Na última terça-feira, em Aparecida de Goiânia, região metropolitana da capital goiana, um homem foi preso sob acusação de assassinar a própria esposa na frente da filha, uma criança de 8 anos de idade. A informação foi confirmada pela Polícia Militar (PM) e pelo jornal O Popular. O caso, que choca pela violência e pelas circunstâncias, é mais um episódio alarmante de feminicídio no Brasil, um crime que evidencia a persistência da violência de gênero no país.
Segundo relatos da PM, a tragédia ocorreu no interior da residência da família, no bairro onde viviam. O acusado, cuja identidade não foi divulgada, teria desferido golpes fatais contra a esposa após uma discussão doméstica. A filha do casal, uma menina de apenas 8 anos, foi testemunha ocular do crime, o que imprime à ocorrência um impacto emocional ainda mais devastador. A polícia prendeu o homem em flagrante no local.
De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Brasil registrou 1.437 casos de feminicídios em 2022, o que corresponde a quase 4 mulheres mortas por dia apenas em razão de gênero. Goiás não é uma exceção: o estado ocupa uma posição preocupante nos índices nacionais de violência doméstica. Casos como o ocorrido em Aparecida de Goiânia reforçam a necessidade de políticas públicas eficazes de prevenção e combate aos crimes contra mulheres.
Além do impacto imediato e irreparável na família e na comunidade local, o crime reacende o debate sobre o feminicídio, que é um assassinato motivado por discriminação e violência de gênero. Essa tipificação foi introduzida no Código Penal brasileiro em 2015, com a Lei 13.104/15, que alterou o artigo 121. Apesar das iniciativas legislativas e do aumento da consciência pública sobre o tema, os números indicam que os mecanismos existentes ainda são insuficientes para frear essa epidemia de violência.
Pesquisadores e especialistas em segurança pública apontam que o feminicídio é, muitas vezes, o ponto culminante de um ciclo de violência doméstica que inclui agressões físicas, psicológicas, patrimoniais e sexuais. Nesse sentido, denuncias prévias, proteção efetiva às vítimas e o fortalecimento das redes de apoio são cruciais. Contudo, o caso em Aparecida de Goiânia destaca a dificuldade de romper esse ciclo antes que ele resulte em morte.
Entidades de defesa dos direitos das mulheres, como a Comissão da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-GO), têm se posicionado insistentemente sobre o tema. Em nota recente, a presidente da comissão, Ana Paula de Souza, afirmou: “Precisamos de uma mudança sistêmica que articule o poder público, a sociedade civil e as forças de segurança para proteger as mulheres em situação de risco. Há necessidade de educação de gênero desde os primeiros níveis escolares, combinada com políticas de segurança robustas.”
A criança que presenciou o crime, por sua vez, está sob cuidados e acompanhamento de profissionais especializados. O trauma a que foi submetida demanda acompanhamento psicológico de longo prazo para mitigar as marcas emocionais que, infelizmente, tendem a permanecer. Segundo especialistas em saúde mental, a violência testemunhada na infância pode impactar negativamente o desenvolvimento emocional, dificultando a construção de relações interpessoais saudáveis e replicando ciclos de violência no futuro.
A sociedade brasileira tem um longo caminho pela frente para erradicar o feminicídio e a violência de gênero. A implementação de políticas públicas voltadas para essa questão é essencial, mas é igualmente importante fomentar debates profundos que promovam uma mudança cultural. A disseminação de informações sobre os direitos das mulheres e os meios de denúncia, como a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), são ferramentas fundamentais para salvar vidas.
Enquanto o caso de Aparecida de Goiânia segue sob investigação, a dor da perda e o clamor por justiça ecoam na comunidade local e em todo o estado de Goiás. Esta tragédia não pode ser apenas mais uma estatística nos relatórios sobre violência contra a mulher no Brasil. É imperativo que a sociedade enxergue a gravidade do problema e cobre ações concretas para prevenir que novas vítimas venham a sofrer com crimes tão brutais como este.