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INFLUÊNCIA INTELIGENTE TODO DIA

“Eu não preciso acreditar. Eu sei.”

Artigo de opinião de Abílio Wolney Aires Neto, escritor e ensaísta, que contrapõe a experiência psíquica do sagrado em Carl Gustav Jung à ética do absurdo em Albert Camus, examinando o conflito entre fé interior, lucidez e a permanente busca humana por sentido.

Contra a luz do entardecer, Carl Gustav Jung contempla o invisível — entre a fumaça do cachimbo e o silêncio da janela, a psique como território onde o sagrado se revela não como crença, mas como experiência. (Arthur da Paz/OpenAI)

Sumário

A frase foi pronunciada em 1959, numa entrevista à BBC, por Carl Gustav Jung. Perguntaram-lhe se acreditava em Deus. A resposta atravessou o século como provocação. Não era profissão de fé dogmática, nem desafio teológico. Era a afirmação de uma experiência.

Quando Jung disse “eu sei”, não reivindicava prova metafísica. Falava como médico da alma. Para ele, Deus era uma realidade psíquica, um arquétipo central do inconsciente coletivo. A experiência do numinoso — aquilo que fascina e inquieta, que ultrapassa a razão e se impõe como presença interior — constitui dado estrutural da condição humana. A imagem de Deus, nesse sentido, expressa a busca de totalidade da psique, aquilo que chamou de Self. Negar essa dimensão não a dissolve; apenas a empurra para a sombra.

Mas o século XX também foi o século do absurdo.

Em 1942, no ensaio O Mito de Sísifo, Albert Camus sustentou que o problema filosófico fundamental é o suicídio. Se o universo é silencioso diante do desejo humano de sentido, vale a pena viver? O absurdo nasce do confronto entre a sede de significado e a indiferença do mundo. Não há resposta transcendente garantida. Há apenas a lucidez.

Camus rejeita o salto para a fé como solução. A esperança metafísica pode ser evasão. A dignidade está em permanecer na tensão, sem mentir para si mesmo. Seu símbolo é Sísifo, condenado a rolar eternamente a pedra montanha acima. A pedra retorna. O esforço recomeça. Ainda assim, escreve Camus, é preciso imaginar Sísifo feliz. A felicidade nasce da revolta lúcida.

Aqui se estabelece o confronto.

Para Camus, afirmar “eu sei” poderia parecer resposta precipitada ao silêncio do universo. A honestidade exigiria aceitá-lo.

Para Jung, o silêncio exterior não invalida a experiência interior. A necessidade de sentido é estrutural. O arquétipo não é fantasia arbitrária, mas forma universal da psique. Camus teme a ilusão; Jung teme a repressão do símbolo. Um permanece na montanha, outro desce ao inconsciente. Um insiste na lucidez; outro, na integração.

Talvez ambos reagissem ao mesmo drama histórico: a crise das certezas e o colapso das antigas garantias. Camus escolheu a ética da lucidez sem consolo. Jung escolheu a via da experiência interior como caminho de totalidade.

Entre o absurdo e o arquétipo, a pergunta permanece. Empurramos nossas pedras cotidianas, mas também sonhamos e buscamos sentido.

Nesse ponto, ecoa a reflexão da mentora espiritual Joanna de Ângelis: “O ser humano é herdeiro de si mesmo e construtor do próprio destino.” E ainda: “Somente o autoconhecimento liberta das sombras e conduz à plenitude.”

Talvez não saibamos se Deus responde. Talvez não possamos provar aquilo que Jung afirmou saber. Mas a insistência da pergunta — seja como revolta, seja como experiência do numinoso — revela algo essencial. Entre a pedra e o inconsciente, seguimos. E talvez seja essa busca que nos mantém vivos.

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