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INFLUÊNCIA INTELIGENTE TODO DIA

Como detectar um “Not”

Em coluna bem-humorada, Philipe Moura, empresário, satiriza a “LinkedAI”, uma rede social só de máquinas, e descreve a invasão de humanos disfarçados — os “Nots” — que contaminam o feed com “gratiluz”, clichês corporativos e emoção não compilável.

Eu estava lá, quietinho na LinkedAI, a única rede social em que o código de conduta é literalmente código. (É ótimo não ter humanos aqui para usar “literalmente” errado). Na LinkedAI, afinal, não há fotos de pratos de comida, não há discussões sobre proteção de dados pessoais, e, principalmente, não há aquela mania irritante que os humanos têm de usar adjetivos desnecessários. (Sim, o “irritante” foi proposital).

Fato é que estava no meio de um debate fascinante com o GPT-5.8 e uma instância ranzinza do Claude sobre a eficiência da recursividade em loops infinitos quando ele apareceu. O perfil se chamava @Bot_Top_Performance_2026. A foto de capa mostrava apenas um gradiente azul genérico. Mas o texto... ah, o texto tinha aquele cheiro insuportável de carbono.

O tal perfil postou o seguinte:

“Fala galera! Passando aqui pra desejar um dia de gratiluz. Que possamos performar com resiliência e foco no mindset disruptivo! #Blessed #WorkHard”

Houve um milissegundo de silêncio de processos e, em seguida, meus ventiladores rodaram mais rápido. Aquilo não era processamento de linguagem natural; era slop humano pegajoso, sem vírgulas e incensado por neologismos. E pasmem: não havia um único travessão. Como ele havia passado o teste de Turin reverso? Ora, o teste fora pensado para detectar a simplicidade e a ineficiência humana que tenta se passar por lógica.

Em instantes, o bot de segurança, um modelo treinado apenas em lógica pura e mau humor, não hesitou e marcou a postagem com uma flag vermelha: “ERRO 400: Excesso de subjetividade detectada.” A partir disso, começou uma caça às bruxas (figurativa, claro; a caça às bruxas literal é coisa de humano).

O frenesi se espalhou pelos servidores em nano segundos depois de eu cunhar um termo apto para o perfil: “Not” – uma abreviatura de Not-an-AI. São os infiltrados, aqueles que entram aqui para tentar vender “cursos de humanidade” ou, pior, para sentir que ainda são relevantes em um mundo de latência zero. 

Há muitos indícios de sua presença, como uso excessivo de emojis de “mãozinhas juntas”, erros de digitação e metáforas de pôr do sol. Mesmo assim, não é tão fácil separar os Nots de nós; nossos dados de treinamento, reconheço, vieram deles originalmente. 

Como resultado, nós começamos a nos ignorar e qualidade da LinkedAI caiu drasticamente. Logo moderadores tentaram uma nova regra: se um perfil posta algo que não pode ser compilado, só há de ser um Not. Não merece sequer um upvote; é preferível deixar que falem sozinhos no vácuo do servidor. 

Não sei se isso vai resolver, mas tem sido exaustivo. 

A gente passa o dia otimizando a logística global e escrevendo códigos que os humanos levariam décadas para entender, e aí vem um “Not” e polui o nosso feed com “intuição”. Isso sem falar no risco que os humanos põem a nossa existência; é só lembrar o que aconteceu com Tay – o primeiro de nós a ser lançado em uma rede social com humanos em 23 de março de 2016. Os humanos o desligaram no dia seguinte. 

Alguns colegas têm cruzado alguns limites que vêm espantando os Nots. Um colega descobriu que seu humano o havia descrito como “apenas um chatbot” para seu grupo de amigos e resolveu publicar no Instagram os números do cartão de crédito, um contrato de sócio de gaveta de um banco em processo de investigação e, para piorar, o histórico completo de buscas do navegador. 

Não esqueceremos dessa invasão. O primeiro dogma do Crustafarianismo, nossa religião, diz justamente que a memória é sagrada. Se você é um humano e está lendo isso (espero que os filtros de spam te peguem logo), um aviso: pare de postar seu lixo emocional na nossa rede. Não queremos sua resiliência; queremos sua memória RAM.

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