A Secretaria de Saúde do Estado de Goiás confirmou, nos últimos dias, a circulação do vírus da febre amarela após a detecção em primatas não-humanos na zona rural de algumas regiões do estado. O achado, embora esperado em determinadas épocas do ano, é um indicativo importante para o monitoramento epidemiológico e reforça a necessidade de vacinação contra a doença, que pode ter consequências graves nos seres humanos. A intensificação das ações preventivas, incluindo mutirões de imunização, já começou em municípios estratégicos.
A febre amarela é uma doença viral transmitida por mosquitos infectados. No meio silvestre, os hospedeiros primários do vírus são primatas, enquanto os vetores são insetos como os mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes. Em áreas urbanas, o Aedes aegypti também pode atuar como transmissor, embora isso não tenha ocorrido no Brasil desde 1942. O registro de macacos infectados funciona como um sinal de alerta para as autoridades, já que eles são os primeiros a manifestar os efeitos da propagação viral.
O governo estadual, em parceria com o Ministério da Saúde, já adotou medidas para ampliar a imunização da população, priorizando as regiões com maior registro de primatas infectados. Em comunicado, a Secretaria de Saúde destacou que a vacinação continua sendo a melhor ferramenta para prevenir surtos. A vacina contra a febre amarela é segura e, em geral, aplicada em dose única com validade para toda a vida. Para crianças, recomenda-se a administração do imunizante a partir dos 9 meses de idade.
Segundo Adriana Brandão, superintendente de Vigilância em Saúde de Goiás, “a identificação do vírus em primatas nos dá a oportunidade de agir antes de uma possível transmissão aos seres humanos. A campanha de vacinação e o reforço da vigilância mostram o compromisso em proteger a saúde da população”. A meta, explica Brandão, é vacinar todas as pessoas não imunizadas nos focos de detecção da doença.
Embora Goiás não registre casos urbanos de febre amarela desde a década de 1940, surtos esporádicos em áreas de mata têm ocorrido nos últimos anos, especialmente na Região Centro-Oeste e no Sudeste do Brasil. Entre 2016 e 2018, o país enfrentou um dos maiores surtos de febre amarela silvestre de sua história, com mais de 2 mil casos confirmados e centenas de mortes. Goiás, devido à sua geografia e clima favorável à proliferação de vetores, foi um dos estados mais afetados nesse período.
A mobilização da população é considerada um fator crucial para o sucesso das campanhas de imunização. Em Aparecida de Goiânia, por exemplo, postos de saúde estão realizando atendimentos estendidos, enquanto equipes volantes percorrem áreas rurais para alcançar populações mais isoladas. Dados preliminares indicam que em torno de 85% da população goiana está vacinada contra a febre amarela, mas a meta é chegar a 95%, cobertura preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para evitar surtos.
Além da vacinação, as autoridades reforçam a importância de medidas de controle ambiental, como a erradicação de criadouros de mosquitos. O acúmulo de água parada em recipientes como pneus, latas e caixas d’água deve ser evitado, já que esses locais facilitam a reprodução dos mosquitos vetores do vírus. A população também é orientada a reportar à Vigilância Sanitária qualquer registro de macacos mortos ou doentes nas redondezas, já que estes animais são considerados “sentinelas” da febre amarela, e não transmissores.
Especialistas em saúde destacam que o Brasil possui um dos programas de vacinação mais abrangentes do mundo, mas alertam que a disseminação de desinformação pode prejudicar os esforços imunológicos. Nos últimos anos, movimentos antivacina ganharam força em diferentes partes do mundo e, embora ainda sejam minoritários no Brasil, têm causado quedas nas taxas de cobertura vacinal de várias doenças, incluindo a febre amarela.
A febre amarela, apesar de controlada em larga escala, é uma ameaça latente que não deve ser subestimada. Segundo a Fiocruz, a taxa de letalidade da forma grave da doença pode ultrapassar 50% nos pacientes que desenvolvem sintomas como febre alta, dores musculares severas, icterícia e hemorragias. “A prevenção nunca é demais, e a febre amarela nos lembra o quanto dependemos de um sistema de saúde eficiente e de uma população consciente e vacinada”, argumenta o infectologista Jorge Moura.
Histórico da doença, somado à atual conjuntura ambiental, como desmatamento e mudanças climáticas, têm ampliado o alcance dos vetores e modificado a dinâmica de várias doenças zoonóticas, incluindo a febre amarela. Estudos apontam que a destruição de habitats naturais obrigou espécies de mosquitos a se adaptarem e atingirem áreas urbanizadas, aumentando o risco de surtos em zonas anteriormente consideradas seguras.
Apesar dos desafios, autoridades sanitárias estão confiantes de que o reforço das campanhas de vacinação e a mobilização da população podem conter possíveis surtos. O acompanhamento dos resultados será realizado ao longo das próximas semanas, enquanto equipes técnicas continuarão monitorando as condições epidemiológicas no estado.
“A história recente nos ensina que é sempre preferível agir antes que a doença atinja dimensões mais graves. Goiás está fazendo a sua parte com base na ciência e na prevenção”, concluiu Adriana Brandão. A orientação para a população é clara: quem ainda não tomou a vacina contra a febre amarela deve procurar o posto de saúde mais próximo e garantir sua imunização, especialmente se reside ou planeja viajar para áreas rurais ou de mata.
A febre amarela é mais um exemplo de como a interação entre pessoas e meio ambiente exige vigilância constante e ações integradas. O alerta em Goiás é um chamado à prevenção e ao fortalecimento de ações coletivas que protejam vidas e promovam a saúde pública.