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INFLUÊNCIA INTELIGENTE TODO DIA

Diagnóstico precoce e acesso são vitais no combate ao câncer infantil

A história de Benjamim, um menino de seis anos em tratamento oncológico, revela a importância do diagnóstico precoce e defende a universalização do acesso a tratamentos gratuitos e de alta qualidade no sistema público de saúde brasileiro

Benjamim, um menino de seis anos em tratamento oncológico
Reprodução

A luta contra o câncer é uma batalha que aflige milhões de famílias em todo o mundo, mas, quando o diagnóstico atinge uma criança, o impacto é ainda mais profundo. No Brasil, a história de Benjamim, um menino de seis anos diagnosticado com câncer, vem iluminando a urgência de garantir o diagnóstico precoce e o acesso universal a tratamentos adequados. Benjamim, que tem recebido cuidados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), tornou-se um símbolo das dificuldades e esperanças enfrentadas por famílias de pacientes pediátricos.

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer é a principal causa de morte por doença entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos no Brasil. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça que cerca de 80% das crianças com câncer podem ser curadas, desde que diagnosticadas precocemente e tratadas adequadamente. No entanto, desafios como a centralização de serviços especializados, a falta de informação e barreiras socioeconômicas dificultam que muitas famílias tenham acesso a esse tipo de cuidado.

Especialistas apontam que o diagnóstico precoce é a pedra angular do sucesso no combate ao câncer infantil. No entanto, os sintomas muitas vezes são confundidos com doenças comuns da infância, como viroses ou alergias. “A capacitação dos profissionais de saúde que atendem na atenção básica é essencial para a detecção precoce”, afirma a oncologista pediátrica Maria Isabel Rocha. Ela destaca, ainda, que sintomas como febre persistente, palidez, cansaço extremo e dores que não desaparecem precisam ser investigados cuidadosamente.

No caso de Benjamim, seus pais notaram algo errado quando ele começou a apresentar cansaço excessivo, perda de apetite e manchas arroxeadas pelo corpo. Após insistirem por respostas mais claras em consultas médicas, veio o diagnóstico: leucemia linfoblástica aguda, um dos tipos mais comuns de câncer infantil. Felizmente, Benjamim pôde iniciar o tratamento no SUS, mas o caso revela o peso do papel da persistência familiar e da estrutura de saúde pública em um sistema frequentemente sobrecarregado.

Nos últimos anos, o Brasil tem avançado no oferecimento de tratamentos oncológicos pediátricos pelo SUS, mas ainda há lacunas que precisam ser preenchidas. Segundo o Ministério da Saúde, apenas cerca de 45 centros especializados no país possuem certificação para tratar o câncer infantil, e a maioria está localizada em grandes centros urbanos. Famílias que vivem no interior, em sua maioria, precisam enfrentar viagens longas e caras para garantir o tratamento adequado para seus filhos.

Outro ponto crucial é o fator socioeconômico, que afeta diretamente a qualidade do tratamento e o prognóstico da criança. Estudos apontam que pacientes provenientes de famílias de baixa renda têm menor chance de cura, frequentemente devido à dificuldade de acesso ao diagnóstico, interrupções no tratamento ou falta de acompanhamento adequado. “A doença não pode ser agravada pela renda da família. Garantir equidade de acesso é uma questão de justiça social”, defende o sociólogo André Medeiros, especializado em saúde pública.

A desigualdade nas regiões do país também é marcante. De acordo com o Atlas de Oncologia Pediátrica do Inca, a Região Norte, por exemplo, apresenta os piores índices de diagnóstico precoce e sobrevida entre crianças com câncer. Isso decorre da baixa oferta de profissionais especializados na área oncológica e da precariedade de hospitais em estados menos desenvolvidos.

Além das barreiras práticas do sistema, há ainda uma profunda necessidade de políticas de conscientização. Campanhas que informem os pais e responsáveis sobre os sinais de alerta para o câncer infantil e sobre a importância de buscar atendimento médico de qualidade são ferramentas fundamentais para salvar vidas. Nesse sentido, a comunicação entre o Poder Público, comunidade médica, instituições de ensino e a sociedade civil desempenha um papel crucial.

Por outro lado, o SUS, apesar de suas falhas, tem sido uma tábua de salvação para muitas famílias. A incorporação de tratamentos modernos, como a imunoterapia, que já está disponível em alguns centros de referência pelo sistema público, representa um avanço significativo. No entanto, a fila de espera por alguns tratamentos e exames ainda é uma realidade angustiante para muitos.

Ao mesmo tempo, iniciativas de organizações não governamentais e institutos especializados têm complementado o trabalho do setor público. O Instituto Ronald McDonald, por exemplo, é um dos que atuam ativamente para viabilizar acesso a tratamentos oncológicos infantis. A articulação entre o governo e essas iniciativas é necessária para ampliar a cobertura e mitigar desigualdades regionais.

O caso de Benjamim tem gerado comoção e debate nas redes sociais, levantando uma questão subjacente: por que nem todas as crianças têm o mesmo acesso aos cuidados que ele está recebendo? A resposta, como aponta o economista da saúde Renato Vargas, reside na alocação de recursos. “O Brasil precisa priorizar investimentos no fortalecimento dos serviços regionais e aumentar o número de centros de referência em oncologia pediátrica no interior do país”.

Ao final do dia, histórias como a de Benjamim reforçam que a luta contra o câncer infantil deve ser uma prioridade coletiva. É essencial avançar não apenas na universalização do acesso, mas também na consolidação de um sistema de saúde que seja ágil e integral, com capacidade de acompanhar crianças e famílias em todas as etapas da doença. Somente assim será possível vislumbrar um futuro em que mais “Benjamins” tenham a chance de viver plenamente, livres do peso dessa doença tão desafiadora.

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