população, ninguém sabe o que está acontecendo — e quando ninguém consegue acompanhar, nunca são boas coisas.
Algumas ONGs chegam a afirmar que houve mais de 2 mil mortes durante o atual bloqueio. [Nota: à data da realização desta entrevista, já havia relatos de mais de 12 mil mortos e início de sentenças de morte]. E como sabemos disso? Vez ou outra há quebras no bloqueio, instantes em que várias pessoas conseguem postar o que estava no buffer do aparelho e isso chega até nós.
Mas é preciso cuidado com o consumo de informação. Em estados emocionais extremos — irritação, medo, tristeza —, usamos mais as redes sociais, e as plataformas lucram com a propagação das piores notícias. Circulam imagens de outros momentos, conteúdos gerados por IA ou materiais feitos para criar dissensão. O momento exige serenidade e bom senso no consumo de mídia digital.
Pergunta 5 – Pressões Externas
- Liras – Como as pressões internacionais influenciam a crise no Irã, e qual deveria ser a postura da chamada “comunidade internacional”?
Sam Cyrous – Vejo alguns equívocos quando se fala em “comunidade internacional”. O primeiro é tratá-la como uma entidade homogênea — e ela não é. Muitos esperam que essa “comunidade” chegue e prenda o Líder Supremo; outros desejam a restauração da monarquia.
Essa busca por um salvador externo tende a emergir, segundo Erich Fromm, em situações de crise extrema, quando as massas não sabem quais passos dar. Bowlby descreve que apego surge mediante percepção de ameaça, e é nesse jogo, entre ameaça e liberdade, que se busca apoio externo.
Mas as ações da população iraniana são claras: a mudança precisa vir de dentro. E nunca podemos esquecer que algumas potências terão seus próprios interesses — instabilidade interna, exploração de recursos (para citar alguns) — enquanto outras observarão em silêncio para se alinhar ao vencedor. E nas últimas horas, começamos a ver novas movimentações.
No jogo de xadrez internacional, é importante lembrar: foram os persas os primeiros a jogar xadrez. E, enquanto se manifestam, não deixam de observar o que acontece no tabuleiro.
Pergunta 6 – Governo Iraniano
- Liras – Como o governo iraniano tem reagido aos protestos e quais são as perspectivas de curto e médio prazo?
Sam Cyrous – Quando pelo menos 512 locais, em 180 cidades, em todas as províncias de um país se manifestam, não estamos falando apenas de uma manifestação. Muita coisa pode acontecer. O Regime optou por culpar forças ocidentais e tratar os protestos como obra de um “bando de baderneiros”.
Há relatos de convocação de forças externas, blackout de internet, cortes de energia elétrica e milhares de mortos e presos, o que demonstra que não se trata de um “bando de baderneiros”.
Se usarmos o pensamento de Stefan Wolff, negociador especializado em conflitos étnicos, o primeiro passo deveria ser o diálogo, com foco exclusivo em meios pacíficos, criando instituições capazes de salvaguardar as necessidades da comunidade. Uma liderança que se preze deve, antes de tudo, considerar os anseios da população que representa.
Pergunta 7 – Diáspora
- Liras – Como a diáspora iraniana avalia o possível retorno da monarquia e as perspectivas de mudança no país?
Sam Cyrous – Creio que neste quesito há muitas diásporas iranianas e persa. Parte dela enxerga a Monarquia como a única solução, alguns inclusive falam em manter banimento da esquerda, outros falam em total laicismo… há várias perspectivas. Um quase consenso é que, se houver mudança, a mudança deve ser referendada.
Aqui surge a primeira dúvida: quem pode participar do referendo e quem define quem pode participar? Precisa ser nascido no Irã? Pode, como eu, ter nascido fora? Só os que são enquadrados em exílio e refúgio que podem? É preciso saber falar ou saber escrever persa? Daí, imagina que monarquia é aprovada. Surge outra série de perguntas: E se em 4 décadas muda-se de ideia? Outras manifestações e pede-se o regresso da Teocracia? Será uma Monarquia republicana? Quem serão os herdeiros de Pahlavi? Isso, claro, se o Regime Teocrático cair!
Então, há vários passos antes de chegarmos a estas questões. De qualquer forma, o que precisamos é de um Regime que aceite a plena participação popular, que se preocupe com questões internas e relações entre nações; com lideranças que considerem ciência e artes como base para suas ações, que se contentem com o seu salário e não se ceguem com ambições pessoais; que estejam focados no progresso das pessoas e desenvolvimento da educação pública, que invista em aquisição de ciência por parte da população, para que ela possa viver com as mais modernas ferramentas tecnológicas e a população enriquecer física e mentalmente.
Eu sou só mais um persa na diáspora. A única coisa que eu quero é que justiça e paz prevaleçam na terra dos meus antepassados.