O Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou, em seu relatório mais recente, que 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2025. Os dados apontam para uma média de quatro mulheres assassinadas por dia, apenas por serem mulheres. O crime de feminicídio, tipificado pela Lei nº 13.104/2015, é um dos maiores desafios contemporâneos para os sistemas de justiça e para a sociedade. Embora se trate de uma tipificação recente e de avanços no campo legislativo, os números despertam questionamentos sobre a eficácia das políticas de prevenção e combate à violência de gênero no país.
O Brasil figura entre os países com maior índice de feminicídios no mundo, segundo dados da ONU Mulheres. Essa realidade aponta para uma cultura profundamente enraizada na desigualdade de gênero, onde o controle sobre o corpo e a vida das mulheres ainda é visto como justificável por muitos agressores. É importante observar que, em muitos casos, os crimes são cometidos por parceiros ou ex-parceiros das vítimas, o que escancara a dinâmica de poder opressiva em relacionamentos abusivos.
Contexto histórico e cultural
A violência de gênero no Brasil não é um fenômeno recente. Ela está inserida em um contexto que mistura heranças históricas de patriarcado e machismo estrutural. A naturalização da agressividade masculina e a culpabilização feminina são narrativas presentes desde o período colonial, quando mulheres eram consideradas propriedades de seus pais ou maridos. Apesar das transformações sociais ao longo dos séculos, esses resquícios culturais permanecem arraigados.
A tipificação do feminicídio como crime hediondo em 2015 trouxe um avanço significativo do ponto de vista legal. No entanto, a implementação dessa legislação tem enfrentado entraves. Processos judiciais ainda esbarram em resistências culturais e falhas institucionais, como a falta de capacitação de profissionais da segurança pública e do judiciário, além da insuficiência de políticas públicas de proteção às mulheres em situação de risco.
Quem são as vítimas?
O perfil das mulheres vítimas de feminicídio no Brasil evidencia a interseccionalidade das opressões. A maioria das vítimas é composta por mulheres negras, jovens e de baixa renda. Segundo o Atlas da Violência, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mulheres negras têm 1,7 vezes mais chances de serem assassinadas do que mulheres brancas. Essa disparidade revela como o racismo, aliado ao machismo, agrava ainda mais a violência sofrida por uma parcela significativa da população feminina.
Além disso, muitos crimes de feminicídio são precedidos por anos de violência doméstica, um ciclo que frequentemente se perpetua devido ao isolamento da vítima, à dependência financeira e à falha das redes de apoio. Muitas vezes, mesmo após denúncias, mulheres continuam sem a proteção necessária, o que acaba culminando em tragédias que poderiam ter sido evitadas.
O papel da sociedade
O enfrentamento do feminicídio passa, inevitavelmente, por uma mudança cultural. É preciso desconstruir as narrativas que perpetuam a violência de gênero, promovendo a educação para a igualdade desde a infância. Nas escolas, discutir questões de gênero e ensinar sobre respeito e direitos humanos são passos fundamentais para reduzir as desigualdades e os índices de violência a médio e longo prazo.
A mídia também desempenha um papel crucial nesse processo. A cobertura de feminicídios deve ser feita de forma ética e responsável, evitando a espetacularização dos casos e a revitimização das mulheres. Sensibilizar a sociedade para a gravidade do problema e cobrar ações do poder público são obrigações que os veículos de comunicação precisam incorporar em sua pauta diária.
O que pode ser feito?
Especialistas em políticas de gênero sugerem uma combinação de estratégias para enfrentar a violência contra as mulheres de maneira eficaz. Entre elas, destacam-se:
1. Expansão da rede de apoio: Ampliar a quantidade e a qualidade de delegacias especializadas em atendimento à mulher, casas de acolhimento e centros de apoio psicológico para vítimas de violência. 2. Educação continuada: Capacitar policiais, juízes, promotores e outros profissionais do sistema de justiça para lidar com casos de feminicídio e violência doméstica de maneira humanizada. 3. Campanhas de conscientização: Investir em campanhas nacionais que abordem o combate à violência de gênero e incentivem a denúncia. 4. Proteção às sobreviventes: Garantir a execução de medidas protetivas e oferecer suporte integral às mulheres que denunciam seus agressores, evitando que elas retornem ao ciclo de violência.
Conclusão
Os alarmantes números de feminicídios no Brasil em 2025 representam uma ferida aberta em nossa sociedade. A desigualdade de gênero, a negligência das instituições e a falta de investimento em políticas públicas robustas contribuem para a perpetuação desse crime hediondo. Para que o Brasil possa superar esse desafio, é fundamental que os esforços se concentrem em ações integradas envolvendo governo, sociedade civil, mídia e, sobretudo, um compromisso coletivo de mudança cultural. É preciso ir além da indiferença e agir de maneira incisiva para garantir que nenhuma mulher perca sua vida pelo simples fato de ser mulher.