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Detran-GO elimina baliza e rampa de provas práticas para CNH

Em uma mudança significativa nos testes de habilitação, o Detran-GO anunciou a retirada das etapas de baliza e rampa das provas práticas para obtenção da CNH. A medida, defendida como forma de desburocratização, gera debate sobre os impactos na formação e segurança dos condutores

Detran-GO elimina baliza e rampa de provas práticas para CNH
Foto: Unsplash

O Departamento Estadual de Trânsito de Goiás (Detran-GO) divulgou, nesta semana, a eliminação das etapas de baliza e rampa nas provas práticas para a obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A decisão, válida para candidatos de todo o estado, divide opiniões e levanta questões cruciais sobre os efeitos dessa medida na formação de motoristas e na segurança viária. Segundo o órgão, a mudança busca “simplificar o processo de habilitação”, mas especialistas alertam para possíveis prejuízos na capacitação técnica dos futuros condutores.

A decisão foi anunciada pelo Detran-GO como parte de um conjunto de reformas com o objetivo de desburocratizar o processo de emissão de CNH. A etapa de baliza, tradicionalmente uma das mais temidas pelos candidatos, foi suprimida sob o argumento de que não reflete de maneira realista as condições enfrentadas no trânsito cotidiano. Da mesma forma, a obrigatoriedade da rampa, etapa que simulava a condução em aclives, também foi descartada. O diretor-geral do Detran-GO, Marcos Roberto Silva, afirmou que a reformulação visa tornar as provas mais acessíveis e menos intimidantes para os candidatos: “Essa medida é um passo na direção da modernização. Queremos focar em avaliações que realmente priorizem a segurança e as habilidades práticas do dia a dia”.

Debate sobre a formação dos condutores

A retirada desses elementos, no entanto, foi recebida com ceticismo por profissionais da área de trânsito, instrutores e entidades que atuam na promoção da segurança viária. Para muitos especialistas, a baliza e a rampa são elementos técnicos essenciais que testam a habilidade do condutor em situações específicas, mas comuns no trânsito brasileiro. Lúcia Prado, coordenadora do Sindicato dos Instrutores de Autoescolas de Goiás, argumenta que “habilidades como estacionar em espaços reduzidos e lidar com elevações são fundamentais, especialmente em áreas urbanas e centros movimentados”.

Ainda segundo Prado, ao eliminar etapas fundamentais como essas, abre-se espaço para questionamentos sobre a qualidade da formação dos novos condutores: “Pode parecer uma simplificação, mas precisamos garantir que os motoristas estejam preparados para lidar com desafios reais no trânsito. Qual será o impacto disso nos índices de acidentes e infrações?”.

Reformas e o contexto nacional

A decisão do Detran-GO se insere em um movimento mais amplo de mudanças nas regras de trânsito no Brasil. Em anos recentes, alterações na legislação, como a ampliação da validade da CNH e o aumento do limite de pontos para a suspensão do documento, têm refletido uma tentativa de flexibilizar o sistema. Esse contexto, porém, também gera preocupações sobre o equilíbrio entre acessibilidade e segurança.

Segundo dados do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), o Brasil figura entre os países com mais altos índices de acidentes fatais de trânsito no mundo. Em 2021, foram registrados mais de 30 mil óbitos em rodovias e vias urbanas, tornando a questão da formação de condutores ainda mais urgente e sensível. Para especialistas, as mudanças anunciadas pelo Detran-GO devem ser acompanhadas de perto para avaliar possíveis impactos na segurança e na qualidade da direção.

Percepção pública e perspectivas

A sociedade goiana recebeu a notícia com reações divididas. Nas redes sociais, enquanto alguns cidadãos elogiam a medida como uma forma de descomplicar a prova prática, outros manifestam preocupações sobre os riscos que as alterações podem trazer. “Não adianta facilitar a prova se isso significar mais insegurança nas ruas”, comentou um internauta em uma publicação oficial do Detran-GO.

Já motoristas experientes, como o aposentado José Araújo, que trabalhou como caminhoneiro por 30 anos, ponderam que o foco deveria estar na formação contínua: “A CNH é só o primeiro passo. Ser motorista é aprender todos os dias. Mas é difícil entender por que tirar a baliza, que sempre foi uma etapa importante do teste”.

A expectativa é que as mudanças sejam monitoradas com rigor pelo Detran-GO, que se comprometeu a reavaliar a decisão caso sejam constatados impactos negativos no trânsito. Para Marcos Roberto Silva, o objetivo é também investir mais em educação no trânsito: “Estamos estudando formas de incluir temas mais relevantes nos conteúdos teóricos oferecidos durante o processo de habilitação, como direção defensiva e ética no trânsito”.

A busca pelo equilíbrio

O caso de Goiás é emblemático de um desafio mais amplo enfrentado pelas autoridades de trânsito brasileiras: como garantir a democratização do acesso à CNH sem comprometer a qualidade na formação dos motoristas? Enquanto a medida gera alívio para candidatos que veem na baliza e na rampa uma barreira muitas vezes maior que o necessário, ela também coloca em evidência a responsabilidade das instituições em assegurar que as ruas e rodovias continuem seguras para todos.

Resta acompanhar os resultados práticos dessa decisão e, sobretudo, discutir qual deve ser o papel do processo de habilitação em um país que ainda enfrenta desafios estruturais no trânsito. Assim como em outros aspectos da vida pública, o equilíbrio entre simplificação e responsabilidade é uma meta que exige análise contínua e decisões informadas pelos interesses coletivos.

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