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INFLUÊNCIA INTELIGENTE TODO DIA

Cai o pano e segue a vida

Entre fé, alienação e sobrevivência, um ensaio sobre a condição humana na era pós-tudo, Antônio Lopes, doutor em Ciências da Religião, analisa o esvaziamento da experiência humana entre espiritualidade, consumo e desigualdade social, articulando filosofia, cultura e crítica contemporânea

Entre a neblina do mundo e a luz possível, o homem permanece — sobrevivendo, crendo e insistindo em existir.
“Quando o gato ri do rato,
existe um buraco por perto.”

(Provérbio africano)

A existência material, amalgamada ao espírito, determina a sobrevivência a ser (des)construída. É uma caminhada que ensina, ao tempo em que se torna aprendizado por intermédio da (con)vivência — experiência que resulta na “voz do instinto ou o pressentimento, conselho íntimo e oculto de um Espírito que vos quer bem” (Allan Kardec, 2004, p. 14). Ao beber da religiosidade, sem engasgar, o ser humano intenta amenizar a concretude da vida limitada por instintos (des)humanos.

Nesta velha questão filosófico-existencial, a reflexão/inflexão/pulsação adentra o caminho desconhecido que parece alcançar muito além do horizonte, sobressaindo à razão (tra)vestida de irrazão. Desse modo, cabe a provocação na letra de Renato Russo: “Acho que você não percebeu que o meu sorriso era sincero, sou tão cínico às vezes. O tempo todo estou tentando me defender. Digam o que disserem, o mal do século é a solidão, cada um de nós imerso em sua própria arrogância, esperando por um pouco de afeição” (Esperando por mim, 1996).

Este é o caminho estreitado pelo sacrifício da sobrevivência e pelo sacrilégio do salário, iluminado e movido a fé, crença e ideologias descartáveis. O pós-modernismo perpassa as diversidades e expressões da parca quantia mensurável de humanidade disponibilizada, exposta e precificada na vitrine fetichista do capital. Trata-se de um signo capaz de atrelar ao corpo material — pobre em espírito — a intenção e o esboço de uma realidade não mais forjada a ferro e fogo, Ciência, Filosofia e Religião, mas no imagético. Arma de guerra abstrata, capaz de fazer dançar na sala de espelhos as almas penadas, recortadas a bisturi e ilusão, cicatrizadas no contrato da barbárie psicossocial a longas prestações.

A modernidade é banhada a ouro em pó da “Era Pós”, “pós-tudo” (Eric Hobsbawm); busca e finge algum significado, significância ou justificativa no valor de signos e coisas vendidas ao custo e mote da superexposição impulsionada pelas plataformas digitais. Espécie de câncer existencial, o lucrativo adoecimento coletivo alimenta a fornalha digital com a propulsão e imposição dos algoritmos, ferramenta virtual dos grandes conglomerados embebidos na informação incessante, multifacetada e transnacional.

Na verdade, penso sem saber se me acho ou existo. O ser, estar e perceber-me vivo no boteco copo-sujo exige-me o pouco saber abortado da sabedoria: entender muito pouco por longos tempos, admitir que nada nem ninguém depende de mim ou do Mundo, e vice-versa. Mais fácil (e à meia-boca, boca e meia) engolir o fato e o ato corriqueiro da sobrevivência dos alienados, dos que percebem por partes, sem saber ou sentir a dor que exala na alma dos sujeitos sem face.

O espasmo cerebral, sem importância política alguma, anuncia duas coisas que exigem coragem: a militância e a loucura. Mais que isso, as (in)certezas em fuga dão conta da teimosia inconsequente de permanecer na raia da luta pela sobrevivência esquálida (Karl Marx). A arte da vida, sem arte alguma (Jean Baudrillard), impõe a escola e a escala da sobrevivência, arena na qual o trato da fome e da consciência advém do conta-gotas — fato e ato político da existência e insistência em fazer cair e lutar, tentar e brigar por resultados, sem resultado algum. A resenha da vida retrata as rugas e rusgas na face humana, as quais anunciam e denunciam o existir: insistir sem desistir, pirar e transpirar cada segundo da vida. Vida de crença, vida de fé, vidas secas (Graciliano Ramos).

