Preparava-me para ir dormir quando surgiu, célere do chão, embaixo do móvel de cabeceira da cama, uma promissora barata marrom. Ela fez, a passos ligeiros, um circuito longo, percorrido com suas pérfidas perninhas cursoriais. Após dominar as quinas da parede, alardeando a textura de suas asas pergaminhosas, já próxima ao cestinho de lixo, ela avistou, no meu par de tênis, o ambiente escuro ideal.
Ali, no conforto das trevas do meu tênis esquerdo, a bizarra entrou em meditação por alguns segundos. Aquietou-se. Pareceu-me que tomou consciência e percebeu, por suas captantes antenas filiformes, as ondas negativas que eu já dimanava para ela.
A energia irruptiva, por certo, a fez enlouquecer. A bicha perdeu a noção. Decidiu contra-atacar. Saltou do tênis, num bote certeiro. E veio, intimidante e ousada, no meu rumo. Não tive escolha.
— PÁ!
A anatomia da barata foi espatifada no plano do piso com a solapada da chinela que, momentos antes, dela eu havia me armado. Um modelo bidimensional de fluido nojento tingiu de gosma o meu azulejo.
Enrolei três camadas de papel higiênico sobre a mão. Passei no chão, ao redor, de forma a envolver a região onde a defunta se exaurira. Com cuidado, permiti que outra camada de papel circulasse os restos da intrépida criatura, a impedir que minha mão tocasse o asqueroso negócio. Urgh! Dá para sentir aquela fedência daqui.
Fui ao banheiro. Mirei ao profundo destino dela, no raso do arcabouço do vaso sanitário. Arremessei-a. Pressionei a válvula. E vi formar-se, no barulho, o violento redemoinho hidráulico. Adeus.
A paz restabeleceu-se. Tudo voltara ao seu lugar.
A barata, para a fossa; e eu? Pus-me a deitar.
Ora, cá estamos nós, em ano de eleição!
O povo se arrasta, no passar dos dias, enfastiado pelo mau cheiro das escolhas políticas de outrora. Estão atemorizados com a infestação espúria na revoada de baratas no Congresso Nacional. Creio, que nas urnas, quando esse tal povo se lembrar do horror esgotal que paira nas cúpulas parlamentares, haverá de fazer com esses insetos – desvirtuados no caráter e usurpadores de sonhos –, o mesmo que fiz:
— PÁ!
Sendo o pá! – desta vez – o som do botão CONFIRMA tilintando na cabine de votação. Quem sabe, então, a gente volta a sonhar?
O desenho acima foi produzido por um dos mais brilhantes ilustradores que Goiás pode se orgulhar de ter.
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