Dezenas de caminhões com logomarcas de empresas agrícolas pararam o centro histórico de Goiás, reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, na manhã da última segunda-feira (23). A manifestação, organizada por produtores rurais, reivindicava mudanças na política agrícola e a redução no preço do diesel, mas trouxe à tona sérias preocupações quanto à preservação das frágeis estruturas de taipa e pau-a-pique que compõem o casario histórico.
A ocupação mobilizou atenção imediata das autoridades locais. O prefeito de Goiás, Aderson Gouvea (PT), solicitou à Guarda Civil Municipal e à Secretaria de Trânsito que monitorassem o impacto nas ruas tombadas, enquanto representantes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) alertaram para os riscos de vibração causada pelos veículos pesados. “As edificações do centro histórico não foram projetadas para suportar o peso e as vibrações de caminhões de grande porte. Qualquer dano pode ser irreparável”, afirmou uma fonte do IPHAN.
Os manifestantes, por sua vez, defenderam a legitimidade do ato. Segundo João Vicente Rodrigues, produtor rural e um dos líderes do protesto, “o setor agrícola carrega o país nas costas e não pode mais arcar com os custos crescentes. Estamos aqui porque o governo não nos ouve”. O grupo também declarou que a escolha do centro histórico se justificava pela visibilidade que o local atrai para a pauta.
Contudo, setores da sociedade civil reagiram com críticas. A jornalista e comentarista política Cileide Alves, em publicação no Twitter, destacou o que considera uma afronta dupla: “Quem não respeita o resultado das urnas não respeitará o patrimônio histórico”. A fala ecoa a percepção de que as reivindicações do movimento incluem críticas ao governo federal, embora os organizadores neguem vínculos com qualquer movimento antidemocrático.
O centro histórico da cidade de Goiás, antiga capital do estado, é um símbolo da arquitetura colonial brasileira. Declarado Patrimônio Cultural da Humanidade em 2001, o local exige rigorosos cuidados de preservação. As casas de taipa e pau-a-pique, materiais amplamente utilizados no século XVIII, são sensíveis a impactos modernos como poluição, vibrações e sobrecarga no solo.
Especialistas apontam que o episódio reflete a complexidade das manifestações do setor agrícola no Brasil. O agronegócio, responsável por cerca de 30% do Produto Interno Bruto do país, tem enfrentado desafios crescentes, como a alta nos custos de produção, oscilação no mercado internacional e tensões políticas com o atual governo. “Os protestos dos caminhoneiros têm uma carga simbólica e prática no Brasil. Historicamente, eles são capazes de paralisar estruturas logísticas e pautar agendas nacionais”, avalia Laura Mendes, especialista em economia agrícola e colaboradora do Nexo Jornal.
No entanto, a escolha de um local sensível para o ato levanta o debate sobre os limites da liberdade de expressão em espaços urbanos protegidos. Alexandra Pereira, presidente da Associação de Moradores do Centro Histórico de Goiás, questionou: “A liberdade de manifestação é legítima, mas até onde vai esse direito quando ele coloca em risco o patrimônio de todos? Precisamos de mais fiscalização e regras claras”.
Para além do debate sobre preservação cultural, o episódio também impactou a população local. Comerciantes relataram prejuízos devido ao bloqueio temporário de ruas e à dificuldade de acesso de clientes. Já a mobilidade urbana foi severamente afetada, com moradores enfrentando dificuldades para transitar em meio aos veículos estacionados.
A Secretaria de Cultura e Turismo de Goiás informou que irá avaliar os possíveis danos causados aos imóveis tombados e acionará os responsáveis, caso sejam constatados prejuízos. Em nota, o governo estadual reiterou seu compromisso com a preservação do patrimônio histórico e solicitou diálogo com os manifestantes para encontrar alternativas de pauta que não impactem áreas sensíveis.
Quanto às reivindicações econômicas, representantes do setor agrícola estimam que os custos com insumos, especialmente fertilizantes e combustíveis, aumentaram cerca de 40% desde 2021. Além disso, a cotação do diesel, principal combustível utilizado em maquinário agrícola e transporte, se tornou uma das principais fontes de insatisfação. “Não podemos mais suportar esses preços. Sem resolver isso de maneira séria e rápida, o agronegócio inteiro será comprometido”, afirmou José Henrique Duarte, agricultor da região de Rio Verde.
O protesto terminou por volta das 20h do mesmo dia, após negociações entre os manifestantes e autoridades locais, que pediram a desocupação voluntária do centro histórico. Não foram registrados confrontos ou incidentes graves, mas os desdobramentos do ato seguem sendo acompanhados de perto, tanto pelo poder público quanto pela sociedade civil.
O episódio reforça, mais uma vez, a necessidade de diálogo entre setores estratégicos da economia e o governo para evitar a escalada dos conflitos. Além disso, evidencia a urgência de regulamentar o uso de espaços urbanos sensíveis para manifestações, garantindo que demandas legítimas possam ser expressas sem colocar em risco o patrimônio coletivo.
Com a crescente polarização política e os desafios econômicos enfrentados pelo país, manifestações como essa devem continuar a provocar reflexões sobre os limites e responsabilidades da liberdade de expressão em um estado democrático. Resta saber se o equilíbrio entre direitos e deveres será alcançado antes que os custos, econômicos e culturais, se tornem ainda mais altos.