O resgate da memória cultural de Goiânia tem ganhado novos contornos com a iniciativa de um influencer digital que viralizou ao compartilhar fotos, vídeos e histórias de locais icônicos da cidade nas décadas de 1990 e 2000. Com um tom nostálgico, os conteúdos têm despertado o interesse de diferentes gerações que viveram – ou apenas ouviram falar – sobre uma Goiânia em transformação.
A iniciativa, que começou de forma despretensiosa, logo chamou a atenção nas redes sociais, gerando interação massiva e ampla repercussão. Desde shoppings populares, antigos cinemas e praças que marcaram a convivência urbana, até eventos culturais relevantes da época, o influencer, cujo nome ainda não foi revelado na reportagem original, oferece um mergulho nas lembranças de uma capital em crescimento e em busca de modernidade. A viralização desses materiais reforça o fascínio por revisitar um passado próximo e refletir sobre as mudanças urbanas e culturais ao longo das últimas décadas.
Em um dos conteúdos mais comentados, o criador compartilhou imagens de lugares que hoje já não existem ou que passaram por transformações significativas. Dentre eles, o Cine Capri, um marco cultural ao longo das décadas de 1980 e 1990, e o extinto Araguaia Shopping, que ocupava um papel central no lazer e comércio da época. Esses registros não apenas avivaram a nostalgia daqueles que vivenciaram esses momentos, mas também despertaram curiosidade em gerações mais jovens, que passaram a enxergar Goiânia sob um novo prisma.
A história de Goiânia nas últimas décadas é marcada por grandes transformações arquitetônicas, sociais e urbanas. Fundada em 1933 com o propósito de ser uma capital moderna e planejada para o estado de Goiás, a cidade cresceu em ritmo acelerado, transformando, a partir dos anos 1980, bairros tradicionais em centros comerciais e culturais. Na década de 1990, os goianos testemunharam um crescimento econômico que influenciou diretamente no estilo de vida, enquanto os anos 2000 consolidaram a cidade como um polo cultural e econômico do Centro-Oeste.
Para além do aspecto nostálgico, a série de publicações também levantou discussões sobre preservação da memória urbana e cultural. Muitos dos seguidores lançaram críticas à falta de políticas públicas voltadas à preservação dos espaços históricos da cidade. Essa ausência contribuiu para a descaracterização de importantes marcos arquitetônicos e culturais, substituídos muitas vezes por empreendimentos comerciais modernos que não dialogam com a história local.
Outro ponto ressaltado nos debates foi como o projeto inicial de Goiânia como uma cidade planejada, repleta de áreas verdes e espaços de convivência, foi progressivamente perdendo sua essência em virtude da especulação imobiliária e do crescimento desordenado. Apesar dos avanços econômicos e sociais, muitos moradores expressaram saudades de uma Goiânia mais simples, comunitária e culturalmente rica.
Especialistas consultados destacam a importância da iniciativa do influencer por resgatar a memória coletiva de Goiânia e aproximá-la do público jovem que, em sua maioria, desconhece essa história recente. Segundo a historiadora Adriana Ramos, “os registros visuais e narrativos compartilhados nas redes são uma forma poderosa de educação patrimonial, permitindo que as novas gerações valorizem o passado e reflitam sobre o futuro da cidade”.
No entanto, é importante ponderar que essa influência digital também gera uma romantização de épocas marcadas por desafios históricos, como desigualdade social e acesso limitado a bens culturais. A nostalgia, segundo o sociólogo Márcio Oliveira, deve ser equilibrada com uma análise crítica: “Não podemos esquecer que, ao mesmo tempo em que resgatamos memórias afetivas, precisamos compreender as condições políticas e sociais que moldaram essas experiências”.
Embora focado na esfera cultural e urbana, o sucesso do influencer também evidencia um movimento mais amplo: o desejo da sociedade contemporânea de reconectar-se com suas origens em um mundo cada vez mais acelerado e digital. Essa busca por identidade, em tempos de mudanças globais intensas, reafirma a relevância de resgates históricos e culturais como um meio de fortalecer vínculos comunitários.
O caso do influencer dedicado a Goiânia é mais um exemplo de como as redes sociais podem se transformar em ferramentas não apenas de entretenimento, mas de reflexão e preservação histórica. A viralização de conteúdos desse tipo nos lembra do impacto das pequenas iniciativas na construção da memória coletiva e no debate sobre o futuro das cidades.
Enquanto histórias e imagens de uma Goiânia nostálgica continuam a circular no ambiente digital, fica o convite para que mais esforços – tanto individuais quanto institucionais – sejam feitos para preservar a identidade cultural e urbana dessa cidade que encanta e surpreende em sua pluralidade.