Dentro da caverna supermoderna, a realidade exterior mostra-se distante e montada a efemeridades. O ermitão entende e sabe terem-no transformado, “a cada lambida das próprias feridas, em mago das ilusões, sem saber se era crime ou castigo e se havia outro cordão no seu umbigo ‘pra’ de novo arrebentar. Ele que foi puxado a ferro, arrancado do útero materno e apanhou ‘pra’ aprender a chorar” (Marcelo Nova, 1972).

À sombra da realidade em caos, o velho sorri apartado em relação a tudo e a todos, mesmo às notícias que contam, na penumbra, a fala de Jesus — revolucionário que fez seu sermão na montanha, e não em redes sociais. Sorte do que resta da humanidade em sã consciência, trupe que expõe a alma em luz ao ler, escutar e entender que os feiticeiros sabem que Deus é energia infinita, luz que ilumina e forja a vida em todo e qualquer lugar. Ele, que sempre caminhou em meio à riqueza de mãos dadas à pobreza, certo de que ninguém “pode contar os grãos de areia do mar, as gotas de chuva, os dias do tempo, mesmo medir a altura do Céu, a extensão da Terra, a profundidade do abismo” (Eclesiástico, 1).

As nuvens de vapor barato (Gal Costa) transformam-se em neblina a envolver os lírios dos campos (Erico Verissimo) e provocam recortes da mente, que viaja e imita os vales e as montanhas a escorrer pelo vale da mente, retratando a vida e morte Severina (João Cabral de Melo Neto). A vaguear e imaginar o alívio do cidadão no conta-gotas da alienação, surgem os muitos valores. Apartados da verdade, alheios à consciência, maravilhados ao sentirem-se vivos apesar do corpo cansado — que não mais acompanha ações impensadas —, os proletários da Terra, mesmo sem terra alguma, sabem que se “a vida pede a morte talvez seja muita sorte eu ainda estar aqui. E a cada beijo de desejo eu me entorpeço e esqueço de tudo que eu ainda não entendi” (Camisa de Vênus).

Essa loucura instalada segue apartada da consciência de Michelangelo, que afirmou ser “o amor a asa veloz que Deus deu à alma para que ela voe até o Céu” (1475-1564). O homem comum recorda alguns de seus pecados, implora por um naco de milagre, alguma herança concreta da vida plena tornada absurda e abstrata, fadigada e insana, violenta e violentada pela labuta infindável da peleja diária.

E, sem pretender ser a melhor resenha, o risco de giz expõe na lousa a melhor aula do semestre: a humildade do mago, as certezas e legados dos que não mais acreditam nas muitas gentes efêmeras, plastificadas, rasgadas e hipócritas. Dentre as perspectivas riscadas, uma remete à História Cultural das Identidades, memórias e representações da própria História, da boa música e da juventude que ergue o homem e suas relações. A coletividade anda mal, manchada com a tinta cor da guerra, atiçada e imposta pela “Era Pós”. O Planeta retrata-se armado de hipóteses vazias, falaciosas pretensões de mercado, modismos, máscaras e mentiras, virtualizando o comportamento geral capaz de disfarçar pessoas “que todos os dias arrumam os cabelos sem se dar conta de arrumar o coração”, provérbio chinês apontado por Frei Clarêncio Neotti.

A última página do jornal retrata expressões e crenças contemporâneas. Sob a perspectiva da religião (con)vivida, denotam estreita correlação com a migração-imigração em caos globalizado. A transcendência retrata a liberdade de crer, aproxima a paz e expulsa as armas tecnológicas. O outro lado da mesma moeda podre, fundida a ouro roubado dos Yanomamis, retrata os famintos. Povos que caminham presos, doentes, errantes pelas Américas e outros Mundos, expulsos pelas guerras pontuais a fazer o pensador escrever mil contos ao tempo e ao afano da sua própria história. A expectativa de ressuscitar a concretude do corpo ao juntar pedaços da cabeça animal (Raul Seixas) denuncia o desejo de reconstrução e cura da turbulência mental e emocional, concreta e abstrata, física e material. Certo é que Ciência e Religião fazem par com a Filosofia, ocupam espaços públicos e privados, interdisciplinares, e demandam estudos e reconfigurações contemporâneas das coisas e da Humanidade.

