Sumário
O mundo atravessa uma nova convulsão global. No centro dessa turbulência está o Irã, país que, há mais de quatro décadas, ocupa uma posição sensível no tabuleiro internacional e que volta a enfrentar uma combinação explosiva de revolta interna, isolamento externo e confrontação indireta com os Estados Unidos.
Os protestos que hoje se espalham por cidades iranianas não surgem no vazio. Eles são resultado de um acúmulo histórico de tensões sociais, econômicas e políticas, agravadas por sanções internacionais severas, inflação persistente, desemprego juvenil elevado e um regime que mantém forte controle sobre costumes, imprensa e dissenso político. Ao mesmo tempo, esses protestos se desenrolam num contexto internacional marcado pelo recrudescimento da política externa norte-americana no Oriente Médio.

Raízes históricas de um confronto duradouro
Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã se colocou em rota de colisão com os Estados Unidos, rompendo com a ordem regional patrocinada por Washington durante a Guerra Fria. A deposição do xá Reza Pahlavi e a ascensão do regime teocrático transformaram o país em símbolo de resistência à influência ocidental, mas também o tornaram alvo permanente de contenção econômica, diplomática e militar.
Ao longo das décadas, o Irã construiu uma política externa baseada no que chama de “eixo da resistência”, estabelecendo alianças estratégicas com atores e países que desafiam a presença norte-americana na região. Esse posicionamento consolidou a rivalidade com os EUA, aprofundou tensões com Israel e provocou ciclos recorrentes de sanções e confrontos indiretos.
Protestos internos e desgaste do regime
Internamente, as revoltas atuais dialogam com episódios recentes de contestação, como os protestos de 2009, as manifestações populares de 2019 contra o aumento do custo de vida e, sobretudo, a onda de 2022, marcada pelo protagonismo feminino e pelo questionamento direto à autoridade religiosa do Estado. O que se observa agora é uma persistência desse descontentamento, mais difuso, menos centralizado, mas igualmente profundo.
A repressão estatal, embora eficaz em curto prazo para conter manifestações, tem ampliado o desgaste simbólico do regime, especialmente entre jovens e mulheres. Para muitos analistas, o pacto social que sustentou a República Islâmica desde os anos 1980 mostra sinais evidentes de esgotamento.
Dimensão geopolítica da crise
É nesse cenário fragilizado que se intensificam as ações externas dos Estados Unidos na região. Ataques pontuais, operações militares indiretas e demonstrações de força têm sido interpretados por Teerã como tentativas desesperadas de reafirmação da hegemonia norte-americana num mundo cada vez mais multipolar. Para o Irã, essas ações reforçam a narrativa de cerco externo; para Washington, tratam-se de movimentos de contenção estratégica.
As relações do Irã com outros polos de poder — como Rússia e China — também ganham peso nesse contexto. Ao buscar alternativas econômicas e diplomáticas fora do eixo ocidental, Teerã aprofunda a percepção de que a crise iraniana não é apenas nacional, mas parte de um rearranjo global mais amplo, no qual antigas potências tentam preservar influência diante de novas configurações de poder.
Revolta social e choque de impérios
O que ocorre hoje no Irã é, portanto, mais do que uma crise doméstica. Trata-se de um ponto de interseção entre uma sociedade em ebulição e um sistema internacional em transição. A revolta nas ruas iranianas expõe fissuras internas profundas, enquanto as pressões externas revelam o desconforto de uma ordem global que já não se sustenta sem fricções constantes.
Num mundo marcado por disputas abertas, o Irã emerge novamente como palco simbólico de um conflito maior: o embate entre projetos de poder, modelos de governança e visões antagônicas sobre o futuro da ordem internacional.