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Goiânia inaugura a primeira cooperativa de arquitetas do Brasil

Iniciativa pioneira busca transformar a dinâmica profissional do setor ao adotar o modelo cooperativista, criando alternativas inclusivas e colaborativas em um mercado geralmente dominado por estruturas tradicionais

Goiânia inaugura a primeira cooperativa de arquitetas do Brasil
Fonte: Jornal Opção (Goiás)

A cidade de Goiânia viu nascer, em um cenário de inovação profissional no Brasil, a primeira cooperativa de arquitetas do país. A iniciativa, que reúne exclusivamente profissionais mulheres, foi oficializada nesta semana e busca redefinir a atuação no campo da arquitetura por meio de um modelo cooperativista voltado ao compartilhamento de trabalho, recursos e decisões.

Composta inicialmente por 12 profissionais de diferentes áreas da arquitetura, a cooperativa emerge como uma alternativa ao tradicional sistema de escritórios. A proposta visa criar um ambiente mais inclusivo e colaborativo, permitindo que as arquitetas participem ativamente nas decisões estratégicas e na distribuição do trabalho, enquanto compartilham responsabilidades administrativas e financeiras. “O modelo cooperativista possibilita o empoderamento das profissionais e cria um espaço em que todas têm voz, algo que nem sempre encontramos nos modelos convencionais”, afirma Mariana Borges, uma das fundadoras do projeto.

O advento da cooperativa em Goiânia ocorre em um momento em que a arquitetura enfrenta mudanças significativas. Historicamente marcada por um formato hierárquico, com escritórios comandados por poucos nomes de destaque, a área vê surgir novas demandas por diversificação, inclusão de mulheres em posições de decisão e métodos de trabalho mais horizontais. Dados do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/BR) indicam que, embora as mulheres já representem mais de 60% dos profissionais registrados no país, sua ascensão a cargos de liderança e sua visibilidade no mercado ainda são desproporcionais.

A escolha por Goiânia como sede para esse projeto não é casual. A capital goiana, conhecida por seu rico acervo de arquitetura art déco, é historicamente um berço de experimentações artísticas e urbanísticas no Brasil. Nos últimos anos, a cidade tem se destacado por fomentar iniciativas voltadas à inovação, tanto no setor cultural quanto no empresarial. “Goiânia sempre foi uma cidade que respira inovação. Iniciar esse projeto aqui é reforçar essa característica e criar um exemplo que pode ser seguido por outras cidades do Brasil”, observa a arquiteta e urbanista Paula Carvalho, pesquisadora da UnB especializada em cooperativismo profissional.

O modelo adotado pela cooperativa incorpora princípios consagrados pelo setor cooperativista em outras áreas, como a agricultura e o transporte, mas traz adaptações específicas às demandas do mercado de arquitetura. Entre os diferenciais, destaca-se a configuração de um modelo de receitas compartilhadas, que garante remuneração proporcional ao trabalho executado por cada arquiteta, além de um planejamento coletivo para a captação de projetos e parcerias. Outro ponto relevante é a criação de um fundo coletivo voltado para a capacitação e especialização das integrantes, viabilizando cursos, seminários e intercâmbios profissionais.

Especialistas apontam o modelo cooperativista como uma oportunidade para desafiar a lógica capitalista tradicional presente em diversas profissões liberais. Segundo a economista Marina Santos, que estuda o impacto econômico das cooperativas na Organização Internacional do Trabalho (OIT), o formato permite diluir hierarquias e distribuir recursos de forma mais igualitária. “As cooperativas ressignificam o mercado ao priorizarem valores humanos e compartilhamento de recursos. No caso das arquitetas de Goiânia, essa abordagem pode servir como um contraponto às estruturas competitivas predominantes na profissão”, explica Santos.

Entretanto, o projeto apresenta desafios. A concorrência com escritórios tradicionais, já consolidados no mercado, e a necessidade de conquistar a confiança de clientes acostumados ao modelo convencional são obstáculos que as integrantes da cooperativa terão de enfrentar. Contudo, elas demonstram otimismo. “Sabemos que há resistências, mas acreditamos que as vantagens de nosso modelo, que inclui transparência nas negociações e valorização integral do trabalho de cada profissional, serão diferenciais importantes”, relata Carolina Menezes, outra fundadora da cooperativa.

A criação da cooperativa também ganha relevância no contexto das desigualdades de gênero. Durante décadas, o mercado da arquitetura perpetuou uma série de barreiras estruturais que limitavam a presença feminina em cargos de destaque, especialmente em projetos de grande escala. A iniciativa goiana, ao escolher ser composta exclusivamente por mulheres, representa não apenas uma solução prática para os desafios do setor, mas também um manifesto sobre a necessidade de se repensar o papel das mulheres na arquitetura brasileira.

A novidade já atrai atenção fora de Goiás. Consultores de arquitetura e representantes de sindicatos de outras regiões acompanharam a inauguração com o objetivo de captar aprendizados para implementar projetos similares em outros estados. “O cooperativismo pode ser uma revolução silenciosa em várias profissões liberais, e iniciativas como essa têm o potencial de inspirar mudanças estruturais no Brasil”, comenta a presidente do CAU/BR, Nadia Somekh.

A consolidação desse modelo em Goiânia poderá servir de exemplo não apenas para outras profissionais da arquitetura, mas também para diversas categorias que enfrentam desafios semelhantes. No momento em que o Brasil discute alternativas para tornar o mercado de trabalho mais inclusivo, igualitário e democrático, o surgimento da cooperativa de arquitetas representa uma contribuição concreta e inspiradora.

O futuro do projeto, ainda em seus primeiros passos, parece promissor. As integrantes da cooperativa já preparam um calendário ambicioso de eventos, incluindo palestras sobre o impacto do cooperativismo no setor, workshops de formação profissional e exposições que visam dar visibilidade ao trabalho das arquitetas. Para as fundadoras, a meta é clara: consolidar-se como referência nacional e, quem sabe, exportar o modelo goiano para o restante do país.

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