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Festejo de Exu Tranca Ruas das Almas reúne 70 terreiros em Goiás

A celebração afro-brasileira, marcada pela presença de dezenas de terreiros, promoveu reflexões sobre espiritualidade, justiça e a importância do respeito às religiões de matriz africana em um momento de fortalecimento da tradição cultural em Goiás

Festejo de Exu Tranca Ruas das Almas reúne 70 terreiros em Goiás
Fonte: Jornal Opção (Goiás)

O Festejo de Exu Tranca Ruas das Almas, realizado em Goiás no último final de semana, mobilizou cerca de 70 terreiros de religiões de matriz africana, em uma celebração que reuniu centenas de adeptos e simpatizantes. O evento, marcado por danças, cantos e rituais, destacou o papel de Exu como entidade associada à justiça, ao equilíbrio e à caridade, reafirmando o compromisso das religiões afro-brasileiras com a inclusão e a espiritualidade. A iniciativa também levantou discussões importantes sobre a valorização da cultura e da ancestralidade afro-brasileira no estado.

Promovido anualmente, o festejo ocorre tradicionalmente no mês de outubro, sendo um dos maiores eventos religiosos do tipo na região Centro-Oeste. Este ano, a celebração aconteceu na cidade de Aparecida de Goiânia, localizada na região metropolitana da capital goiana, e contou com a participação de babalorixás, ialorixás e representantes de diversas casas de axé. O evento também foi aberto ao público em geral, em um esforço para promover integração e combate a preconceitos em relação às práticas religiosas de matriz africana.

A relevância da celebração na luta contra o preconceito

O festejo de Exu Tranca Ruas das Almas vai muito além de uma demonstração de fé e devoção. Ele se insere em um contexto histórico e sociocultural que evidencia a resistência das religiões afro-brasileiras em um país onde práticas como a umbanda e o candomblé ainda sofrem preconceitos e discriminação. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ibge), cerca de 0,3% da população brasileira, ou aproximadamente 600 mil pessoas, se declaram adeptas de religiões afro-brasileiras, números que não refletem o tamanho da influência desses cultos na cultura nacional.

Para Josina Aiyê, ialorixá que lidera um dos terreiros participantes, o evento é uma forma de ocupar o espaço público e dar visibilidade à importância dessas manifestações religiosas: “O festejo não é apenas uma celebração do nosso Exu Tranca Ruas das Almas, mas uma reafirmação de que estamos aqui, de que resistimos. É um momento para exaltar nossos ancestrais e fortalecer aquilo que nos une enquanto comunidade religiosa e cultural.”

Quem é Exu Tranca Ruas das Almas?

No panteão das religiões de matriz africana, Exu é conhecido como o orixá dos caminhos, da comunicação e das encruzilhadas. Exu Tranca Ruas das Almas, em particular, é uma entidade cultuada especialmente em contextos de proteção espiritual e abertura de estradas no plano físico e metafísico. Ele também é visto como um defensor da justiça, apoiando aqueles que buscam equilíbrio e a superação de obstáculos.

De acordo com estudiosos, a figura de Exu é frequentemente mal compreendida, sendo alvo de estigmatizações que o associam a ideias equivocadas de maldade ou perigo. Contudo, sacerdotes e sacerdotisas das religiões afro-brasileiras reforçam que Exu é um agente de transformação e uma presença essencial para a manutenção da harmonia entre o espiritual e o material.

O termo “Tranca Ruas das Almas” se refere à capacidade da entidade de proteger caminhos, selar energias nocivas e guiar almas em transição. A combinação entre força, justiça e caridade atribuída a este Exu é central para os rituais realizados em sua homenagem.

Uma tradição em expansão

A celebração de Exu Tranca Ruas das Almas vem ganhando força em Goiás, acompanhando um movimento crescente de valorização das tradições afro-brasileiras em todo o país. Segundo Rafael da Costa, pesquisador de cultura afro-brasileira na Universidade Federal de Goiás (UFG), a realização de eventos como este é fundamental para a preservação e disseminação do patrimônio imaterial representado por essas práticas religiosas.

“As religiões de matriz africana são guardiãs de saberes ancestrais que carregam contribuições fundamentais para a formação cultural do Brasil”, explica Costa. “Em regiões como Goiás, onde predomina uma matriz cultural tradicionalmente católica, a presença de terreiros é também uma forma de ampliar o campo de diálogo intercultural e resistir a iniciativas de apagamento dessas manifestações.”

Além dos rituais religiosos, o evento contou com apresentações culturais como rodas de capoeira, samba de roda e palestras temáticas. As atividades evidenciaram a riqueza das tradições afrodescendentes, integrando tanto os adeptos quanto a comunidade ao redor em uma atmosfera de aprendizado e celebração.

Reflexões sobre liberdade religiosa

Em um cenário nacional marcado por episódios de intolerância religiosa, o festejo de Exu Tranca Ruas das Almas também se consolidou como um espaço para reflexões acerca da liberdade de expressão e da convivência entre diferentes crenças. De acordo com o último relatório sobre intolerância religiosa da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, as religiões de matriz africana estão entre as mais afetadas por atos de preconceito e violência no Brasil.

Diante desse contexto, líderes dos terreiros participantes destacaram a importância de fortalecer a conscientização sobre a pluralidade religiosa do país. “Quando ocupamos espaços como este, estamos dizendo que nossas vozes importam e que nossa fé merece ser respeitada como todas as outras”, afirmou Pai Benedito Odé, um dos organizadores do evento.

O festejo também trouxe à tona temas como o papel da juventude na preservação das tradições e a necessidade de políticas públicas que reconheçam e apoiem as religiões afro-brasileiras como parte da identidade nacional.

Conexão entre espiritualidade e sociedade

Mais do que uma celebração de caráter espiritual, o evento em homenagem a Exu Tranca Ruas das Almas destacou a interseção entre fé e responsabilidade coletiva. A caridade, um dos princípios defendidos pelo orixá, foi representada por ações sociais como a arrecadação de alimentos para comunidades em situação de vulnerabilidade. Ao todo, foram doadas mais de três toneladas de alimentos a famílias carentes da região.

A ialorixá Josina Aiyê ressaltou que a espiritualidade afro-brasileira está intrinsecamente ligada a valores como solidariedade e justiça social. “A caridade é um dos caminhos da espiritualidade que praticamos. Enxergamos a fé não como algo somente individual, mas como uma energia que deve ajudar a transformar o coletivo.”

Um legado vivo

O festejo de Exu Tranca Ruas das Almas reafirmou o vigor das tradições afro-brasileiras e o papel fundamental das religiões de matriz africana na construção de uma sociedade mais plural e tolerante. Para os organizadores, a celebração é mais do que um evento anual: é um lembrete vivo da resistência cultural e espiritual que pulsa em Goiás e em todo o Brasil.

Nas palavras de Pai Benedito Odé: “Honrar Exu é também honrar nossos ancestrais, nossas raízes e a força que nos trouxe até aqui. Seguiremos celebrando, resistindo e abrindo caminhos.”

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