A inteligência artificial desenvolvida pelo Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) começa a operar em 90 tribunais brasileiros, consolidando um marco tecnológico no sistema judicial do país. Desde janeiro de 2025, a ferramenta já analisou cerca de 2,5 milhões de processos em 88 tribunais, agrupando ações similares em mais de 353 mil blocos, e agora promete ampliar seu impacto por todo o território nacional.
De acordo com o TJGO, a ferramenta foi projetada para lidar com o crescente volume de processos no Judiciário. A partir de algoritmos treinados para identificar padrões em ações judiciais, a IA organiza demandas semelhantes, otimizando o fluxo processual e auxiliando juízes e servidores na tomada de decisões mais rápidas e consistentes. Essa iniciativa alinha-se à busca por modernização e eficiência na Justiça brasileira, um dos sistemas judiciários mais sobrecarregados do mundo, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
O presidente do TJGO, desembargador Carlos Alberto França, destacou a relevância da inovação durante o evento que anunciou a expansão da ferramenta para 90 tribunais. “Estamos diante de uma mudança de paradigma. Esta tecnologia não só alivia a sobrecarga de processos, mas contribui para a celeridade judicial e a previsibilidade de decisões. É o futuro da Justiça sendo construído hoje”, afirmou França.
A criação da IA do TJGO é resultado de um esforço integrado entre técnicos de informática, magistrados e especialistas em ciência de dados. O projeto nasceu em 2022, durante um período de crescente demanda por soluções tecnológicas que ajudassem a mitigar a lentidão da Justiça. Após anos de desenvolvimento e ajustes, a ferramenta finalmente foi implementada no início de 2025, gerando resultados promissores em curto prazo.
Historicamente, a morosidade é um dos principais problemas do Judiciário brasileiro. A organização não governamental Justiça em Números, que analisa o sistema judicial anualmente, revela que o Brasil possui mais de 73 milhões de processos em tramitação. O excesso de ações, aliado à complexidade das demandas, torna a atuação dos tribunais lenta e frequentemente criticada pela sociedade. Diante desse contexto, a adoção de ferramentas baseadas em inteligência artificial representa um avanço promissor.
No entanto, especialistas do setor jurídico enfatizam que, embora a tecnologia seja uma aliada poderosa, sua implementação requer cuidados éticos e técnicos. Renato Pires, professor de Direito Processual na Universidade Federal de Goiás (UFG), ressalta: “É fundamental que a IA seja transparente e justa em seus critérios de agrupamento de processos. Ainda estamos aprendendo a lidar com os limites da tecnologia no Direito. A adoção precisa vir acompanhada de regulamentações claras e treinamento adequado para os operadores do sistema.”
A ferramenta já apresentou resultados práticos que evidenciam sua eficácia. Em uma ação conjunta com o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), por exemplo, a IA identificou mais de 15 mil ações repetitivas relacionadas a contratos bancários, permitindo uma análise mais ágil e uniforme. Segundo dados apresentados pelo CNJ, a padronização no julgamento dessas ações gerou economia e celeridade processual sem precedentes.
Apesar do entusiasmo, a expansão do uso da IA também levanta preocupações. O advogado e especialista em inovação André Queiroz aponta para o risco de desumanização da Justiça. “Decisões judiciais envolvem nuances e especificidades que nem sempre os algoritmos conseguem capturar. Há o perigo de que a dependência excessiva dessa tecnologia reduza a sensibilidade humana no julgamento de casos complexos”, afirma.
Por outro lado, os incentivos financeiros e logísticos para a adoção da ferramenta são claros. A eficiência gerada pela tecnologia tem o potencial de reduzir custos operacionais, ao diminuir o tempo de tramitação dos processos e otimizar o trabalho de equipes jurídicas. Além disso, o uso da IA oferece ao Judiciário um meio de lidar com limitações orçamentárias e desafios estruturais de forma estratégica e sustentável.
O impacto da tecnologia no sistema legal também reflete uma tendência mundial. Países como Estônia e Reino Unido já utilizam ferramentas de inteligência artificial para automatizar parte dos procedimentos judiciais, com resultados positivos. No caso brasileiro, a ferramenta do TJGO demonstra que o país está preparado para integrar tais tecnologias e adaptá-las ao contexto local.
Ainda que a IA do TJGO represente um avanço significativo, sua implantação em escala nacional exigirá uma abordagem cuidadosa. O diálogo entre os diferentes tribunais, a capacitação continuada dos profissionais do Direito e a avaliação constante dos resultados serão elementos cruciais para o sucesso da iniciativa. Além disso, especialistas apontam a necessidade de investir em mecanismos de segurança para evitar possíveis vulnerabilidades e garantir que os dados processados pela tecnologia estejam em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Conforme a sociedade acompanha este movimento, uma questão permanece: até que ponto será possível equilibrar a eficiência da inteligência artificial com a empatia e o julgamento crítico que historicamente fazem parte da essência da Justiça? Embora a resposta não seja imediata, o avanço da tecnologia judicial indica que o Brasil caminha para uma nova era, em que humanos e máquinas devem aprender a trabalhar lado a lado, buscando um sistema mais ágil, igualitário e confiável para todos os cidadãos.