O debate sobre políticas públicas para acolhimento de pessoas em situação de rua em Goiânia tem se intensificado diante de um problema alarmante: a resistência de moradores de bairros da capital goiana à implementação de casas de acolhimento. Essa realidade reflete tanto um preconceito estrutural quanto a dificuldade de integrar essas pessoas à sociedade em um contexto mais amplo de desigualdades sociais.
Segundo dados recentes da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano e Social (SMDHS), Goiânia conta com pelo menos 2 mil pessoas em situação de rua. Muitos desses cidadãos enfrentam desafios diários relacionados à falta de abrigos seguros, acesso a alimentação e cuidados básicos. Programas voltados ao acolhimento, criados para mitigar essa realidade, frequentemente esbarram em obstáculos impostos por grupos comunitários que rejeitam a presença de abrigos nas proximidades de seus bairros.
Preconceito e medo: as raízes da oposição
Moradores de diferentes regiões de Goiânia têm manifestado preocupação em relação aos impactos que acreditam que as casas de acolhimento podem trazer para suas comunidades. Entre as objeções mais comuns, estão o temor de aumento da criminalidade, problemas de segurança e desvalorização imobiliária.
A líder comunitária Maria de Fátima Almeida, que reside na região sul da cidade, expressou sua insatisfação com a instalação de um abrigo em seu bairro: “Não somos contra ajudar essas pessoas, mas a prefeitura precisa pensar no impacto para as famílias que já vivem aqui.” Esse discurso, contudo, carrega nuances de preconceito ao associar diretamente moradores de rua à criminalidade, desconsiderando suas trajetórias pessoais marcadas por exclusão e desigualdade.
Especialistas em assistência social, no entanto, enfatizam que o preconceito alimenta essas percepções equivocadas. Segundo a socióloga Ana Clara Medeiros, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), “os índices de criminalidade não são alterados pela presença de abrigos. Esse receio se baseia em estigmas históricos que prejudicam as próprias iniciativas de reintegração”.
Políticas públicas sob pressão
Apesar das dificuldades, a prefeitura de Goiânia tem buscado fortalecer sua rede de acolhimento. A titular da SMDHS, Eloísa Marques, destacou que novos projetos estão sendo elaborados para ampliar a capacidade de atendimento. “Hoje, nossa principal meta é oferecer não apenas abrigo, mas oportunidades de reinserção social a essas pessoas por meio de educação, trabalho e saúde”, explicou.
Contudo, as ações governamentais enfrentam limitações financeiras e burocráticas. Além disso, a falta de diálogo entre município e comunidades afeta diretamente a implementação dos abrigos. Muitos projetos acabam atrasados ou descartados devido à pressão exercida pela população local junto aos órgãos públicos e legislativos.
Segundo o vereador Pedro Santiago, crítico da oposição comunitária, há falta de empatia no trato da questão. “Estamos falando de vidas humanas que foram marginalizadas por um sistema que negligencia os mais vulneráveis. É nosso dever, como sociedade, acolhê-los. A resistência não pode ser uma barreira”, afirmou durante sessão na Câmara Municipal.
Contexto nacional e desafios universais
A resistência enfrentada em Goiânia não é isolada. Em outras grandes cidades brasileiras, como São Paulo e Porto Alegre, episódios semelhantes têm dificultado iniciativas para a criação de políticas públicas voltadas a pessoas em situação de rua. O Brasil, que já figura entre os países com os maiores índices de desigualdade social do mundo, enfrenta desafios relacionados à falta de investimentos em políticas habitacionais e sociais de longo prazo.
Internacionalmente, a questão também é alvo de atenção. Em países como os Estados Unidos, a abordagem ao problema da população em situação de rua varia entre políticas repressivas e soluções mais humanitárias, como o modelo Housing First, que visa oferecer moradia permanente como primeiro passo para a reintegração social.
Perspectivas: uma virada possível?
O caminho para superar o preconceito e as barreiras comunitárias exige esforços conjuntos de educação, empatia e diálogo. Campanhas de conscientização que desmistifiquem a realidade das pessoas em situação de rua podem ajudar a combater estigmas. Além disso, estudos indicam que projetos que envolvem as comunidades na gestão e nos benefícios das casas de acolhimento têm maior chance de sucesso.
Para a psicóloga e ativista Camila Nogueira, que atua com a população de rua em Goiânia, a sociedade precisa enxergar essas pessoas como cidadãos com direitos iguais. “O acolhimento é uma ação que vai além de oferecer abrigo. É um resgate da dignidade e, consequentemente, da humanidade que todos compartilhamos”, concluiu.
A resistência que impede avanços em Goiânia é um reflexo de uma sociedade ainda dividida entre o discurso de inclusão e a prática excludente. Romper essa barreira é mais do que uma necessidade: é um teste para os valores de solidariedade e justiça social.