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INFLUÊNCIA INTELIGENTE TODO DIA

Entre o pensamento e o crime: Dostoiévski, Nietzsche e o homem contemporâneo

Em ensaio assinado pela juíza de Direito Julyane Neves, intelectual e dedicada estudiosa de história da arte, Dostoiévski e Nietzsche ajudam a entender por que tanta gente pensa demais, age no impulso e, depois, se sente vazia, culpada ou em conflito consigo mesma

Fotografia antiga. Dois homens de época estão sentados lado a lado, à mesa, em uma biblioteca. Ambos pensando profundamente.
Paralisia e colapso: entre o ‘subsolo’ de Dostoiévski e o ‘pálido criminoso’ de Nietzsche, a juíza Julyane Neves demonstra, em ensaio que conecta os dois gigantes do pensamento humano, em um único retrato da dificuldade humana de unir pensamento e ação. (Crédito: Arthur da Paz e Nano Banana, Google)

Há uma frase em Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche, no capítulo “Do Pálido Criminoso”, que, sem a merecida atenção, pode soar simples, contudo carrega uma carga de consequências explosivas:

“Uma coisa é o pensamento,
outra coisa é a ação.”

À primeira vista, a frase pode soar banal — quase um truísmo. Mas nela há um abismo moderno: o descompasso entre o que se concebe e o que se consegue sustentar, entre o que se idealiza e o que o corpo, o caráter e a vida de fato suportam. O problema não é apenas agir ou não agir; é a capacidade de integrar pensamento, desejo e gesto numa mesma autoria.

E não por acaso essa fratura já havia sido explorada, décadas antes, por Dostoiévski — não como tese filosófica, mas como drama humano.

Em Memórias do Subsolo, Dostoiévski descreve um homem paralisado pelo excesso de consciência. Ele pensa demais, analisa demais, antecipa demais — e, justamente por isso, não age. O pensamento não desemboca em decisão; ele se converte em corrosão. A lucidez vira doença. A liberdade vira peso. Não se trata de inteligência que ilumina, mas de consciência que se volta contra si e sabota a própria potência.

Já em Crime e Castigo, Dostoiévski vai além: Raskólnikov não apenas pensa — ele atravessa o limite. Constrói uma ideia (a de que certos homens “extraordinários” teriam o direito de transgredir) e decide colocá-la em prática. Mas o crime não o confirma como exceção; o crime o expõe. O ato não prova a ideia: testa o homem. E a ideia, confrontada com a realidade concreta do gesto, revela sua fragilidade.

Nietzsche descreve exatamente esse instante no “pálido criminoso”: o homem que age e, depois do gesto, empalidece. Não necessariamente porque foi “atingido” por um remorso moral — embora isso possa existir —, mas porque faltou força para habitar o que fez. O colapso é existencial antes de ser jurídico ou moral: a ação foi maior do que a potência do sujeito que a executou. A ideia era maior do que o corpo que a levou adiante.

Entre o Homem do Subsolo e Raskólnikov, entre a paralisia e o colapso, Nietzsche e Dostoiévski desenham uma mesma figura fragmentada: o homem que não consegue integrar pensamento, desejo e ação — e, por isso, oscila entre a impotência e a explosão, entre a lucidez que paralisa e o gesto que cobra caro.

Essa figura não ficou no século XIX. Ela é profundamente contemporânea.

O homem de hoje vive cercado de ideias prontas, discursos morais instantâneos, opiniões compartilháveis, indignações rápidas. E aqui vale uma precisão: não se trata de dizer que “ninguém age” ou que “toda ação é vazia”. Há ações corajosas, há compromissos reais, há responsabilidade concreta. O ponto é outro: as condições atuais multiplicam a opinião e aceleram o julgamento, mas nem sempre criam, na mesma proporção, densidade de autoria. Opina-se com facilidade; sustentar o que se diz e o que se faz é mais raro.

Quando age, muitas vezes o sujeito o faz movido por impulsos que não consegue manter de pé: acusa, expõe, rompe vínculos, destrói reputações, “resolve” moralmente o mundo em atos rápidos. O gesto vem com a promessa de purificação — e, depois, chega o vazio, a culpa difusa, a sensação de que algo saiu do lugar. Não porque toda denúncia seja injusta ou toda crítica seja ilegítima, mas porque há uma diferença decisiva entre responsabilidade e descarga; entre justiça e catarse; entre autoria e automatismo.

Vivemos numa cultura que, com frequência, separa opinião de consequência, ação de responsabilidade e julgamento de autoconhecimento. O resultado tende a ser um sujeito que, como Raskólnikov, age esperando se tornar alguém — e descobre, tarde demais, que o gesto não o salvou de si mesmo.

Nietzsche chamaria uma parte disso de ressentimento — não como simples “raiva”, mas como uma estrutura reativa: quando não consigo afirmar minha vida com força, eu busco superioridade moral no julgamento do outro; quando não suporto minha impotência, eu a converto em virtude e transformo o outro em culpado. O ressentimento, nesse sentido, não é só emoção: é uma forma de valoração que dá alívio imediato, mas aprofunda a fratura interna.

Dostoiévski chamaria isso, por outro ângulo, de drama da consciência cindida: o homem que pensa contra o corpo, age contra si e depois não suporta o peso do que fez — porque não foi capaz de unificar o que desejava, o que dizia e o que efetivamente sustentava.

Talvez por isso essas obras continuem tão atuais. Elas não falam apenas de crime, filosofia ou moral. Falam do homem moderno: aquele que vive entre o pensamento e a ação, entre o desejo e a culpa, entre a imagem de quem gostaria de ser e o que, na prática, consegue sustentar.

Nietzsche e Dostoiévski não oferecem respostas fáceis. Mas fazem algo mais raro: mostram que não basta pensar bem, nem agir com ousadia. É preciso ter força para sustentar a própria vida — e, com ela, os próprios gestos e as próprias ideias.

Sem isso, o homem moderno continua empalidecendo, mesmo quando acredita estar lúcido, livre ou moralmente correto.

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