Eu fui. Eu estava lá. Como eu deveria me sentir? Uma pergunta meio mórbida para quem foi ao próprio funeral.
O que encontrei? Ou melhor, o que esperava encontrar?
Vi familiares atravessando padarias carregando sacolas de salgadinhos e garrafas térmicas de café, como se o luto também precisasse de plásticos e copos descartáveis.
Nunca entendi bem essa tradição — alimentar quem vem velar alguém. Talvez seja uma forma de ocupar os vivos com o vazio da ausência ainda não preenchida.
Havia os que choravam. Havia os que lamentavam em voz baixa. E havia muitos que apenas estavam ali. Presentes. Mas por quê?
Vieram prestar uma última homenagem ou apenas confirmar que, desta vez, era definitivo? Que minha última jogada em vida finalmente havia sido registrada?
Quando eu ainda vivia, também ia a funerais. De próximos, de distantes, às vezes de quase desconhecidos. Não por curiosidade mórbida, mas como quem busca uma última chance de despedida. Eu chorava — mesmo quando não conhecia bem quem partia. Sempre achei que o sentimento não precisa de intimidade para existir. Compartilhava sentimentos verdadeiros.
Da mesma forma que já me emocionei em formaturas de estranhos, emocionava-me ali, diante de finais que não eram meus.
Enfim, voltemos ao meu cortejo.
Encontrei rostos esquecidos pelo tempo. Pessoas não vistas há muito e outras nunca vistas.
Talvez estivessem acompanhando alguém. Talvez estivessem ali pelo mesmo motivo que eu já estive um dia: preencher um espaço, somar presença, dar volume ao silêncio.
No fundo, um funeral também é isso — uma contagem não oficial de quem ficou.
Eu fui ao meu funeral e senti a presença do meu passado consolando meu próprio lamuriar.
Chorei. Não por não mais viver, mas por tudo aquilo que não cheguei a ser.
Caminhei pelos espaços terrosos destinados à matéria orgânica, tentando reconhecer em mim algo que ainda restasse.
Não reconheci. Percebi que morrer é não eternizar-se, e chorei pela ausência da minha marca do tempo.
Lamentei o que poderia ter sido, e morri somente com a eternização nos entes queridos.
Por fim, morri. E morri em matéria e espírito. Repito: morrer é não eternizar-se, e assim me desfiz no tempo e na memória.
O funeral terminou.
E ficou apenas o que não aconteceu.