A Prefeitura de Goiânia está dando um passo ousado na busca por maior equidade no acesso à saúde pública. Foi enviado à Câmara Municipal, na última semana, o Projeto de Ampliação e Fortalecimento da Saúde Urbana e Suburbana (Pafus), que prevê a descentralização dos investimentos no setor, com um aporte inicial de até R$ 10 milhões em 2026. O plano também projeta a ampliação do orçamento para R$ 20 milhões em 2027, com o objetivo de reformular a lógica de distribuição de recursos na capital goiana.
De acordo com o prefeito Rogério Cruz (Republicanos), a proposta surgiu a partir de análises realizadas em parceria com especialistas da área da saúde e economia. “Queremos garantir que os recursos atinjam verdadeiramente as unidades de saúde que mais necessitam e que hoje sofrem com a precariedade. Esse é um compromisso com a saúde pública e com os cidadãos de Goiânia”, afirmou o prefeito em uma coletiva realizada nesta segunda-feira.
O projeto tem como um dos pilares a descentralização dos investimentos, priorizando as regiões periféricas da cidade, cujos postos de saúde enfrentam frequentemente a falta de estrutura e de insumos básicos. Dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) indicam que mais de 60% das unidades estão situadas em áreas menos favorecidas e que essas regiões acumulam as maiores demandas por atendimentos de urgência.
Contexto histórico e desafios
Historicamente, a rede pública de saúde em Goiânia tem enfrentado desafios significativos relacionados à desigualdade na distribuição de recursos. Até hoje, a maior parte dos investimentos é direcionada às unidades localizadas em áreas centrais ou mais desenvolvidas economicamente, em detrimento de bairros periféricos, onde vivem populações mais vulneráveis.
Essa realidade, infelizmente, não é exclusiva da capital goiana. Dados nacionais do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que, em muitas cidades brasileiras, existe um padrão de concentração de investimentos, o que contribui para filas de espera, atrasos em atendimentos e subutilização de estruturas em locais mais privilegiados da cidade. Segundo especialistas, a descentralização dos recursos é um passo essencial para mitigar tais desigualdades.
O secretário municipal de Saúde, Durval Pedroso, destacou que o Pafus foi elaborado com o objetivo de corrigir essa distorção histórica. “Muitos bairros periféricos em Goiânia dependem de unidades que têm dificuldades até mesmo para contratar médicos. Com esse investimento, conseguiremos implementar melhorias nas estruturas físicas, além de oferecer melhores condições de trabalho e atrair profissionais de todas as especialidades”, afirmou o secretário.
Impactos previstos no atendimento
A descentralização promete benefícios substanciais à população. As unidades localizadas em regiões periféricas poderão contar com mais insumos, equipamentos e equipes ampliadas, o que deverá reduzir o tempo de espera por consultas e exames. Além disso, o projeto prevê a introdução de novas tecnologias para agendamento eletrônico, telemedicina e regulação em tempo real, medidas que podem trazer mais eficiência ao atendimento.
Especialistas apontam que a descentralização não apenas desafoga hospitais centrais, mas também contribui para um cuidado mais próximo das comunidades. “Um sistema de saúde bem distribuído territorialmente salva vidas. Quando os serviços estão distantes, os cidadãos enfrentam barreiras geográficas e financeiras para acessá-los. Esse projeto é um avanço importante para mudar essa lógica”, observa a professora Ana Clara Mendes, especialista em saúde pública pela Universidade Federal de Goiás (UFG).
Críticas e desafios à implementação
Embora o projeto do Pafus tenha sido bem recebido por grande parte da sociedade, há críticas que questionam a viabilidade financeira e administrativa da iniciativa. O vereador João Camargo (PSDB), conhecido pela postura crítica em relação às políticas da gestão atual, afirmou que o texto apresenta “lacunas importantes”.
“A ideia é excelente no papel, mas é preciso clareza sobre de onde virão os recursos para sustentar esses investimentos. Ainda temos uma dívida importante na área da saúde, e acredito que a Prefeitura precisa apresentar contrapartidas mais detalhadas”, argumentou o parlamentar. A Prefeitura, por sua vez, informou que a maior parte dos fundos será oriunda de repasses federais e de cortes em áreas não prioritárias do orçamento municipal.
Além disso, especialistas alertam para a necessidade de monitoramento contínuo e da criação de mecanismos de auditoria para garantir que os recursos cheguem ao destino planejado. Iniciativas similares em outras gestões acabaram se perdendo devido a falhas na execução e no controle dos investimentos.
Oportunidades e impacto social
A implementação do Pafus pode representar um marco na saúde pública de Goiânia, especialmente em um contexto de recuperação econômica pós-pandemia, quando a pressão sobre os sistemas de saúde se tornou ainda mais evidente. A expectativa é que a medida não só melhore os índices de saúde pública, como também contribua para a redução das desigualdades sociais na cidade.
Por fim, a Prefeitura reafirmou o compromisso de trabalhar em parceria com a sociedade civil, os conselhos de saúde e os vereadores para assegurar que o projeto se torne uma realidade. “Estamos abertos ao diálogo e às contribuições. O Pafus é uma construção coletiva, e nossa meta é levar dignidade e saúde para todos os cantos de Goiânia”, concluiu o prefeito Rogério Cruz.
Com a tramitação prevista para as próximas semanas, a cidade aguarda com grande expectativa os desdobramentos desse projeto, enquanto a população e os especialistas continuam atentos aos desafios que ainda precisam ser enfrentados para transformar a saúde pública da capital.