Manchete semanal: o lazer do pobre habita os templos em dias de ócio. A classe social menos abastada sorri à luz da superinformação e de promessas que movimentam gerações, promovem o consumo e fomentam algum significado e sentimento de pertença em tempos de mídias sociais. A vida cotidiana segue incessante e transformada pela artilharia midiático-religiosa conjuntural, sendo “assim que deve brilhar vossa luz diante dos homens, para que vejam as boas obras ...” (Mt 5,16). Isso, sem olvidar jamais que “o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no Dicionário”, segundo Albert Einstein. A saber o que cada final de tarde avisa aos pensantes: “serem eles perfeitos como são, com todas as imperfeições; perfeitos, e se são imperfeitos, sendo perfeitamente imperfeitos, ainda assim a perfeição está lá!” (Osho).

Nessa toada, e fora do templo, surge a crítica conjuntural de que o núcleo central na vida de Jesus não foi a Religião, mas a missão de humanizar o Mundo. A História Social conta das e sobre religiões, cultura, teorias, metodologias e teologias de dominação, alienação e libertação. O teólogo espanhol José Maria Castillo aponta: “mais do que com a religião, deveríamos nos preocupar com a saúde, a alimentação e as relações humanas porque Jesus não fundou uma Igreja, ele inaugurou uma nova maneira de conviver” (2017). Desse modo, aproximam-se as férias em meio a muitos feriados, a maioria em homenagem a santos que pululam por entre incontáveis deuses capitalistas, devidamente assessorados por diabos empregados e empreendedores do mercado global informal, a denunciar a desigualdade socioeconômica e existencial.

Assim, “os homens supõem ser-lhes possível fraudar impunemente leis que regem destinos do Espírito, proclamando o império da matéria, matéria essa que, aliás, ignoram o que seja” (Vinícius, 2015, p. 277). Então, “o que se passa na luz acesa da sala? Pensa-se uma escuridão clara. Não, não se pensa. Sente-se essa coisa que só tem um nome: solidão. Ler? Jamais. Escrever? Jamais!” (Clarice Lispector, 1986).

Para além das suposições, manipulações e destinos traumatizados, as relações étnico-raciais moldaram outra História. Conta parte da realidade escondida sobre a Casa Grande e até da Senzala, a luta diária que assassinou crianças, mulheres e homens escravizados. A afrodiáspora revela culturas e comunidades de origem africana espalhadas Mundo afora. São humanidades sequestradas de sua terra pelo poder do tráfico transatlântico, lucrativo e diabólico, dos capitães do mato a serviço da colonização e do saque de povos, de suas dignidades, afanados em seus aspectos culturais, sociopolíticos, artísticos e no conhecimento popular.

A cultura e a identidade local refletem as manifestações de preservação de aspectos culturais, sociais, políticos e artísticos resultantes dessa dispersão — e sua música, literatura, religião, conhecimento geral. As tradições bebem da violência da escravidão, da agressividade Colonial. A resistência de comunidades negras que permaneceu viva nos Quilombos historicamente remete ao feiticeiro do fim do Mundo, Mandinka; ao caçador de gente, Marrano; à grande guerra do Cerrado Kayapó — trilogia do escritor e doutor em Marx, A.F. Beyle.

As epistemologias e saberes alternativos, assim como seus agentes, sempre foram marginalizados pelo pensamento ocidental eurocêntrico colonial, incapaz e avesso às conversas e interações com pessoas, referências e crenças com raízes na África e em outras culturas. Estas desenvolveram, na América Latina e em diversos continentes, um perfil e contexto para além do entendimento dos eruditos coloniais burgueses, cujo salário estatal os assegura, ainda hoje, estarem instalados nas Casas de Leis, Cultura e outras efemeridades articuladas ao sabor do chá das cinco. Longe da mesmice e dessa cultura, a sabedoria popular avisa e alerta que “quando o gato ri do rato, existe um buraco por perto” (provérbio africano).

E o pulso, ainda pulsa!


Antônio Lopes

Bacharel e mestre em Serviço Social, doutor em Ciências da Religião (PUC-Goiás); pós-doutor em Direitos Humanos (UFG); professor de Humanidades, pesquisador em Mídia, Prisão, Religião e Cultura; editor, escritor e revisor membro do Conselho Editorial da Kelps Editora.

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